Globalização e tédio

Por Paulo Ghiraldelli , iG Rio de Janeiro |

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Para o filósofo, globalização é uma palavra que não é correspondente a algo parecido com união da humanidade

Fred R. Conrad/The New York Times
Brad Pitt atuou em Babel

Uma cidade chinesa está para instaurar aquela lei que no Brasil, por obra das esposas, já foi elaborada e posta em vigor faz tempo. Trata-se da multa para quem não é bom de mira ao urinar. É uma lei injusta, talvez mesmo até um bullying contra uma boa parcela da população: homens muito jovens e homens muito velhos, homens preocupados e homens que carregam maletas, homens com nojo do pênis mesmo que seja o seu próprio, homens com o membro muito pequeno e homens com o membro muito grande, homens que tomam Viagra em dose exagerada e, enfim, homens em geral. Talvez pela internet possamos unir os homens de lá com os de cá, para um protesto. “Ruins de pontaria, uni-vos” – este seria o nosso primeiro brado, estampado em nosso manifesto.

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Como se pode notar, essa notícia me coloca aqui em minha casa como uma vítima semelhante ao multado lá sabe-se onde na China. A notícia faz da minha esposa uma simpatizante da ação da prefeitura da distante cidade chinesa. Como pode?

Richard Rorty escreveu certa vez que as classes médias do mundo todo (e não mais os trabalhadores) poderiam atender aos apelos de união, movidos por identidades de problemas e desejos. Um chinês pobre tem pouco a ver com um uruguaio pobre ou um africano pobre ou um brasileiro pobre. Mesmo que a internet os atinja a todos igualmente, o cotidiano de cada um não os fará entender um ao outro no grau que minha esposa pode entender a prefeitura da cidade chinesa que quer multar homens de pontaria capenga. Compreender isso é uma condição básica para se poder ver em que medida estamos autorizados a falar de “globalização”, sem repetir a literatura sociológica (ou próxima disso) sobre o assunto, que é talvez o que exista de mais monótono hoje nas livrarias.

O mundo é um globo. O mundo é uma bola e todos moramos nela. Reconhecemos isso e, agora mais que nunca, por conta da velhas mídias, das novas mídias e basicamente por obra da universalidade da maneira como a mercadoria põe sua cabeça em cada canto, todos os bípedes-sem-penas que pulam em cima dessa bola sabem alguma coisa uns dos outros. Todos em cima do globo – globalização. Sim, mas o que significa “globalização”, mesmo?

Trata-se de uma palavra que, sabemos, não é correspondente a algo parecido com “união da humanidade”. Muito menos vivemos na direção do Estado-cosmopolita kantiano. Nem o Humanismo e nem o Papa ou os Mariners unificam os que pulam sobre a bola. Um ataque de marcianos nos faria ver a globalização como uma ponte para nos identificarmos uns com os outros? Ora, já houve ataques de marcianos em 11 de setembro de 2001 sobre a Nova Roma, e a reação não foi unificada.

Ora, então, o que se manifesta comum entre os que pulam sobre a bola capaz de justificar o termo “globalização”, e que não seja simplesmente essa pulação sobre a bola?

O filme Babel (Alejandro González Iñárritu, 2006) tentou encontrar algo assim. O elemento que escolheu para ligar as vidas de diferentes pessoas, em especial adolescentes, foi bem significativo: um rifle. Todo os dramas particulares, da japonesinha ocidentalizada de classe média que quer ter sua primeira experiência sexual aos meninos árabes pobres que estragam suas vidas por conta do manuseio tolo da arma, são enlaçados em uma narrativa cujo elo subjacente é o caminho de um um rifle. Um rifle-mercadoria. Nesse caso, a mercadoria, bem exemplificada em um produto que é feito para matar, é o que nos unifica sobre a bola. Isso é diferente do modo que a mercadoria se apresenta como elemento unificador e universal no filme The Bling Ring.

Em The Bling Ring (Sofia Coppola, 1013) estamos em um só lugar do planeta, um só lugar da bola, mas sabemos que ali há cheiro do universal: as mercadorias se mostram apenas como grifes. Essas mercadorias ganham atratividade não pelo valor de uso ou de troca, mas pelo valor de amostragem. Todavia, isso é apenas pré-texto para o cerne do que realmente é universal. Ironicamente o lugar mais idiossincrático do mundo, Hollywood, pode mostrar o que há de comum entre os mais diversos grupos e classes sociais da bola: uma certa anestesia, uma crescente dessexualização de tudo, após o mundo já ter mesmo se deserotizado faz tempo.

Encontramos, então, o elemento que nos articula como puladores sobre a bola, para além da informação que nada informa, que seria dizer “trata-se da mercadoria”.

Em Babel, a narrativa é possível por conta do percurso da mercadoria, do rifle. Os desejos dos personagens se assemelham, e ainda são os desejos de sexo, adrenalina e exercício da curiosidade. Há reatamento de amores e o jogo da solidariedade versus o egoísmo. Os corpos estão comandados, mas relativamente vivos. Em The Bling Ring os corpos parecem comandar, mas estão mortos. O tédio permeia todas as relações. A insensibilidade total atinge exatamente o corpo que, então, se torna elemento de um pequeno espetáculo na “sociedade do espetáculo”, aquele espetaculozinho que cabe no post do Facebook. Mas isso, aparentemente insignificante, é que determina o destino trágico dos garotos. Tão trágico quanto o dos meninos em Babel.

Em Babel ainda há espaço para o desespero, em The Bling Ring não. O olhar final de garoto homossexual que vai para a prisão é muito semelhante ao olhar de quando ele chega na escola, no início do filme, apenas mudado por uma leve tristeza que não esconde o que era já desde o começo a marca central de tudo em nosso tempo: o tédio.

Em Babel, o tédio se manifesta no casal que faz uma viagem para tentar a reconciliação. Claro que o tédio aparece na vida da japonesinha e na vida dos garotos árabes. Mas em grau menor. Em The Bling Ring os corpos estão de tal modo transformados em porta-etiquetas que nada existe senão o tédio. Sofia Coppola no engana por meio da trilha sonora. Ela nos segura pela trilha sonora. Sem aquela trilha, não conseguiríamos ver o filme. O tédio nos invadiria (ou o tédio do filme apenas nos lembraria que, ao sair do cinema, daríamos de cara com o tédio mesmo?).

Talvez possamos entender Babel e The Bling Ring, e quanto esses filmes falam de nós, se nos lembrarmos da fenomenologia do tédio, de Heidegger, expressa em Os conceitos fundamentais da metafísica. O tédio que, como ele exemplifica, não é o tédio disso ou daquilo, mas o entediar-se, como o que nos espera em um passeio em uma tarde de domingo por uma cidade grande.

Paulo Ghiraldelli Jr., 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ. Lançou recentemente o Filosofia política para educadores (Editora Manole). http://ghiraldelli.pro.br

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