Dia dos Pais de um rebelde babaca

Por Paulo Ghiraldelli - iG Rio  de Janeiro |

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Filósofo debate a apologia ao 'politicamente incorreto', que encobre conservadorismos com disfarce 'rebelde'

Getty Images
Casal celebra Parada Gay de Madri, na Espanha (6/7/2013)

Caso 1. O filho chega à casa do pai, onde este mora com outro homem, seu namorado. Entrega dois presentes. É Dia dos Pais. O que ele faria senão levar dois presentes? Um Dia dos Pais “politicamente correto”, por que não? Não é uma atitude de bom senso?

Todavia, há os que condenam o “politicamente correto”. Para estes o correto é ser “politicamente incorreto”. Exigem uma segunda história.

Caso 2. O filho chega à casa do pai, onde este mora com outro homem, o namorado, e leva só um presente. O pai estende a mão para pegar o presente, mas o filho não entrega e lhe passa um pequeno sermão: “eu vim pensando se deveria entregar ou não isso daqui, mas uma vez que você continua envergonhando todo mundo, com essa viadagem, acho que o melhor é só mostrar o presente e voltar para casa. Talvez eu o entregue para o meu sogro, que ainda não trocou a cueca por calcinhas”. É engraçado?

Não vejo como rir do primeiro caso. Talvez, dependendo de como o segundo caso é contado, eu possa achar engraçado. Mas entre o primeiro e o segundo, ainda acho que o racional e inteligente é o primeiro, não o segundo. Ainda acho que há mais de “OSPB” e “Educação Moral e Cívica” no segundo caso, não no primeiro.

O segundo caso mostra um filho rebelde. Tem a rebeldia dos anos sessenta, mas só aparentemente. Trata-se de uma falsa rebeldia. O filho do segundo caso nada é senão um eterno adolescente. Ele imagina estar contra a corrente, no entanto, não passa de um conservadorzinho que vai orar no altar de um status quo imutável. Em nome da liberdade individual ele assassina toda e qualquer liberdade, pois acaba reproduzindo a atitude que joga a razão na lata do lixo. A razão, que permite escolha, na segunda atitude nada escolhe. Luta é algo que pode implicar em escolha, mas briga raramente tem a ver com escolha. Briga é algo que está em função antes de hormônios do que de decisão de uma vontade racional.

Nos anos oitenta começamos a ser preparados para o Dia dos Pais de um futuro que seria mais alegre. O filme que assistíamos era o "Gaiola das Loucas", na hilariante e generosa primeira versão. Não era um filme “politicamente correto” ou “politicamente incorreto”. Era um filme – um bom filme. Gays riam de gays naquela época, mesmo quando era para mostrar que homofóbicos eram uns babacas, como são até hoje. Depois é que vieram filmes em que ninguém mais podia rir do gay, como "Filadélfia".

A crítica do “politicamente correto” cristalizou-se nesse tempo, tomou tudo o que no "Filadélfia" tornou os empresários contadores de piadas de gays os vilões e, então, após alguns anos, quis dar o troco. Quis vingar os empresários. Inventou que os verdadeiros heróis da história eram aqueles empresários que demitiram o aidético. Para essas pessoas que assumiram a crítica do “politicamente correto”, certamente o Dia dos Pais de quem tem pai gay deve ser vivido como no segundo caso acima.

Sinceramente? Olhando de perto o caso um e o caso dois, não há dúvida que é o segundo caso que mostra o babaca, não o primeiro. A apologia do “politicamente incorreto” como sendo a rebeldia é uma babaquice autêntica. É ela que está carregada de moralismo barato, não o “politicamente correto”. É ela que soa uma coisa de velhotas que posam de avós, sendo ainda só mães. É por aí que há o cheiro de desodorante íntimo de Margareth Thatcher.

A crítica ao “politicamente correto” bem como a apologia do “politicamente incorreto” se deu entre os anos oitenta e noventa nos Estados Unidos. Também aqui ela apareceu e desapareceu. Mas ela retornou forte há uns poucos anos atrás, entre 2010 e 2012, no entanto, justamente por ser uma caricatura do que já era uma caricatura, durou pouco e se mostrou o que não podia deixar de ser: um pastiche.

O Dia dos Pais do garoto “politicamente incorreto” é talvez algo próprio do "Zorra Total". Um programa que a TV diz que é de humor, mas que ninguém ainda entendeu de que modo essa classificação se deu.

Paulo Ghiraldelli, 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRJ.

Leia tudo sobre: Paulo Ghiraldelli Jr.

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