Filósofo explica sua tese a respeito da curiosidade em relação às fotos da atriz na Playboy

Nanda Costa pode não fazer a melhor Playboy de todos os tempos, mas que ela soube cacifar a venda da revista, isso ela soube. Fotos em Cuba no estilo Claudia Ohana já é coisa esperta, melhor ainda se anunciada antes. Platão definiu o homem como o “bípede sem penas”, ora, em um tempo em que a mulher está sendo tomada, naturalmente, como um bípede sem pelos, a ideia de uma Nanda Costa peludinha vem a calhar. Ao menos para as gerações de agora, trata-se de novidade. Vai vender!

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Mas Nanda não ficou só nisso. Ela “politizou” a coisa. Inteligentemente jogou no twitter: “Não iria fazer bigodinho de Hitler na terra de Fidel”. A declaração é ótima, pois coloca a política ideológica no lugar dela: nas partes pudendas. Em que outro lugar poderíamos colocar a direita e a esquerda?

Nanda Costa é a estrela da Playboy de agosto
Divulgação
Nanda Costa é a estrela da Playboy de agosto

Mas a imprensa acabou preferindo não falar em partes pudendas e, sim, em “partes íntimas”. Partes íntimas na Playboy? O que é intimo em “revista de mulher pelada”? Hitler e Fidel sempre gostaram de palanques. Hitler adorava aplausos, Fidel adorava falar – chegou a fazer discursos de mais de oito horas! Exposição máxima, o final absoluto do que é “íntimo”. Tudo que é íntimo, privado, restrito, não existe mais: eis o lema do que foi o comunismo e o nazismo. Daí a institucionalização da polícia política, ou seja, de uma polícia preocupada em saber se alguém ainda estaria fazendo coisas às escondidas, se alguém ainda ousaria usar do pensamento como algo íntimo.

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É claro que hoje, nas democracias de tipo ocidental, vivemos no que já se convencionou chamar de “a sociedade do espetáculo”. Tudo deve ser mostrado. Não à toa o Facebook pegou! Mas, de modo algum, vivemos a regra do comunismo e do nazismo, ou seja, a exigência do fim da intimidade. A Playboy pode expor Nanda Costa. O Facebook pode nos incentivar a nos expormos. Obama pode entrar na casa de cada um para nos ver expostos. Mas tudo isso é bem diferente de se viver em uma situação em que não existe a reclamação em relação à quebra da privacidade. O mundo moderno, ou seja, o mundo burguês emergente após o Renascimento inventou a intimidade e a privacidade, e muito dessa criação ainda continua valendo. Por isso mesmo o cachê de Nanda não pode ser baixo. Há valor na intimidade. Há preço para a privacidade.

Todavia, o que é estranho nisso tudo é que já faz um bocado de tempo que todos nós sabemos o que é nossa intimidade e o que fazemos na nossa privacidade. Ninguém tem dúvidas de que a quatro paredes fazemos tudo o que o nosso vizinho faz. No entanto, assim mesmo, nossa curiosidade sobre a intimidade do outro não diminui. Por quê?

Nanda Costa e a polêmica depilação íntima na 'Playboy'
Reprodução/Instagram
Nanda Costa e a polêmica depilação íntima na 'Playboy'

Não é a beleza da foto que nos faz gastar um bom dinheiro na Playboy da Nanda Costa. A beleza da foto se tornou o chão básico. O “plus” é dado pela curiosidade. Tanto é que a frase no twitter, tentando aguçar a curiosidade, pode e deve ser lida como uma boa jogada de marketing. Ora, mas isso ainda não responde nossa questão: afinal, quem de nós acha que vai encontrar algo que nunca viu ao checar as partes pudendas de Nanda Costa? Alguns já viram tanto isso que irão usar da brincadeira do trocadilho: Nada consta! Então, como funciona essa tal de curiosidade?

Minha tese a esse respeito é simples: em uma época como a nossa, uma época de ciência e técnica, onde tudo é “pão pão queijo queijo”, onde até mesmo as religiões já não estão envolvidas com qualquer metafísica, mas só com tudo que é físico, restou-nos a saudade de algo que estaria para além do dado. Precisamos de alguma maneira satisfazer um desejo de metafísica ainda não completamente morto em nós. Queremos encontrar a verdade, mas não como o que é dado, e sim como verdade metafísica, “verdade última”, necessariamente escondida.

A única coisa que temos que ainda possui alguma proteção é a tal intimidade, a tal privacidade. Ora, em termos de sentimentos populares, o que é íntimo é antes de tudo as partes pudendas e a atividade sexual, e não o pensamento. Em um mundo de exposição, ao menos em termos de direitos, a intimidade tem lá sua proteção. O desejo de agarrar a verdade enquanto o que está protegido, escondido, é um desejo de satisfação de numa necessidade de aventura pelo além do mundo físico. Imaginamos que o que está ainda escondido é a verdade, e que se pudermos apanhar tal coisa, saberemos o que é o mundo e quem efetivamente somos nós.

Há um segredo que não é segredo para ninguém, mas que, por conta das leis que ainda o protegem, pode se passar como segredo. Eis aí o sucesso da Playboy e o êxito do “Big Brother” da Rede Globo. Ambos nos prometem uma grande mentira, esta aqui: “pode ser que exista algo que os ‘bípedes sem penas’ fazem a quatro paredes que ainda não saibamos.” Ou, no caso: “pode ser que as ‘bípedes sem pelos’ nos mostrem a verdade, ou seja, aquilo que está oculto”. Mas e quando não acreditamos mais nem nisso?

Ora, então é necessário contar o segredo para atiçar novamente a curiosidade. A tática é fácil, ela tem de funcionar como se alguém pudesse dizer o seguinte: “está vendo como havia um segredo? Você esperava uma Nanda Costa raspadinha e eis que temos uma Nanda Costa peluda rearranjada em forma de decadência política. Não haverá, então, mais segredos, mais novidades?” Ora, não é assim que pode surgir a chance de se voltar a acreditar na verdade, ou seja, no que é verdade exatamente por estar escondido?

A frase da Nanda Costa politizou a coisa. O meu texto tende a mostrar que antes da política, o que interessa nisso tudo é a nossa satisfação metafísica. Precisamos satisfazer algo completamente extemporâneo, um sentimento que é como uma relíquia: a busca da verdade “por detrás dos fatos”. Popularmente, querendo ou não, somos ainda metafísicos. Metafísicos meio bárbaros, mas somos.

* Paulo Ghiraldelli Jr., 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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