“Meu nome foi parar nas manchetes como a traficante”, diz jurada do caso Bruno

Por Carolina Garcia - iG São Paulo |

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Estudante relata consequência de ter participado de júri famoso em Minas. Já em São Paulo, jurados em casos menores assumem curiosidade pelos bastidores da Justiça

“Eu tinha uma vida tranquila até a data daquele julgamento”, diz C.M.R.S*, de 28 anos, uma dos sete jurados que condenaram o goleiro Bruno Fernandes a mais de 22 anos de prisão pela morte de sua amante Eliza Samudio, durante júri em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte (MG). O iG conversou com três pessoas que são periodicamente convocadas pela Justiça para definirem o futuro de réus durante Tribunal do Júri, em Minas Gerais e São Paulo. Eles compartilharam medos, dificuldades e até prazer em conhecer os bastidores da Justiça.

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Divulgação/TJMG
Primeira fase do júri do caso Eliza Samudio. "Pressão da imprensa também assusta", disse jurada

Uma carta de convocação da Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) anunciava a presença obrigatória de C. e de outros 24 moradores de Contagem em quatro datas de março, no fórum criminal. Ela não acompanhava a cobertura jornalística sobre o caso e, por isso, não sabia que o segundo júri do assassinato estava próximo. “Nunca poderia imaginar que minha primeira experiência seria julgar o Bruno”. As consequências mais dolorosas do júri foram lidar com a distância da família e ter seu nome associado ao crime.

“O júri se estendeu por uma semana e nesse tempo você fica isolada”, explicou a estudante. Além disso, dias após o veredicto, C. teve o seu nome envolvido em um escândalo após a Polícia Militar encontrar tubos de cocaína e lista com devedores em seu trabalho. “Eu apenas trabalhava lá e não tinha relação com aquilo. Como fui jurada, vi meu nome parar em todas as manchetes como a traficante. Eu tinha uma vida tranquila até a data daquele julgamento”, desabafou. 

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Segundo C., que citou até uma suposta “armação” contra ela, seu caso foi arquivado pela Polícia Civil por falta de provas. O caso chegou a ser usado pela defesa do goleiro para anular o julgamento, pois os trabalhos teriam sido comprometidos, segundo os advogados.

Questionada sobre qual seria sua reação ao ver uma nova carta de convocação do TJ, ela respondeu: “Toda a exposição que sofri não paga o serviço que prestei. Na próxima, não vou ao fórum e pago a multa mesmo”. Caso um convocado não respeite a intimação, o juiz pode aplicar uma multa de até 10 salários mínimos, de acordo com a situação financeira do jurado. “Não posso passar por isso de novo.”

Bastidores e confraternização

Fora da atenção da imprensa, os trabalhos de um júri popular correm sem grandes emoções, garantiram ao iG dois jurados que são convocados em São Paulo. Segundo Joyce*, de 26 anos, e Roberto*, de 63, o sentimento de medo de julgar um suposto criminoso dá lugar para a curiosidade. “Como sou muito curiosa, eu gosto de ler as peças [do processo], ver as fotos. Faço questão de prestar atenção em tudo”, disse a secretária. Ela garante ainda que faz sucesso na roda de amigos já que esteve perto de um suposto assassino por algumas horas.

Tércio Teixeira/Futura Press
Fachada do Fórum Criminal da Barra Funda, localizado na zona oeste de São Paulo

Joyce participa há pelo menos cinco anos de julgamentos no Fórum Criminal de Santana, na zona norte, e já tem quatro Conselhos de Sentença em seu currículo. Segundo ela, cada caso proporciona uma nova experiência. “O mais forte foi um de 2011 que julgava integrantes do PCC [facção criminosa]. Vi muitas fotos e uma das vítimas era gestante então foi bem triste”. Na ocasião, o júri foi concluído  após 11h de trabalhos. Se precisasse continuar, no entanto, não seria um problema para a jurada. “Fico imaginando como seria passar alguns dias no fórum”.

Para Roberto, cada ida ao Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste, é uma chance para reunir os amigos. Conhecido no local, onde participa de julgamentos há mais de 20 anos, ele garante que o clima é de confraternização entre os jurados, principalmente após o veredicto. “Depois da sala secreta e quando o juiz lê a sentença, saímos todos juntos, trocamos telefones e até marcamos um encontro para a amizade continuar”.

Repórter relata rotina de jurados do caso Bruno:

1ª fase: "Somos uma família justa", diz jurada antes do terceiro dia de julgamento

Após reportagem do iG, TJ diz que juíza autorizou telefonemas de jurados

O aposentado comentou ainda que seus amigos têm curiosidade em saber o que os jurados conversam no intervalo das sessões. "Acho que é porque saímos do plenário e dá aquele tom de mistério. Mas a verdade é que não podemos conversar". Uma vez, lembrou Roberto, ele e mais seis julgadores foram orientados pelo juiz a "conversar até sobre futebol, mas não sobre o caso". "Parece que quando saímos, colocamos um intervalo na história e só queremos aproveitar o cafézinho", confessou.  

Divulgação
Sala secreta para os jurados no Fórum de Santana, na zona norte de São Paulo

O prazer em fazer parte deste processo é tanto, segundo Roberto, que muitos decidem até fazer uma carteirinha com foto, como se buscassem comprovar a atuação em plenário. “Olha, gosto do que faço, mas isso não serviria para nada. E fico pensando se é até perigoso ficar andando com isso por aí”, disse rindo da empolgação alheia.

Para ele, o único risco que corre com essa atividade é deixar o júri pela mesma porta da plateia. “Já me peguei pensando se eu não estava dividindo espaço com uma mãe que viu a condenação do filho. E se ela resolve se vingar? Eles [oficiais de Justiça] poderiam ver uma solução para isso.”

Após a formação do júri e o juramento conduzido pelo juiz, os jurados ganham a responsabilidade de um julgador e um oficial de Justiça a tiracolo. A função do profissional é acompanhar os sete durante todo o processo e assegurar a integridade do conselho. Mas isso nem sempre dá certo. Na 1ª fase do caso Bruno, em novembro de 2012, por exemplo, o iG flagrou cenas de confraternização durante um café da manhã. Na ocasião, oficiais até comentaram o futuro dos réus Macarrão e Fernanda, ambos condenados no processo. 

Convocação de jurados

O Tribunal do Júri é uma instituição prevista na Constituição Federal que tem a competência de julgar os crimes dolosos contra a vida, quando há intenção de matar. Há duas formas de ser escolhido para participar de um júri popular. O jurado pode se inscrever (jurado voluntário) no Tribunal do Júri de sua cidade. Além disso, todos os anos uma lista é elaborada pelo juiz-presidente da sua região, com base na indicação de bancos, empresas e repartições públicas.

A cada processo, 25 nomes são sorteados para comparecer ao julgamento. Dessas, apenas sete serão sorteadas e irão compor o Conselho de Sentença. O serviço do júri é obrigatório, e nenhum cidadão pode se recusar a prestá-lo. O não comparecimento ao tribunal na data da intimação pode configurar crime de desobediência e uma multa de até 10 salários mínimos.

Os jurados têm direito a prisão especial em caso de crime comum, até o julgamento definitivo, a preferência nos concursos públicos em caso de empate, por exemplo, e a continuar recebendo os seus salários enquanto o júri durar.

*os nomes foram alterados para a segurança dos jurados

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