A sofisticação da “vida após a morte”

Por Paulo Ghiraldelli - iG Rio de Janeiro |

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Filósofo fala sobre como as religiões, a ciência e a ficção tentam explicar a passagem da vida após a morte

O filósofo grego Epicuro dizia que todo o universo é composto de matéria e vazio. Nada mais. Teríamos uma alma tão material quanto o nosso corpo. Assim, o sentimento de infelicidade nada seria senão uma variação da sensação de desprazer ou, no limite, dor. Por isso mesmo, não deveríamos nos preocupar com a morte. Sendo ela o fim das sensações, nada nos poderia fazer de mal. Ao cessar as sensações a morte praticamente inviabilizaria sua relação conosco, não podendo nos fazer sofrer. Em outras palavras: a morte não nos pega, porque quando ela chega, não nos encontra.

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Divulgação/TV Globo
Representações das morte na ficção precisam mudar

Ora, a religião judaico-cristã tomou paulatinamente o Império Romano, quebrando com a predominância de visões sobre a morte como as de Epicuro. Os cristãos nos deram um outro modo de nos tranquilizar diante da morte. Esta não seria outra coisa que não a passagem para uma outra vida, muito melhor. A ciência atual não tem ajudado em nada a ideia cristã, mas o interessante é que, mais recentemente, tem contestado a ideia epicurista. Há cientistas mostrando que ao contrário do que se pensava até pouco tempo no interior da comunidade científica, durante os momentos em que se está morrendo e o corpo vai diminuindo todas as suas funções vitais, o cérebro inicia uma atividade no sentido inverso ao dos outros órgãos do corpo. Ao se aproximar do colapso o cérebro aumenta assustadoramente suas atividades, ou seja, suas ondas. Em outras palavras, quando a morte chega, ela realmente nos pega.

Bem, é claro que não podemos estabelecer uma correspondência direta e estreita entre o que vemos ocorrer no cérebro por meio do mapeamento de ondas elétricas e quaisquer estados mentais. Assim, também na hora da morte, não podemos dizer que a mente entra em atividade ampliada à medida que as ondas cerebrais se intensificam. No entanto, fazemos correlações hipotéticas entre uma coisa e outra. Nas experiências de quase morte, essas correlações entre cérebro e mente imaginadas podem ser trazidas à baila. A experiência de quase morte é aquela em que alguém realmente tem a parada do coração e a decretação da morte clínica, com o posterior reavivamento após algum tempo. As pessoas que passaram por uma tal experiência em geral dizem que durante o tempo em que estiveram clinicamente mortas viram uma forte luz se aproximar delas. Pelas pesquisas atuais, interpretar essa luz como sendo algum chamamento para uma outra vida, poderia ser substituído por essa nova hipótese: se o cérebro entra em intensa atividade elétrica quando o corpo (especialmente o coração) está em falência definitiva, o estado mental correspondente poderia ser assumido como sendo a “visão” de um clarão, de uma luz intensa se aproximando. Volta-se para a velha piada de mau gosto: a luz não é a luz no fim do túnel, mas o farol do trem que vem em alta velocidade para lhe dar a última e definitiva trombada.

Desse modo, aquelas célebres cenas de novelas como A Viagem (eu vi duas versões, ó Jesus!), reutilizadas de modo bem mais cafona do que eu esperava em Amor à vida (Walcyr Carrasco, que furada heim?), onde se abusa da tal luz que vem buscar os que acabam de morrer, vão cada vez mais se tornar grosseria descartável em qualquer ficção. Será bem mais interessante – como aliás sempre foi – apelar apenas para duas fases, em filmes e novelas que contenham fantasmas: a da pessoa viva e, depois, a visão da pessoa morta que assombra os vivos. Então, nessa segunda fase, é sempre bom que o efeito de assombração se mostre com fortes indícios de que pode não ser outra coisa que impressão psicológica. O público mais culto espera isso nos filmes e novelas. O público mais popular espera que o fantasma seja um “espírito”, como se diz por aí, ou seja, uma “alma penada” mesmo, que aparece não aos olhos mentais do assombrado, em sonho ou em algo que pode ser tomado como ilusão de ótica, mas aos seus olhos físicos, bem dispostos.

Nos próximos anos, se essa nova visão da morte – a que diz que a tal luz nada é senão o estado mental ligado à intensificação do esforço do cérebro – for sendo divulgada, mesmo o público popular começará a não aceitar mais as cenas de transição entre o mundo dos vivos e o paraíso ou coisa parecida. A consciência popular não se tornará mais ateia, mais desligada de religiões que pregam a ideia de que há vida após a morte. No entanto, certamente se tornará menos simplória e infantil a respeito da morte na ficção, especialmente nas novelas e nos filmes.

Isso não levará as pessoas a ficarem descrentes da religião moderna, o cristianismo e suas variações, mas colocará o cristão como alguém mais exigente em relação à ficção. Cenas mágicas ou místicas terão de apresentar maior sutileza, deixando sempre o espaço para a dúvida entre os personagens. Personagens com dúvidas serão mais aceitos por leitores e telespectadores também mais céticos. Não será a época da “morte de Deus”, que Nietzsche viu entre as elites do pensamento no final do século 19, mas será certamente um passo, no século 21, na direção do ceticismo e do positivismo do final do século 19. Será uma espécie de democratização – tardia – de sentimentos sobre o nosso destino. Os filósofos, por sua vez, estarão já enfastiados diante dos filmes e novelas de fantasmas, sofisticados ou não, mais ou menos como já ocorre hoje.

Paulo Ghiraldelli Jr., 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

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