Quer sexo com Emma Watson?

Por Paulo Ghiraldelli , iG Rio de Janeiro |

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Filósofo escreve sobre os indicadores que apontam uma nova era para os desejos sexuais

“Sim, sim!” dirão os da minha geração. Mas a minha geração não vale, até os gays da minha geração acenariam positivamente. A questão vale, mesmo, para os que cresceram junto com a senhorita Watson, acompanhando a saga de Harry Porter em filme e livro (escapei, meus filhos leram outra coisa!). É em relação a estes que há a dúvida! Porque há indicadores (nada científicos) que estão me convencendo de que vivemos na embocadura de uma nova era quanto aos desejos sexuais.

Emma Watson aparece mais sensual em "The Bling Ring", que deve estrear em junho. Foto: ReproduçãoO longa mostra história real de adolescentes que saqueavam casas de celebridades. Foto: DivulgaçãoBling Ring. Foto: DivulgaçãoBling Ring. Foto: DivulgaçãoBling Ring. Foto: DivulgaçãoBling Ring. Foto: DivulgaçãoBling ring. Foto: DivulgaçãoBling Ring. Foto: Divulgação

Vamos por etapas: a grega, a moderna e a que parece despontar no horizonte.

Nossa sociedade é a antítese da cidade clássica grega – a polis. Nesta, a vida era pouco sexualizada e excessivamente erotizada. Afinal, eros (o amor) era antes um deus que simplesmente um sentimento humano. Sua existência objetiva, cósmica e humana, permeava todas as relações. A cidade grega, a polis, era o seu lugar de atuação principal. Eros era o promotor do “desejo do belo”. Sendo os gregos belos (havia ali uma eugenia!), ele era o que é o amor, a união entre as pessoas. De certo modo, portanto, um forte combustível para o que chamamos de sociabilidade (não à toa uma das principais instituições educativas gregas era a pederastia).

Energizando a polis, o erotismo se fez como algo próprio da política (e do saber). Necessariamente era uma atividade masculina. Não podia ser uma atividade entre homens e mulheres. Homens e mulheres faziam juntos uma atividade que também os animais fazem: a procriação. Ou seja, na relação entre homens e mulheres não havia a celebração da liberdade na cultura, mas a prisão na e da natureza.

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O que poderia haver de distintivo no procriar se isto era exatamente o que também os animais faziam? Ora, Aristóteles definiu o homem (e que se leve a sério a palavra “homem” aí!) como um “animal político”, ou seja, um bicho da cidade, da polis, em oposição ao bicho da natureza. A vida grega pública era erótica, política e masculina. A vida grega privada, ou melhor, familiar, era sexual, natural e feminina. A sociedade moderna e burguesa se fez no contraponto a tudo isso. É na herança dessa sociedade burguesa que vivemos.

A sociedade moderna abraçou a separação entre o indivíduo e a cidade de um modo radical, algo completamente diferente da unidade entre o grego e a polis. A vida do cidadão, o burguês, cujo nome indica uma vida urbana, só nessa urbanidade se fez semelhante à vida do grego. “Cidadania” nunca foi uma noção capaz de reproduzir a noção de “política”, como os gregos a entendiam.

O homem moderno radicalizou a dualidade público-privado, e fechou no âmbito privado, sendo que este se tornou, então, um ambiente efetivamente apartado – a casa burguesa, completamente diferente do castelo medieval ou da oikos grega, abertas respectivamente à corte e aos amigos. Mas e o amor (1), e eros? Eros perdeu sua condição divina, se transformou em sentimento e, portanto, veio para dentro do lar. O amor erótico e o sexo se fundiram.

O romantismo, algo tipicamente moderno e burguês, deu a marca distintiva dessa sociedade. Todavia, eros nunca se conformou de todo com sua destituição da condição demiúrgica. Ele sempre foi algo do âmbito público, algo do campo da visão e da convivência (2), uma vez que estava ligado ao desejo do belo. Assim, ele tentou voltar com todas as suas forças para o seu habitat, para o mundo público. Mas, preso à alma e às atividade caseiras do homem, quando conseguiu pisar fora de casa, trouxe com ele o sexo. E como já estava associado à mulher, ao menos em parte a jogou também como elemento da vida pública. Mas o burgo não era a polis, e eros se ressentiu.

Aos poucos eros se tornou irreconhecível, minguou, e no lugar dele ficou o penduricalho que havia vindo com ele, o sexo. Inclusive a palavra “erótico” perdeu espaço para “sexy”, “hot”, “atraente”. O erótico viveu uns tempos como a antessala do sexo e, enfim, sucumbiu. O desejo saiu do campo erótico para desembocar no campo do “sexy” e, enfim, do próprio sexo. O desejo se abriu para o que seria seu destino, a pornografia. E esta, para os que ainda tinham sonhos com eros, se duplicou em pornografia “hard” e “light”.

Chegamos então ao pornô light em filme, e os sei lá quantos tons de cinza ou os livretos protagonizados por todo tipo de Bruna Surfistinha. Até a filosofia, como literatura que é, entrou nesse clima, criando narrativas em favor do “politicamente incorreto”. Todos quiseram sobreviver, uma vez que viver, parece não ser mais possível.

Essa época moderna e burguesa pode não desaparecer de todo, mas ela aponta para um novo horizonte. Nesse horizonte, como eu o vejo, há agora mais uma transformação do desejo. A sociedade do sexo sem erotismo parece se abrir para o “sexy” sem sexo. Trata-se do mundo no qual Emma Watson é “sexy”, mas não tem para quem dar. Seu personagem em The Bling Ring é exatamente isso: “sexy?”, sim, mas “sexy” para quem se os jovens que a cercam se tornaram não só deserotizados, mas, agora, dessexualizados? O único órgão sensível que sobrou, além de um olho vestido do monóculo do Facebook, foi o nariz. Não como órgão do olfato, e sim como uma espécie de conector usb apropriado à coca. A cocaína perdeu sua função orgiástica e cheirá-la se tornou quase que a mesma atividade que a freira executa ao engolir a hóstia. Isso enquanto a própria hóstia ainda é só de biju!

A novas funções psíquicas e fisiológicas que essa era que eu vislumbro necessitarão serão bem simples. As mulheres se tornarão mais útil do que já são, ocupando-se do trabalho que um dia o homem executou. Em uma sociedade dessexualizada, a maior parte das mulheres será recebida de braços abertos.

As revistas que prometem fazer com que as mulheres se tornem “normais”, ou seja, tenham orgasmo (interno), que hoje são a coqueluche, perderão o sentido. Os gays não as substituirão na tarefa de manter o orgasmo como algo existente entre os humanos. Em um primeiro momento eles podem até ser uma força conservadora, prometendo segurar a sociedade no padrão burguês. Mas eles também serão abocanhados pela avalanche de dessexualização que se aproxima. O gay dessexualizado já está na praça, não é verdade? Aliás, em The Bling Ring, ele é um protagonista ao lado da personagem de Emma Watson.

(1) O amor na versão da palavra grega agape é o amor não-erótico, trata-se do amor de Deus e que liga os homens em fraternidade. Trata-se do amor que aparece no texto bíblico grego. Os modernos transformaram também este em sentimento! No Velho Testamento ele era uma relação de Deus com os homens, depois, no Novo Testamento, Jesus o interiorizou tanto quanto já estava interiorizado eros.

(2) Na mitologia grega, Eros aparece de vários modos. Em um deles, Eros é uma criança filha de Afrodite. A mãe percebe que o filho não cresce e procura uma sábia para saber o que fazer. A sábia diz para Afrodite conseguir outro filho. E assim ela teve Anteros, que passou a brincar com Eros. Na presença de Anteros, Eros crescia. Quando Anteros ia descansar, Eros retrocedida e voltava à condição de criancinha. Os gregos sabiam bem que o amor era um deus, mas também uma relação.

* Paulo Ghiraldelli, 55, é filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ. Lançou recentemente o Filosofia política para educadores (Editora Manole). Seu site está em http://ghiraldelli.pro.br

Leia tudo sobre: Paulo Ghiraldelli Jr.

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