Nicole vem para puxar sua perna!

Por Paulo Ghiraldelli - iG Rio de Janeiro |

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Filósofo relembra experiências com mortas-vivas e mostra expectativa na aparição de fantasma na novela da Globo

Divulgação/TV Globo
Amor à Vida: fantasma de Nicole vai a funeral

Nunca topei com “a noiva”, mas que ela existia, existia. Vários de meus colegas a viram. Era o fantasma de uma moça, vestida de noiva, que perambulava no terceiro andar da enorme escola que estudei quando criança, no interior de São Paulo. Já pré-adolescente, eu quase a vi, em um anoitecer de sexta feira em que jogávamos basquete na quadra da escola. Ela apareceu na última janela do corredor, e com seus olhos azuis ficou nos observando lá embaixo. Não concretizei essa oportunidade de vê-la porque um dos colegas enxergou primeiro a moça lá em cima e gritou “é a noiva, corram!”. Em poucos segundos eu já havia pulado o muro da escola chegando em casa em minutos, completamente ofegante. Essa foi minha única experiência real com essa raça antiqüíssima, a das noivas fantasmas ou noivas cadáveres.

As outras experiências minhas com noivas mortas-vivas foram, felizmente, só por meio da literatura. Aliás, eis aí um filão rico da ficção tanto no oriente quanto no ocidente. Ficção que se cruza com o real. As histórias de noivas fantasmas parecem existir desde quando o mundo é mundo, no entanto, na China elas estão longe de pertencerem ao campo estritamente ficcional. Foi comum na China antes da Revolução Comunista – costume que ainda não desapareceu de todo – a existência de gangs que assassinavam garotas, vendendo seus corpos para pais que, então, as levavam para os túmulos de seus filhos que haviam morrido solteiros, realizando ali a cerimônia de casamento entre os defuntos.

No ocidente, no entanto, o folclore gira em torno da ideia de que a noiva fantasma não está destinada a um morto, mas a um vivo. Em geral, trata-se de alguma virgem que morreu no casamento ou prestes à cerimônia, e que, não se conformando com sua situação de morta, volta para brigar pelo noivo que estaria sendo seduzido por alguma rival. Mas há também histórias macabras reais no Ocidente, especialmente nos Estados Unidos.

É conhecida dos americanos a história de Carl von Cosel. Ele foi um médico alemão que se apaixonou por Hellen, uma moça tuberculosa internada no hospital de KeyWest, na Flórida. Quando ela morreu, Carl passou a visitar o seu mausoléu, cada vez mais obcecado pela defunta. Ele ficou dois anos nisso. Até que um dia acabou por levá-la para casa, onde se dedicou por anos ao árduo e impossível trabalho de conservar por todos os meios o corpo da sua amada. Isso durou quase uma década. Em 1940 ele foi descoberto e preso. Mas ao invés de receber a reprovação dos americanos, ele passou a usufruir da atenção carinhosa da maioria, que, enfim, se comoveu com a sua história de amor (e sexo!). Não houve falta de pretendentes para Carl, de todos os tipos. Grupos de prostitutas (dizem que de Cuba) se ofereceram para sexo gratuito com o médico. Passado alguns anos ele foi julgado e absolvido, e isso sem qualquer subterfúgio psicológico – ele foi tomado como completamente normal.

Estou ansioso pela minha nova experiência com noiva fantasma. Não vai demorar! A novela das 21 horas da Globo, Amor à Vida, vai introduzir o tema querido de Tim Burton.

A milionária Nicole morre nos braços do noivo, Tales, e voltará para assombrá-lo, uma vez que faleceu sabendo que ele a traía e que, na verdade, o casamento não havia sido outra coisa senão um golpe. Talvez até tenhamos cenas picantes com a noiva fantasma da Globo, dado que está prometido que ela terá um romance com o médico jovem que cuidou dela. Mas tudo isso de modo “light”, não se preocupem que a Globo vai mais pela via da noiva fantasma que da noiva cadáver. Carl von Cosel não aparecerá!

Creio que é muita coragem do Walcyr Carrasco tentar colocar essa trama na novela. Admito que desde o início ele tem deixado em aberto seu lado místico, aliás, bem sintonizado ao senso comum nosso, ou meu, tipicamente paulistano. Por exemplo: quando Paloma, quando jovem, teve de decidir se acompanhava ou não o namorado, ela seguiu a sugestão de uma velhinha que lhe disse o que todos nós já ouvimos de velhinhas: “deixe na mão de Deus”. Foi então que Paloma seguiu antes a busca de segurança que a de amor aventureiro. Carrasco conseguirá impor esse tipo de abordagem no caso da noiva fantasma?

Aí é que mora o perigo: São Paulo. A novela mostra “amores em São Paulo”, mas não se trata da São Paulo noturna, a terra da neblina, a velha “cidade da garoa”. Trata-se da São Paulo moderna, diária, veloz e não raro ensolarada. Mesmo o ambiente do hospital não é nada mórbido e está longe de um clima capaz de acolher assombração. Introduzir o clima tenso da noiva fantasma pode trazer para a tela um elemento deslocado de todo o conjunto da novela. Há ainda um risco maior, o de fazer a novela se tornar o terceiro “remake”, mais xarope que o segundo, de A Viagem. Aí será dose para elefante!

O segredo para que isso não ocorra é um segredo de Polichinelo. Nicole não pode aparecer como fantasma pura e simplesmente, como o Gasparzinho faz. Caso isso aconteça, então realmente vira A Viagem, e adeus Walcyr Carrasco. O drama precisa ficar naquele meio termo ideal. Faz-se necessário que as “aparições” de Nicole se insiram no justo vão fino que existe entre aspectos psicológicos – a lembrança e a culpa de Tales e, se for o caso, o amor do jovem médico – e pequenos lances de visão do sobrenatural, antes insinuados do que com a aparência de materializações no estilo do teletransportador da nave Interprise. A rede Globo está preparada para fazer isso? É aí que vem o meu medo.

Temo que eles, da Globo, criem um “Ghost” brega. Caso ocorra isso, aí nem mesmo o Félix pode salvar a peça de Carrasco. O que podemos fazer? Nada! Quando a Globo cisma em errar, ela vai até o fim. Vamos torcer para que Carrasco não se torne o carrasco da sua própria novela e, enfim, de nós mesmos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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