Sasha Grey, atriz pornô, de pernas bem fechadas – ali ó!

Por Paulo Ghiraldelli , iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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Filósofo fala sobre a fila de autógrafos do lançamento do livro da ex-atriz pornô americana Sasha Grey

“Vou ver como ela é e tirar uma foto para o meu Facebook, né?” – essa frase diz muito a respeito do ocorrido na livraria Cultura por esses dias, quando da sessão de autógrafos da atriz pornô americana Sasha Grey. Ela lançou o Julliete Society. Ninguém até agora assinou mais autógrafos que ela naquela livraria central e badalada da capital industrial e comercial do nosso País.

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Getty Images
A ex-atriz pornô Sasha Grey

Sasha ficou menos de cinco horas ali e distribuiu mais de 500 assinaturas. E não só para adolescentes tardios e coisas do tipo, mas para garotas. Algumas compraram o livro, mas queriam a assinatura na camiseta, de preferência em cima dos seios. Sasha não se fez de rogada e meteu a caneta nas jovens rebolantes. E dá-lhe Facebook de novo.

O clima foi o menos erótico possível. Afinal, era um evento literário. Mas sobre a literatura, nenhuma conversa na fila. Em termos de conversa, parecia a fila da venda do livro do bispo Edir Macedo. No caso do bispo (que não esteve presente), ou havia muita gente calada, como que levando os filhos ao zoológico, ou alguns tentando comentar a escalada comercial do “santo homem”. Na fila de Sasha Grey, os garotões e também algumas garotudas teciam comentários sobre se ela, vestida, era parecida com aquela que eles conheciam, mas nua.

Na maior parte das vezes que conhecemos uma pessoa, só bem depois, com sorte (ou azar), a vemos pelada. Mas ali na fila de Sasha Grey todos já haviam participado de alguma performance ginecológica com ela, o que faltava mesmo era saber como é que lhe cairia um vestidinho ou uma camiseta. A conversa na fila que mais se aproximou de algo literário foi quando um adolescente-tardio-“pro” indagou o colega, querendo saber se “pegaria mal” perguntar à autora se os peitos eram ou não “tipo artificial”. De resto, como é comum para essa espécie de novo escritor, a figura da pessoa faz sombra à obra.

Claro que há vários autores que, sem ter jamais tirado a roupa em público e muito menos feito sexo em filme, e produzindo uma literatura inferior ao que há no livro de Sasha Grey, também atraem multidões para seus lançamentos. Tudo depende de exposição na mídia e de ter um público específico disponível. Faz tempo que livro é um pacote qualquer, cuja função, não raro é antes de tudo fazer vingar um lançamento, às vezes até batendo recorde de vendas sem que, depois, saibamos quem é que o leu mesmo. Todavia, em situações como a de Sasha, o que interessa mais, ao menos ao filósofo, é o modo como tal coisa dá um trança-pés no analista. Não raro, os analistas dizem de como a “indústria pornô” ou de como “só quer saber de sexo”. Aí está o equívoco: a presença do grande público ali se deveria ao “interesse pelo sexo”. Seríamos uma sociedade voltada espontaneamente para o prazer.

Nossa sociedade é bombardeada por imagens de sexo. Há mais gente incentivada a procurar pornografia na internet que qualquer outra coisa. Mas tudo isso está bem longe de uma sociedade de forte tendência erótica. Também não denota uma sociedade com apetite sexual. Caso assim fosse, Sasha Grey teria menos público. Uma sociedade com indivíduos que fazem sexo bem feito é uma sociedade calma em termos da propaganda do sexo. No Ocidente, e no Brasil em particular, somos bombardeados pela propaganda do sexo e pelo sexo na propaganda, e isso justamente porque ou alguém nos dá uma injeção visual desse tipo ou não teremos ânimo para o sexo real e, enfim, menos ainda para o trabalho. Não se fala em esporte para um povo de corredores, mas sim para um povo sedentário ou que pode cair no sedentarismo e desistir do uso do corpo.

Tudo bem que muitos dos que estavam na fila de Sasha Grey sejam ativos campeões de masturbação. Isso não muda o diagnóstico que eu coloco. A sociedade anestesiada ocidental, onde todos mostram o corpo ou são somente corpos, é exatamente a sociedade em que o corpo sente muito pouco. Enfim, já competimos com os americanos em número de pessoas tatuadas e até mesmo em número de pessoas tatuadas em excesso. Ora, a tatuagem é uma agressão à pele. No entanto, é feita como se quem desenha e quem é desenhado estejam trabalhando em uma folha de papel. Pessoas como minha mãe e eu, só de pensar em algo cortando nossa pele para deixar uma marca, já caem fora. Ora, minha mãe é de 1928 e eu de 1957. Nós somos pessoas cujo corpo ainda tem terminais ditos nervosos, e não terminais calminhos. Somos old school, gente cuja carne nunca recebeu a pergunta do Tony Ramos.

A insensibilidade corporal é prima de primeiro grau da carência de sentimentos. Por isso mesmo, trata-se de um fator de desagregação e não de identidade e empatia. Como um animal vivo e dotado de mecanismos de feedback, a sociedade reage com doses excessivas de apelos corporais, sensuais e sexuais sobre si mesma quando percebe que a empatia, fator de unidade, está ameaçada. É isso que o Ocidente vem fazendo. Pois o Ocidente não entende a burca e outras coisas semelhantes. Só no Ocidente pode existir a curiosidade de se ver alguém vestido, seja lá com que roupa for, mas vestido. Só no Ocidente é que se quer ver um pedaço do seio de uma pessoa vestida, quando já se viu tudo nela em milhares de filmes. É preciso uma overdose de imagens para que alguma adrenalina faça ainda o papel de adrenalina. Mesmo assim, sem a indústria farmacêutica festejando a venda do Viagra, à noite, não há sexo.

Amortecimento e tédio são a marca da democracia ocidental, ainda que aqui e ali alguns jovens possam ir às ruas e, assim, fazer alguma caminhada, em protestos a respeito de todo tipo de carência que faz do nosso prometido Welfare State algo mais insensível que a nossa pele atual.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ. Acaba de lançar, junto com Susana de Castro, o A nova filosofia da educação (Editora Manole). Site http://ghiraldelli.pro.br

Leia tudo sobre: paulo ghiraldelli jr.

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