O feminismo vem das entranhas da mulher

Por Paulo Ghiraldelli - Especial para o iG |

compartilhe

Tamanho do texto

Para o filósofo, todas as mulheres são feministas, mesmo sem saber ou sem assumir

Toda mulher é feminista. A diferença é que algumas assumem, outras não. Mesmo quando as mulheres querem homens másculos, que as façam obedecer, elas são capazes de tomar a dianteira e exigir deles um tal comportamento. Atuam quase que dizendo, ou dizendo mesmo: “seja homem, me ponha no eixo (seu banana)!”.

Conheço bem o feminismo, tanto quanto as feministas - sou “PhD” na arte de lidar com mulheres. Nunca fiz outra coisa na vida!

O feminismo é um bicho de mil cabeças, e o tronco comum do animal não é sua superfície repleta de brotoejas de estereótipos, mas o seu sistema circulatório, aquilo que torna a mulher proprietária dos caminhos de seu próprio sangue. Trata-se de um animal que pode bombear o sangue para a extremidade que quiser do seu corpo. É árbitro do jogo e ao mesmo tempo jogador.

Esse feminismo está longe de ser aquele que Nietzsche imaginou, recortou e explorou. Ou, melhor dizendo, o que denomino de feminismo não nos dá a feminista como um tipo, ou seja, como um personagem da filosofia de Nietzsche. O filósofo alemão nunca teve senão dois tipos, o escravo e o senhor, todos os outros não foram outra coisa que versões destes. Sua “feminista” estava ao lado do “homem moderno” ou do “liberal-democrático” ou do “anarquista” ou do “socialista”, todos expressões do “fraco” ou “doente” ou “escravo”. Tipos no campo da evolução moral dentro de uma filosofia da história guiada pelo fio condutor da desvalorização continua de todos os valores - o niilismo. Não, nada disso pinta meu quadro, onde está a feminista.

Ora, minha feminista não pertence ao que é facilmente recortável. Trata-se, antes de tudo, de alguém que quer fazer valer a sua vontade, contra as vontades que desde sempre quiseram abafar a sua. Toda e qualquer mulher que assim quer e age é feminista. Em suma, toda mulher - ou quase isso.

É difícil ver uma mulher que não queira fazer valer a sua vontade. A mulher é cheia de vontades porque nela a própria vontade racional se alimenta de guloseimas vindas de elementos não racionais, ou seja, de desejo. São elementos de digestão difícil, dão a sensação de preenchimento. No homem, a vontade e o desejo são separáveis, e isso confundiu os filósofos. Nós filósofos não temos tido olho clínico para a mulher, cuja natureza (entendam o uso soft do termo!) é a de quem faz a vontade ficar mais forte, mas pesada, à medida que chama junto de si o desejo.

O não entendimento do feminismo por parte dos filósofos é, até hoje, uma incrível deficiência. Talvez não possamos mesmo entender o feminismo. Pois quando encontramos as mulheres se pondo a favor ou contra o feminismo, não sabemos que elas estão mentindo. O que apresentam, para aprovar ou condenar, não é o feminismo. O feminismo não se apresenta assim, fácil. Ele está escondido nessa alma, nesse sangue etéreo que o homem não possui e não sabe enxergar. Caminha na alma soturna em que as decisões aparecem como que em cartas de baralho da sorte. Por essa alma é feito tudo o que a vontade racional tem de fazer, e ao mesmo tempo nada se faz efetivamente contra a parte não racional, os desejos, mas, muitas vezes, em função deles ou os levando em conta. O grande psicólogo Nietzsche, nesse detalhe, não viu o que estava sob o seu nariz.

Na comédia romântica argentina A sorte em suas mãos (Daniel Burman, 2012) é esse (meu) feminismo que está em cena, mas também nos bastidores.

A história é simples e está prenhe de clichês de comédias românticas americanas. Mas um filme argentino é sempre argentino. Em outras palavras, o filme argentino, talvez um dos melhores do mundo na atualidade, mantem sua marca também nesse campo, recriando o inédito dentro do que pode parecer não caber qualquer novidade.

No filme, Uriel é um homem de meia idade, dono de uma financeira que herdou do pai. Ele é um bom jogador de pôquer, um cara correto, divorciado e que tem dois filhos pré-adolescentes, um casal. Namorou Glória na juventude, mas ela o deixou abruptamente, sem explicações. Eles se reencontram já mais velhos, e ela conta que o deixou porque ele não era um namorado autêntico, ou seja, não era alguém maduro que fazia o que dizia, que era capaz de realmente namorar, assumir compromissos etc. Mas, a essa altura da conversa, Uriel já havia cometido, novamente, um erro do passado: ao invés de contar como era a sua vida, inventou que era um produtor de shows. Ou seja, Uriel usou do blefe. Ainda não sabia o que só o seu médico, depois lhe ensina: na vida não dá para ganhar como no pôquer, ou seja, blefando.

Glória logo ficou sabendo da mentira e, então, mostrou claramente para ele o quanto ainda o achava imaturo. A partir daí o enredo cresce, sempre no “estilo Mr. Magoo” que é o próprio das comédias românticas, e o final é espetacular. O que me importa não é o final, que eu não ousaria contar, é claro. O que me interessa aqui é exatamente o que ocorre nesse momento no filme.

Glória vai com a mãe à casa do pai, recém falecido. Abrem a casa juntas e após remexerem aqui e ali começam uma inevitável conversa. Glória pergunta para a sua mãe o que havia ocorrido que a fez se separar de seu pai. Inicialmente a mãe diz não saber muito bem, mas acaba confessando, afinal, conhecer o motivo. Aos poucos, como ela conta, o marido foi perdendo o brilho porque não a acompanhou nos estudos e na ambição. Ele havia se tornado um cara comum e, talvez, uma barreira para as ambições de uma esposa que se tornava escritora, mulher de carreira intelectual. Mas, ao dizer isso, nesse exato momento, a mãe parece reconhecer que errou, que aquele motivo, contado daquela maneira, finalmente mostrava-se como de pouquíssimo valor. Era banal demais para ter sido responsável por uma separação e, no entanto, havia feito o estrago desnecessário que fez. É exatamente nessa hora que Glória, escutando a mãe, perdoa Uriel. Ela não diz, mas as imagens dizem: ela, Glória, não irá cometer o erro da mãe, não vai exigir de quem ama que este seja um super-homem, pois super-homens não existem. O amor tem um componente erótico, de desejo puro, que não se impõe.

Eis aí que ela, Glória, põe sua vontade na decisão de procurar Uriel novamente. Mas sua decisão não é um ato da vontade racional somente. É uma vontade que se nutre da companhia do desejo. Nisso, Glória mostra que tem as rédeas de sua vida em suas mãos. Que sua alma está cheia do sangue do sistema circulatório que ela, por dom divino, comanda. O bicho do feminismo está nela: tomar as decisões que precisam ser tomadas em favor de si mesmo, pela sua autonomia e em promoção de sua própria felicidade - eis aí o animal. Nenhuma convenção social, nenhuma decisão tem que ser tomada senão aquela que se quer tomar. O feminismo é pleno aí, pois ele cumpre a sua essência, que é fazer brotar um tipo de “ousai saber”. O feminismo é o equivalente, para as mulheres, do Iluminismo de Kant. Afinal, Kant fala em humanidade mas, como o próprio filósofo confessa, é algo que não pode ser cobrado de “todo o belo sexo”. Então o feminismo aparece na alma para dar às mulheres a sua Aufklärung.

O feminismo assim visto, e como ele aparece de maneira tão clarificante, doce e inteligente em A sorte em suas mãos, é uma benção. Nenhuma mulher pode dizer que não gosta do feminismo. Não há muito outro caminho para a mulher, ele lhe é interior. Ela trilha esse caminho do animal de mil cabeças, mas que, por isso mesmo, por tê-las em demasia, não decide com elas, mas por meio de um estranho mecanismo de autocontrole do sistema interno, algo que o homem não sabe e não pode fazer. Não é de sua natureza.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ - http://ghiraldelli.pro.br

Esse texto é dedicado para a Fran, minha esposa, e também para duas feministas cuja amizade me é querida, Zezé Rocha e Susana de Castro.

Leia tudo sobre: feminismofeministasPaulo Ghiraldelli

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas