Após protestos, Black Blocs chegam à segunda geração no Brasil

Por Ricardo Galhardo - iG São Paulo |

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Manifestações criaram oportunidade para eles porem em prática o método 'ação direta', que é a depredação de símbolos do poder e do capitalismo como bancos

São Paulo, junho de 1917. Milhares de operários, na maioria formada por imigrantes espanhóis e italianos, saem às ruas da cidade na maior greve vista até então no Brasil para protestar contra as más condições de trabalho. Depois da morte de um sapateiro espanhol pela polícia, a agitação se espalha, as forças públicas são obrigadas a recuar e a sede do governo é transferida para o interior por falta de garantias de segurança na capital. Em poucos dias os patrões são levados à capitulação, aceitam reduzir a carga horária, aumentar salários e não mais explorar mão de obra infantil. Meses depois, operários do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul replicam a estratégia com sucesso. Nascia o movimento sindical brasileiro.

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Corta para São Paulo, junho de 2013. Dezenas de jovens com os rostos cobertos por máscaras de lã e camisetas tentam invadir a prefeitura, incendeiam um carro da TV Record, destroem agências bancárias e concessionárias de veículos em um protesto contra o aumento da tarifa nos transportes públicos. Dias depois o prefeito e o governador capitulam e anunciam a revogação do aumento.

AP
Eles são chamados Black Blocs porque, nas manifestações, formam um bloco de pessoas vestidas de preto e mascaradas, para não serem identificados pelas autoridades

Em menos de um mês a estratégia era replicada em dezenas de cidades brasileiras. Em São Paulo, no dia 11 de julho, um grupo de 30 pessoas se reuniria para organizar as próximas ações, entre eles jovens que viram os protestos pela internet e decidiram aderir. Eles fazem parte da segunda geração de manifestantes que usam o método de ativismo político conhecido como Black Bloc.

O ponto em comum entre os jovens ativistas Black Bloc de 2013 e os imigrantes que fizeram a greve de 1917 é o anarquismo, corrente ideológica surgida na Europa em meados do século XIX e que tem como objetivo principal o combate a qualquer forma de autoridade, seja ela política, policial, familiar, religiosa ou financeira.

"Eu já participava de grupos de estudos sobre anarquismo desde 2011 mas só parti para o Black Bloc quando vi os protestos na TV", disse Paulo (nome fictício), universitário de 23 anos que vive com os pais na Zona Norte de São Paulo.

Taxados de vândalos e baderneiros por parte da grande mídia, presos e processados pelo Estado durante os protestos, os ativistas do Black Bloc são quase na totalidade militantes anarquistas das mais variadas classes sociais, níveis de escolaridade e faixas etárias. Entre eles estão professores, profissionais liberais, estudantes e trabalhadores em geral.

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Eles se aproveitaram da onda de protestos em junho para colocar em prática o método que preferem chamar de ação direta e que consiste em atacar e depredar símbolos do poder e do capitalismo como prédios públicos, agências bancárias, lojas de grandes cadeias e a "mídia burguesa".

Eles são chamados Black Blocs porque, nas manifestações, formam um bloco de pessoas vestidas de preto e mascaradas (para não serem identificados pelas autoridades) que se coloca entre a polícia e o restante dos manifestantes. A estratégia nasceu na Ucrânia, em 1981, ainda sob a dominação soviética, mas ganhou notoriedade durante as manifestações contra a Organização Mundial de Comércio em Seatle (EUA), em 1999.

Questionado sobre saques e ataques a estabelecimentos de menor porte registrados em algumas manifestações, Gil (nome verdadeiro), um dos mascarados recebidos pelo presidente da Câmara Municipal, José Américo (PT), na quarta-feira, respondeu:

"Isso é coisa de pessoas cujos pais não tiveram dinheiro para comprar um lápis e acabam se aproveitando da situação. Não tem nada a ver com a gente".

O anarquismo foi a principal corrente ideológica de esquerda e liderava a maior parte dos sindicatos no Brasil até a década de 30, quando a repressão do governo e o crescimento do stalinismo levaram a uma acensão do socialismo.

Mas de acordo com o secretário-geral da Federação Anarquista de São Paulo, Eduardo Preto, o anarquismo paulista está mais vivo do que nunca com 27 pontos de difusão do pensamento anarquista na cidade e dezenas de grupos e coletivos ligados à causa. Apenas alguns deles aderiram ao Black Bloc.

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"A violência social, policial e da mídia fez nascer os Black Blocs no mundo como uma resposta politico militar anarquista", disse ele, por email, deixando claro que não um é um dos adeptos da estratégia.

Por trás das máscaras e lenços pretos, estão jovens que defendem valores como solidariedade, liberdade, bem estar social e igualdade, trabalham e participam de grupos de estudos sobre anarquismo em locais como o tradicional Centro de Cultura Popular, fundado em 1938, e a Casa Mafalda.

Ali eles recebem aulas e material teórico sobre os grandes pensadores anarquistas como o russo Mikhail Bakunin (1814-1876), o francês Pierre Proudhon (1809-1865) e o italiano Errico Malatesta (1853-1932).

J. Duran Machfee/Futura Press
Black Bloc em ação

É de Malatesta a palavra de ordem dos Black Blocs, "a violência é infelizmente necessária para resistir à violência adversa" e de Proudhon a frase pichada em dezenas de agências bancárias pelo Centro, "a propriedade é um roubo".

"Estudamos a Greve Geral de 1917, a Colônia Cecília (comunidade anarquista criada no Paraná no final do século XIX), a Revoada dos Galinhas Verdes (quando anarquistas, comunistas e socialistas se uniram para enfrentar os integralistas em 1934)", explicou Gerson, de 21 anos.

Vestido todo de preto, capuz e com um lenço estampado cobrindo o rosto, Gerson era um dos manifestantes com imagem mais ameaçadora no protesto contra a violência policial da última quinta-feira. Bastaram alguns minutos de conversa, no entanto, para se mostrar um rapaz afável, de fala mansa e sorriso fácil que mora com a família no Centro e trabalha como empacotador em uma grande rede de supermercados, "um grande símbolo do capital", segundo ele próprio.

"Um dos alvos do anarquismo é a carestia e é contra isso que estou protestando. Está tudo caro demais. Principalmente o refrigerante", disse ele.

Muitos deles chegaram ao anarquismo por meio do punk rock. É o caso de Gabriel, um catador de material reciclável de 28 anos que mora em Pinheiros. "Lá em casa o pessoal mais velho ouvia DFC, Kolera, Olho Seco, Replicantes (bandas nacionais dos anos 80) e foi por aí que eu entrei nessa", disse ele.

Isso explica o fato de muitos, principalmente os mais jovens, tratarem temas políticos como se fossem parte da cultura pop digital. Durante a tentativa de invasão da Câmara, quarta-feira, um dos mascarados recebidos por José Américo se queixou da "caretice socialista" de militantes do PSTU que negociavam com o vereador.

"Esses caras aí do PSTU não estão com nada. É tudo Lenin, Trotski, tudo baboseira autoritária comunista. O negócio é Bakunin!", proclamou.


Apesar do arcabouço teórico e dos ideais pacifistas, os Black Blocs não titubeiam na hora da ação direta. Munidos de martelos e latas de tinta, arrancam lixeiras de rua, quebram vidros de prédios públicos, destroem caixas eletrônicos, pixam ônibus e viaturas durante os protestos. Alguns levam bombinhas, pedras e rojões que são atirados contra policiais. São descritos pela grande imprensa como "um pequeno grupo de baderneiros em meio a milhares de manifestantes pacíficos".

Apesar do potencial de confusão, a presença dos Black Blocs é defendida pelos demais coletivos e entidades que participam das manifestações. "É claro que sempre tem um risco quando eles estão por perto, mas geralmente é tudo muito tranquilo", disse o vice-presidente do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Sérgio Magalhães, organizador do ato contra a corrupção no Metrô na última quarta-feira.

Só em São Paulo mais de 30 ativistas Black Bloc foram presos desde junho. Quase todos estão soltos. Alguns são processados por dano ao patrimônio. Uma rede de advogados solidários dá atenção jurídica gratuita.

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