Beijo ocidental, estupro oriental

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG |

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Filósofo fala do estupro coletivo na Índia. "Para quê tocarmos nesse assunto, não é?"

Na porta da balada a garota abre o Facebook e põe lá, para a sua “galerinha”: “vou entrar e beijar muito”. Ela diz para o porteiro que acabou de fazer dezoito anos. Ele acredita. A cabeça dela é de doze anos. “Beijar muito”, para ela, é beijar vários garotos e garotas na boca. “Beijar muito” não é “beijar bem”. Mesmo que encontre alguém que beije gostoso, ela não pode ficar com ele ou ela a balada toda, pois desse modo não irá cumprir o prometido, que é “beijar muito”.

AP
Ativistas indianas seguram cartazes durante protesto contra estupro coletivo de uma fotojornalista em Mumbai


Ainda existem pessoas que podem condenar essa menina de maneira moralista, ou melhor, moralistóide. Claro, há dinossauro com manual de moral solto por aí. Mas a questão aqui não é dessa ordem. Minha questão é bem outra. Sou um filósofo esquisito, que faz perguntas médicas quando muitos esperam que eu faça perguntas éticas e morais. Minha dúvida sobre a garota beijoqueira é quanto ao que pode ter ocorrido com os seus lábios, com a sua sensibilidade labial.

Interesso-me pela boca da garota porque o uso desses lábios fere o que nós filósofos tendemos a tratar como hedonismo, algo associado ao utilitarismo. O hedonista quer prazer. O utilitarista que a ele se associa quer sempre potencializar o prazer e diminuir a dor, ou seja, quer fazer o que é útil. Ora, a garota beijoqueira foge desse padrão: caso ela encontre alguém que beije bem, ainda assim ela passará por outro e por outro e por outro. Importa para ela ter vários experimentos. O número de experimentos pode lhe dar experiência - ao menos é isso que ela imagina. Mas para que ela pense assim e possa agir dessa maneira atlética de frequentar baladas, eu creio que ela tem de ter os terminais nervosos dos lábios confusos ou amortecidos. Pois, se alguém beija bem, o beijo nos prende. Tendemos a prolongar o prazer. A beijoqueira da balada, não!

Diante dessa situação que se tornou comum nas noites das grandes e médias cidades do ocidente, não raro surge um clima de nostalgia. Deve haver algum lugar do mundo em que as bocas não foram estragadas - pensam alguns. E continuam elucubrando: como sempre, desde que o mundo é mundo, a cultura oriental deve guardar essa capacidade de fazer o prazer ser prolongado. Há algo nos orientais, presumem todos, que os fizeram criar o Kama Sutra, que para o leigo é um conjunto de posições que ampliam as possibilidades da vida sexual a dois. Há até os que imaginam que se trata de um manual para o favorecimento da monogamia. Outros pensam que é um livro que irá colocar seu seguidor em um mundo romântico - o mundo de Roberto Carlos, não do romantismo de Hegel.

Assim, na nossa imaginação, o oriente tem lá seus segredos que, se praticados, fariam com que nós mesmos pudéssemos “voltar para casa”. Seríamos as pessoas sensíveis que nossos bisavós contam que eles foram, e que apesar de mentira, nós acreditamos.

No entanto, o oriente nunca foi outra coisa senão o lugar em que a mulher foi vendida, trocada, apedrejada e mantida em rédea curta e sob chicote longo. Além disso, a prática do estupro, que no ocidente sempre foi levada adiante por um homem contra uma mulher, no oriente é algo coletivo. A Índia verdadeira, que não é a da Rede Globo, é o lugar em que há uma prática comum de abrir as pernas de uma moça ou menina de modo que uma batalhão a penetre com força, colocando-a à beira da morte.

As mulheres estão novamente nas ruas, lá na Índia, protestando contra o governo que não toma as medidas devidas contra o estupro coletivo, que agora ocorreu com uma jovem de vinte e três anos, estudante de jornalismo. O número de estupros nas ruas do país é assustador. Foram 25 mil no ano passado, 706 em Nova Delhi, a capital. Isso sem contar os casos não registrados. Por que isso? O povo da Índia não é outro senão um povo bárbaro, marginal?

A questão da Índia e do estupro tem a ver com uma situação que não queremos enxergar, porque vê-la não é saudável para vários entre nós. No fundo, cultivamos aqui entre nós uma sociedade pouco igualitária. Claro, não aprovamos o sistema de castas, mas sim o de classes. No entanto, tendemos a ficar bem quietos sobre castas, classes e coisas que nos lembrem diferenças sociais que mantemos. Para quê tocarmos nesse assunto, não é? Não raro, muitos de nós pensa assim. É mais fácil falar em “machismo” que em diferenças de status que se relacionam com a desigualdade social.

É a diferença entre ricos e pobres, a diferença entre posições na sociedade, que permite que os estupradores, vindos de cima, sejam perdoados. A mulher estuprada faz parte, por ser mulher, ao que é desvalorizado na sociedade, não especialmente porque é pobre, mas porque os seus estupradores não são pobres. Pode-se acusar pobres de serem estupradores, mas não são pobres. Raramente são pegos. Assim, a cultura do estupro parece evoluir fácil, pois se dez ou vinte homens entram na vagina de uma mulher, socando-a e sangrando-a, eles não estão fazendo algo diferente dos que, aqui no Brasil, matam porcos aos gritos para o Natal. São gente “de família”.

A sensibilidade do Oriente não é o lugar que temos de procurar pistas para a nossa sensibilidade perdida. A garota beijoqueira pode deixar de lado o que pensa, se imagina que, indo ao oriente, voltará a ter os lábios que Angelina Joly sempre prometeu manter.

Paulo Ghiraldelli Jré filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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