Le Skylab ou 'Crianças no rumo do tesão e utopia'

Por Paulo Ghiraldelli , iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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Filósofo fala sobre comédia francesa que mostra uma garota de 11 anos, Albertine, descobrindo o amor

Le Skylab é a comédia francesa que fui ver ontem com a Fran, em uma pré-estreia que entrou pela madrugada paulistana. Melhor impossível! O filme tem como cenário uma reunião familiar para o aniversário da vovó. Desfilam ali os personagens de uma família francesa de classe média em 1979. Em termos gerais, há pouca diferença entre a família apresentada no filme e a nossa, brasileira, nos anos setenta. No centro do filme há a garota de 11 anos, Albertine, que está descobrindo o amor ao dar passos para ser quase uma teenager autêntica.

Albertine é franca e tem um modo sincero de se preocupar com as coisas. Todavia, sua sinceridade é desconcertante às vezes. Ela é carinhosa e atenciosa, embora comande frases realistas demais. São frases típicas do pré-adolescente que, diferente do adolescente, leva a sério demais o que os pais falam a respeito do destino e das leis da vida. Por exemplo, é fantástica a cena em que ela vai conversar com a avó no quarto, para um “boa noite”, e diz sem cerimônias que estava ali porque a avó poderia morrer dormindo, e que ela não queria que a avó se fosse sem que lhe desse um abraço. “Pessoas velhas podem deitar e não acordar nunca mais” – diz a garota.

Albertine guarda algo que a filosofia precocemente romântica deu ao mundo, e que sempre foi um elemento questionador da famosa austeridade da pedagogia francesa, bem ciosa de fazer das crianças adultas rapidamente. Ela, a garota, abriga o espírito de Rousseau, o filósofo que disse que a infância deve ser preservada o mais possível enquanto uma época da vida individual. Isso porque, na conta de Rousseau, a verdade em forma de sinceridade pertence à alma da criança. Quanto mais tempo convivemos com a sinceridade, mais poderemos ser nós mesmos, escapando em parte da máscara social que um dia, definitivamente, vestiremos. Albertine realmente ainda não é uma adolescente e, portanto, não está na idade em que surgem as cobranças mais pesadas em favor da adoção da chamada “hipocrisia necessária”, aquilo que permite (mesmo aos franceses!) a melhoria do trato social e que faz de todos nós pessoas mais suaves e, ao mesmo tempo, mais entediantes.

A pequena boa atriz Lou Alvarez faz o papel de Albertine. A escritora, produtora e diretora do filme também atua. Trata-se da bela e talentosa Julie Delpy. Ela faz a personagem que é a mãe de Albertine. Em determinadas participações na imprensa, comentando o seu premiado filme, Delpy diz claramente que as cenas tem a ver com o que ela viveu, inclusive aquelas partes que mostram as “brincadeiras de médico” e “papai e mamãe”. Ela realmente brincou disso com os primos. Nada de sexo com penetração! Peço calma aos que estão chegando só agora no âmbito da cultura: fiquem tranquilos, o filme não tem “cenas pornográficas” e nem é uma “apologia à pedofilia”. O que Delpy diz é que ela, na vida real, fez aquele tipo de brincadeira que, salvo engano, as crianças aqui chamam de “brincar de montinho”. Crianças de nove a 14 anos deitam umas sobre as outras, se roçando e se esmagando. Trata-se de algo muito prazeroso, divertido, e sem sombra de dúvida é uma experiência que tem a ver com sexo. Às vezes uma brincadeira dessas pode ser desenvolvida só por um par, deixando um rastro útil na vida de ambos.

Nas suas entrevistas, Delpy tem dito que essas brincadeiras sexuais lhe fizeram muito bem. Nada de traumas. Nada do que é o “perigoso e horroroso”, e que alimenta o tabu a respeito da sexualidade das crianças (ainda!). Mas, mesmo assim, é uma experiência de contato sexualizado. Delpy tem conversado isso abertamente, e o mundo ainda não caiu sobre ela (!). O que ela conta é o que era bem corriqueiro naquela época, algo normal e que não levou ninguém a se matar depois de adulto. Havia mesmo em nossas famílias, grupos de primos e primas dormindo juntos e se pondo em brincadeiras que envolviam contatos físicos, fazendo brotar carinho, tesão e prazer – existiu isso para a geração de Delpy e, enfim, para a minha, que é mais ou menos a dela.

É exatamente sobre isso que quero falar: esse mundo de Le Skylab tinha lá muito de pequenas vitórias advindas dos Sixties, de “Maio de 68”. A minha geração não conheceu a insensibilidade por meio de uma educação rígida. Ao contrário, tivemos uma educação liberal. Os adultos se mostravam mais ingênuos e, enfim, nos deixaram mais livres. E nós, é claro, tínhamos mais chance de mostrar o corpo uns para outros bem como passarmos por experiências físicas, sexuais digamos, na transição para adolescência. Aprendíamos como era bom tocar e ser tocado, e como de fato a pele do outro podia sentir dor, frio, calor e, fundamentalmente, uma coisa estranha que nós ainda não sabíamos o que era, mas era tesão.

Essas experiências que eu vivi e que Delpy, muito mais corajosa que eu, não diz só que viveu, mas ainda por cima põe em um filme com um clima autobiográfico, até hoje me são valiosas. Impediram que meus terminais nervosos se estragassem e se tornassem insensíveis ou debilmente sensíveis. Todas as vezes que me imagino vencendo um mundo que quer fazer de mim uma coisa, que quer me jogar na trilha da insensibilidade e da reificação, penso em como foi importante ter podido viver o que vivi.

Le Skylab diz respeito, em muito, ao tema da utopia. Faz qualquer um de nós que leu Isaiah Berlin – um dos que tentaram nos convencer do quanto a utopia é um mal – a acreditar que a ingenuidade que ele denuncia talvez seja menos ingênua que a ingenuidade de seus pressupostos. Muitos pensadores (Max Horkheimer à frente) destacaram que famílias rígidas, proibidoras de amores, sempre foram úteis no sentido de provocar os jovens, que então respondiam por meio da luta pelo que queriam, buscando a moça ou o rapaz que desejavam ter “por amor”, contra o casamento arranjado pela família, típico das elites, em qualquer época. Na sanha de fazer vingar uma vida romântica, de modo a ter de fato o que passou a se chamar, então, de “o verdadeiro amor”, punham no horizonte uma utopia – a utopia do amor. Para os pensadores da Escola de Frankfurt, isso educou muitos no sentido da luta por aquilo que se quer na vida, o que em boa medida vai em favor da utopia social. Ou seja, os jovens, tendo vivido esse confronto com a família, teriam tido mais fibra para desejar forçar os mais velhos a mudar de opinião, a ceder, a abrir passagem para “um mundo novo e melhor”.

Minha tendência é a de concordar, em parte e só em parte, com essa tese dos pensadores da Escola de Frankfurt. Todavia, Le Skylab diz o contrário, e é convincente. O clima bem menos repressivo dos anos setenta contrasta absurdamente com o clima dos anos cinquenta e mesmo sessenta. Os pais dos anos setenta são rígidos, sim, mas a camaradagem é assustadoramente maior e a liberdade conquistada por adolescentes e pré-adolescentes é suficiente para que os adultos se esqueçam – ou finjam se esquecer, propositalmente – da sexualidade infantil exatamente para que os filhos a vivam como tem de viver, em favor de se tornarem pessoas que decidem o que querem fazer. Albertine, uma vez adulta, se mostra uma moça que luta pelo quer. Ela não se torna uma moleirona por conta de uma educação e de uma família mais liberal que a do passado.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor e professor da UFRRJ, http://ghiraldelli.pro.br

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