Chamar de 'hipócrita!' tornou-se prática do café-com-leite

Por Paulo Ghiraldelli - iG Rio de Janeiro |

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Para o filósofo, denunciar a hipocrisia é uma estratégia sem graça, que não choca mais o homem contemporâneo

Jesus adorava chamar as pessoas de seu tempo de hipócritas. Elas condenavam verbalmente aquilo que às escondidas ou mesmo abertamente eram suas próprias práticas. Jesus enxergava alguma utilidade nessa sua denúncia. Mas, nos dias atuais, apontar qualquer prática social como hipócrita é como jogar água em moinho emperrado. Lava-se o moinho, mas ele não anda. Nossa vida social contemporânea é herdeira da sociedade moderna – a chamada sociedade burguesa – que funciona toda ela com o combustível da hipocrisia, e não faz nenhum segredo disso.

Nietzsche chegou mesmo a hipostasiar essa característica, a hipocrisia, e torná-la a condição básica de toda e qualquer sociedade. Não teríamos nenhuma vida comunitária se falássemos a verdade vinte e quatro horas por dia. “Quanto de verdade suporta um homem?” – perguntou o filósofo alemão. Foi ele mesmo que chegou até a dizer que a verdade é a mentira socialmente aceita! Após Nietzsche, falar de alguém como tendo um mérito por denunciar a hipocrisia de nossa sociedade soa completamente pueril. Ninguém pode ter mérito por contar que o cavalo branco de Napoleão é branco. Aliás, no caso, nem se pode dizer que quem faz tal denúncia está se comportando beneficamente como o garoto que gritou “o rei está nu”. Todos nós sabemos que o rei está nu e todos nós aceitamos que estamos fingindo não ver, e mais, todos nós já gritamos antes do garoto a frase “o rei está nu”. Isso não nos impediu de, em seguida, voltarmos a ficar serenos ali, vendo o rei passar nu. Ultrapassamos figuras como Nelson Rodrigues e Jesus Cristo. O segundo porque sempre cobrou de nós mais do que poderíamos dar, o primeiro porque se tornou pueril. Aliás, no caso em questão, até mesmo Nietzsche não tem o que nos dizer. Quando alguém põe a boca no trombone para dizer “hipócrita!”, quem realmente dá atenção a uma tal pessoa?

Não estivemos errados ao traçar as características do homem moderno como aquele que tem uma subjetividade ampliada, aquele que transformou os deuses antigos em forças psíquicas e que fez até o Deus judaico-cristão cair para o interior do seu peito, transformando-o em amor. Mas, certamente, descrevemos apenas uma parte de nossa saga. Não negamos que é realmente este o movimento de subjetivação que ocorreu e que, nos tempos modernos, se fez como o que produziu o homem enquanto o homem moderno. Mas, o homem moderno não é só isso. Há uma outra dimensão nele, que se destaca nos dias de hoje. O filósofo alemão Peter Sloterdijk tem dito que o homem moderno é aquele que se dedica ao exercício, às práticas de repetição que visam uma performance, de modo a vir a fazer amanhã o mesmo que hoje, mas melhor. Essa visão do homem com sendo um tipo de atleta, em qualquer campo em que atue, até mesmo no filosófico ou altamente criativo, não é assumida por Sloterdijk de um modo negativo. A negatividade é uma de suas facetas. Práticas de repetição dão dois frutos: um primeiro fruto é a própria repetição, um segundo fruto é o objetivo que se quer atingir com a performance em um determinado tempo. Esse segundo fruto pode muito bem ser secundarizado. Então, resta ao moderno uma subjetividade que é pura repetição, ou melhor, mera repetição. O exercício se basta por si mesmo. Mas, ao contrário do que se pode imaginar, não estamos no mundo da fruição. Não é o pintar pelo prazer da pintura ou o dançar pelo prazer de dança ou o conhecer pelo prazer do conhecimento. É o dançar para que a dança amanhã se apresente melhor, o pintar para que o quadro amanhã se mostre mais belo e o conhecer para que a aula ou invento ou a descoberta amanhã se mostre mais útil. Nesse caso, estamos diante de uma subjetividade que, depois de se encher, tornou-se vazia porque está cheia de coisas vazias. Do que vale encher um baú chamado “sujeito” com latas vazias feitas de folhas finíssimas. Em termos de vazio, o baú não perderia muito espaço interno. Ele seria um baú vazio.

Olhando para essa definição de homem, como Sloterdijk a coloca, podemos entender a nós mesmos, em uma situação moderna extremada, como o reino no qual as práticas sociais não são outra coisa que um grande campo atlético de repetições. Ninguém vai deixar de repetir o que faz. Não temos tempo ou espaço para sermos diferentes. Desse modo, o melhor que fazemos é adotarmos nossa natureza social na sua implicação básica, a de manutenção da hipocrisia. Não ser hipócritas nos demandaria esforços explicativos, justificativas racionais mais sofisticadas e imaginação exuberante. Tudo isso nos tiraria do expediente fácil pela qual seguimos o caminho que temos. Além disso, teríamos de lidar com a verdade de um modo que atrapalharia a maquinaria da repetição. Não temos como abrir mão do treino, do exercício, pois amanhã é novo dia e teremos de fazer novamente todos esses exercícios, e de modo melhor. Nossa conversa hipócrita, então, parece nos deixar menos desprotegidos. Não saímos do caminho traçado para pensar “que explicação vamos dar por isso que estamos fazendo?” Não, não temos que explicar coisa alguma. E o outro também não vai explicar nada. Cada um com a sua maneira afinada de repetir o que faz se garante na ideia básica de nossa sociedade: “não posso falar agora, estou para entrar em cena”, “não posso atender você agora, meu celular está tocando”, “não posso mudar a regra, sempre deu certo assim” etc. Tudo é feito no mesmo ritmo do “bom dia” ou “como vai?”. Ninguém diria que tais cumprimentos são hipócritas, embora eles de fato sejam. Tudo que é hipócrita ganha esse grau de integração na máquina de repetição que é a prática do homem moderno. O homem moderno é ativo. Sua atividade – o exercício repetitivo – é uma proteção à hipocrisia e vice versa.

Não há graça nenhuma em filmes ou peças literárias ou manifestações de rua que denunciam a hipocrisia. Quem se dedica a isso não sabe de nada. Pode acertar em termos de entretenimento e até vender sua narrativa. Mas, é claro, isso ocorrerá por sorte ou por defasagem do público, não por qualquer conhecimento de causa sobre o que se está fazendo ou sobre o que é o produto que entrega. Por isso mesmo soa velho e carcomido tudo que promete o “desmascaramento”, a exibição da hipocrisia. A pessoa que se choca com Nelson Rodrigues é do tempo que os dinossauros habitavam a terra sem 3D. Quem quer chocar alguém usando Nelson Rodrigues é café-com-leite.

*Paulo Ghiraldelli, 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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