Livro conecta episódios da ditadura Vargas

Por Vasconcelo Quadros - |

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Há exatos 59 anos Getúlio se matou. No segundo livro da trilogia, Lira Neto decifra enigmas de seu governo

Na madrugada de 24 de agosto o então presidente Getúlio Dornelles Vargas trancou-se no quarto, sacou o revolver 38 com cabo de madrepérolas que carregava no bolso do roupão de dormir e, com um tiro certeiro, explodiu o próprio coração. Saía da vida para entrar na história e, como sugeria a versão definitiva da carta testamento encontrada a seu lado, deixava um enigma que só agora, 59 anos depois, o jornalista e escritor Lira Neto começou a desvendar.

Vasconcelo Quadros/iG
Lira Neto desvenda enigmas quase 60 anos após morte de Getúlio

Em seu segundo livro da trilogia (Getúlio, 1930 a 1945. Do governo provisório a ditadura do Estado Novo), Lira Neto desnuda o legado mais importante do chimango Getúlio Dornelles Vargas. É o período em que, para consolidar a ditadura, Getúlio tempera sua formação positivista com um maquiavelismo, livra-se de companheiros e antigos adversários que seguiram com ele para o Catete, fortalece a blindagem militar _ sustentada pelos generais Góes Monteiro e Eurico Gaspar Dutra, que em 1945 o derrubariam _ e, vivendo sempre nas entrelinhas das conspirações e dos solavancos das tentativas de golpe, estrutura o regime autoritário.

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“Deves ter ouvido falar que política se assemelha a um jogo de xadrez. Indiscutivelmente, em alguns pontos se assemelham. Por exemplo: eu sou uma pedra que foi movida da oposição que ocupava. E eles pensam que vou permanecer aonde me colocaram. É o grande erro deles. Não sabem que vamos começar um novo jogo _ e com todas as pedras de volta ao tabuleiro”, vaticinaria ao piloto do avião que o levaria de volta a São Borja, no dia 1º de novembro de 1945, depois de 15 anos no poder.

É o último trecho do relato de Lira Neto. Nas 491 páginas anteriores _ complementando o primeiro volume _, ele reconstitui o período garimpando documentos inéditos em arquivos e amarrando os episódios com os manuscritos deixados pelo ditador em 13 cadernos que, em 1995, foram editados em dois volumes com 1.200 páginas. O final do segundo volume é também a deixa para o próximo e último, que Lira Neto lançará no ano que vem e que trará os detalhes da intensa articulação que Getúlio comandou do exílio em São Borja para voltar ao poder em 1951 pelo voto.

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O que se lê é um riquíssimo roteiro que, do empastelamento de jornais como o Diário Carioca e o conflito entre estudantes integralistas contra militantes tenentista do Partido Popular Paulista, na Barão de Itapetininga, centro velho de São Paulo, forneceria combustível para a Revolução Constitucionalista de 1932. Nesse segundo volume da trilogia, Lira Neto situa seu biografado também na revolta comunista de 1935, no golpe que terminou no Estado Novo, na criação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e na Segunda Guerra Mundial.

Lira Neto reconstrói e amplia episódios maltratados pela bibliografia, como a invasão a cidade argentina de São Tomé, vizinha de São Borja, pelo irmão de Getúlio, Benjamin Vargas, o Bejo, e pelo futuro chefe da segurança pessoal do ditador, Gregório Fortunato. Conta com riqueza de detalhes a invasão do Catete pelo comando integralista que por pouco não matou a família Vargas.Os detalhes são cinematográficos: “Nós não nos renderemos”, respondeu o presidente diante do aviso da filha Alzira, de que estavam atacando o Palácio. “Não derramem seu sangue que este governo já está deposto”, gritou o líder do assalto, o tenente Severo Furnier, ajudante de ordens do coronel Euclides Figueiredo, pai do futuro presidente militar, o general João Figueiredo.

Serventes, contínuos e garçons que trabalhavam na residência presidencial não atenderam o coronele, com os poucos revólveres e pistolas disponíveis, ajudaram Getúlio e os filhos na resistência. “A calmaria provisória foi quebrada pelo ronco de um motor de automóvel, a toda velocidade, pelo portão principal do jardim. O carro, onde se encontrava Benjamin Vargas com um grupo de amigos, foi recepcionado por uma descarga de fuzis integralistas.

Bejo (...) soubera do ocorrido e viera para junto da família, arriscando uma entrada tão perigosa quanto triunfal. Por sorte conseguiu entrar no Palácio (Guanabara) sem sofrer um único arranhão”, diz um dos trechos.

Lira Neto conta que os funcionários guarnecia o andar de baixo. O topo da escada que dava acesso aos dormitórios era ocupado por duas alas de defesa. Bejo estabeleceu posição na primeira linha de tiro. Ao seu lado, na outra ala, Julio Santiago, companheiro de batalhão provisória de São Borja. Alzira e Maneco ficaram a alguns metros atrás. “Caso Bejo e Santiago tombassem, os dois irmãos defenderiam o pai, se preciso, com as próprias vidas”, informa.

Getúlio, com revólver na mão, andando de um lado para outro, não se continha na retaguarda, rompendo o cordão de isolamento estabelecido pelos filhos. “Papai, pelo menos senta. Não fica aí servindo de alvo, e logo na frente da janela”, suplicou Alzira.

O confronto terminaria com a chegada de socorro, com horas de atraso, mas teria um desfecho que só agora Lira Neto, ao ligar documentos e declarações, joga luzes: os nove integralistas mortos em suposto confronto teriam, na verdade, sido fuzilados por Julio Santiago a mando de Bejo no próprio palácio presidencial.

O relato de Lira Neto mostra as várias faces do ditador que flerta com a morte o tempo todo, ao ponto de manter pronto um esboço da carta testamento e em várias vezes ensaiara o suicídio nas escritas que fazia em seu diário. O livro amplia a compreensão sobre a invasão de Santo Tomé, na Argentina, na fronteira com o Brasil, por uma ação articulada de São Borja por Bejo em apoio a guerrilha dos montoneros argentinos.

O comando dos brasileiros foi de Gregório Fortunato, o filho da cozinheira do general Manuel Vargas (pai de Getúlio) que lutaria na resistência a revolução paulista e, em 1954, teria papel decisivo na crise que terminou na tragédia. Para compensar as perdas argentinas, Getúlio teria ordenado uma indenização paga, supostamente, pelo Departamento Nacional do Café através de documentos que desapareceram no Itamaraty. O Getúlio de Lira Neto é um passeio pelo período mais intenso da República.

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