Para além da pedofilia

Por iG Rio de Janeiro - Paulo Ghiraldelli |

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Para o filósofo, a obra Lolita do escritor russo Vladimir Nabokov deve ser interpretada pela leitura ética proposta por Jean Jacques Rousseau

Divulgação
O livro Lolita, de Vladimir Nabokov

Há mais ética que moral em Nabokov. Contos Reunidos (Alfaguarda, 2013) expõe uma tal verdade, principalmente se o conteúdo deste é comparado – como sempre parece imperativo fazer – com o de Lolita (1955), o livro que lhe deu independência financeira. Na glosa, à primeira vista podemos pensar que os contos, principalmente os de Berlim, que mostram cenas e situações de russos que saíram de sua terra natal por causa dos acontecimentos da Revolução de 1917, são peças que puxam para os costumes e hábitos da vida pública de um povo (ethos), enquanto que Lolita foca uma postura (ou impostura) particular (mores), de um professor cheio de culpa por se avaliar pedófilo. Mas isso, só à primeira vista. Ao se familiarizar com Nabokov, o leitor pode admitir que o fio condutor de leitura, da ética em detrimento da moral, é um fio de uma interpretação que tem lá sua legitimidade. Os personagens russos em Berlim mostram mesmo é a Rússia, a americaninha Lolita mostra bem a América. No centro de tudo, sutilmente colocado, o mais bagunceiro de todos os filósofos: Jean Jacques Rousseau.

Com os russos em Berlim ou com outros personagens em outros lugares, a bondade natural, em especial aquela que se espera da infância (como Rousseau a caracterizou), não aparece e, se há onde aponta a cabeça, é apenas para que desconfiemos mesmo se ela é natural. Russos criam crianças de modo a faze-las adultas rapidamente, quer queiram quer não. Caso isso se insinue como o que não vai ocorrer, então o próprio país em convulsão faz sua parte, roubando a infância de muita gente, até mesmo dos que já a haviam vivido. Nabokov sabe como ninguém tornar tudo isso suave e ao mesmo tempo impactante – interessante. Já em Lolita, as coisas mudam, a tal bondade natural da infância não é a característica da garota, mas a bondade rousseauniana está bem presente e assombra o tempo todo o professor de literatura, o protagonista-narrador. Isso fica evidente na cena em que o professor preserva a garota de qualquer investida sexual, e isso, ele mesmo diz, porque o filósofo genebrino ronda por ali. O professor Humbert Humbert não sugere isso, diz explicitamente uma tal coisa. Em uma nota de rodapé nem sempre notada pelos críticos, é Jean-Jacques Rousseau que faz o papel de guardião de sua consciência, ainda que ele, o professor, se acredite como sem qualquer consciência (ele a tem de sobra, como má consciência). Não é nenhuma consciência religiosa que o pune, mas a de um filósofo iluminista, Jean-Jacques. É este que coloca o professor como que culpado pelo desejo que, enfim, era sem dúvida também o de Lolita. O sexo com adultos era o destino de Lolita e ela jamais quis fugir deste ponto final. Mas, eu insisto, Lolita não é Lolita por ser uma garota, mas por ser uma garota americana, criada por uma educação mais livre e, ainda que em colégio de religiosas, completamente distante da educação austera de europeus. Aqui, todo cuidado é pouco: não se trata de comparar dois tipos de educação, mas dois modos de fazer andar a noção de quem somos nós, os bípedes sem penas. Os americanos absorveram o bom selvagem rousseauniano, ou a infância rousseauniana, de uma maneira tão ingênua, talvez, que a própria ingenuidade da infância vista por Rousseau. Na América nunca alguém poderia ser efetivamente mau, muito menos uma criança.

Getty Images
O escritor russo Vladimir Nabokov, em 1958


No continente americano a proteção da infância não era a proteção da infância, mas a consideração da infância como alguma coisa angelical. A infância seria tão puramente ingênua que se protegeria a si mesma. No continente Europeu, Rousseau fez menos efeito, mas se pegou alguém, esse alguém foi o personagem de Nabokov, o professor que veio morar na casa da mãe de Lolita. Todavia, pegou no contrapé. Ou seja, na culpa. (Ora, diria Nietzsche, e onde mais uma “tarântula moral” como Rousseau pegaria?). Nenhuma das freiras que educava Lolita poderia imaginar que as garotas pensavam em sexo e em estripulias quando das saídas dos alunos para os acampamentos. Ora, nenhum professor europeu pensaria em deixar garotas em um acampamento junto com garotos naquele grau de... promiscuidade? Ambas as ideias têm a ver com Rousseau. No primeiro caso, o do olhar americano, as crianças são tomadas como ingênuas. No segundo caso, o do olhar russo, também as crianças são ingênuas, mas os adultos não, eles, se pervertidos, poderiam estar à espreita. De fato, o professor se via como quem estava à espreita. Nem mesmo uma garota disposta a ultrapassar de modo como ultrapassou a morte da mãe podia lhe parecer cruel. Mas Lolita, todos sabemos, era cruel. Era perfeitamente capaz de empurrar a mãe para a morte como também ser, ainda menina, veterana nas experiências sexuais.

Tudo isso não é do âmbito moral, como às vezes insistem alguns, mas do âmbito ético. Assim pode ser lido – eu proponho. Não são os russos em Berlim que atuam nos contos, principalmente, enquanto que em Lolita atua uma garota americana. É muito mais a Rússia e a América que se encontram, com lances de Berlim e outros lugares. O que Nabokov diz em sua obra toda pode ser lido segundo uma trilha filosófica, no caso, ética. São dois continentes que transformaram a mesma filosofia – a de Rousseau –, e sem desvirtuar sua essência, a fizeram caber em teias narrativas completamente diferentes. Nabokov nunca quis falar moralmente da América ou da Rússia, nem poderia, como filho de nobres que ele foi. Como filho de nobres, ele fez o que tinha de fazer, uma obra em ética.

Caso o professor do romance Lolita fosse um americano, não haveria o romance. Ele tinha de ser um europeu para sentir-se como o Lobo Mau diante dos porquinhos: “esses porcos estão sem proteção, isso está tão fácil que eu não posso ser tão lobo nessa hora, embora seja”. A culpa e somente a culpa é o que um europeu assim pode sentir, especialmente na América, onde tudo parece ingênuo, onde todos parecem poderem ser enganados. Não há traços dessa culpa com russos em Berlim. Aliás, russos em Berlim não sentem culpa nenhuma e estão sempre espreitando uma oportunidade de amaldiçoarem ou se vingarem dos que convulsionaram sua terra. São assim os personagens de uma boa parte dos contos de Contos reunidos. Eles desfilam humor, sarcasmo, esquisitices e beleza da velha Rússia que, dizia Nabokov, nunca mais voltará. Nabokov deveria ter sido nomeado por Deus para uma vida longa, que permitisse a ele presenciar o fim da URSS. Mas o que Nabokov viu, mesmo, foi o fim de um outro lugar, da América. Ou melhor, talvez a América jamais tenha existido, somente a ideia-América. Tudo nunca foi outra coisa que sonho e autoengano na América, ou seja. Lolita é uma história que quer mostrar isso à medida que escancara como que nem pais e nem professores sabiam quem eram as crianças americanas, a vida americana e, enfim, a própria vida humana.

* Paulo Ghiraldelli, 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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