Ex-Rota sobre Carandiru: 'Acha que voltei para casa e bebi um copo de sangue?'

Por iG São Paulo |

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O tenente-coronel Salvador Madia participou da invasão do presídio e sentou no banco dos réus no julgamento de 25 policiais sobre o massacre

O tenente-coronel Salvador Madia, ex-comandante da Rota, que esteve diante do 1º Batalhão de Choque da PM entre 2011 e 2012 durante a última crise de segurança em São Paulo, sentou nesta quinta-feira (1º) no banco dos réus no julgamento de 25 policiais do caso Carandiru. Em depoimento de seis horas, ele evitou detalhar a invasão do 2º andar do Pavilhão 9, em outubro de 1992, e culpou o tempo pela falta de memória. "Depois de 21 anos fica difícil de recordar todos os detalhes."

Leia mais: "Todos tinham medo de serem contagiados com Aids", diz ex-Rota sobre Carandiru

O juiz Rodrigo Tellini pediu para que o réu reconstituísse a operação apontando com o dedo para uma planta do 2.º andar que era projetada no auditório. Madia preferiu não indicar onde ocorreram os confrontos e o local que os policiais se feriram.

O réu também fez um desabafo: "O senhor pensa que não me choquei com aquela foto de um mar de mortos? O senhor acha que eu voltei para casa e tomei um copo de sangue? Pensam que não somos gente, que perseguimos pretos e pobres", disse ao juiz, apontando os réus.

Julgamento do massacre do Carandiru, no Fórum criminal da Barra Funda em São Paulo (SP), nesta segunda-feira (29). Foto: Futura PressA nova fase do julgamento conta com 26 policiais no banco dos réus, dos 79 agentes acusados. Foto: Futura PressO massacre que aconteceu em 1992 foi o pior da história do sistema penitenciário brasileiro. Foto: Futura PressO Juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo durante julgamento do massacre do Carandiru, no Fórum criminal da Barra Funda em São Paulo (SP), nesta segunda-feira (29). Foto: Futura PressJulgamento do massacre do Carandiru. Foto: Futura PressHomem protesta pedindo reforma do sistema penitenciário em frente ao Fórum onde acontece o julgamento do massacre do Carandiru. Foto: Futura PressEm outubro do ano passado, cento e onze cruzes foram colocam em frente ao Largo São Francisco por alunos da Faculdade de Direito, em lembrança aos mortos do massacre ocorrido há 20 anos, onde morreram 111 presos. Foto: Futura Press


Madia foi o único oficial, dos cinco réus que se dispuseram a falar no júri, a assumir a responsabilidade pelos subordinados. "Eu entrei (no Carandiru) e não neguei. Não fujo da responsabilidade de eles terem entrado. Eu sei que nós não fizemos (o massacre)."

O réu começou a contar como foram os momentos que antecederam a invasão do complexo do Carandiru. "Estávamos numa situação de extrema adrenalina ao invadirmos o pavilhão. Não foi uma operação simples", relata o interrogado.

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Depois, ele relatou detalhes do momento da invasão. "Havia muito barulho antes de entrarmos no Pavilhão. Quando começamos a invadir, o barulho e as explosões aumentaram. ouve embates muito violentos dentro do pavilhão. Enfrentamos uma situação muito complicada lá", afirmou.

Contradições

A promotoria encontrou contradições entre o relato do tenente-coronel nesta quinta-feira e os que ele havia dado à Justiça Militar e no inquérito. Diante dos jurados, Madia disse que não havia visto homens nus na Casa de Detenção.

A defesa explorou os riscos enfrentados pelos profissionais da Rota, como a falta de segurança pessoal, as ameaças de morte e a distância da família. Madia ainda retomou a questão do preconceito contra PMs. Nesta sexta-feira (2), começa a fase de debates e, segundo previsão, a sentença será anunciada até a madrugada desta sexta-feira para sábado.

Toda a ação para reprimir a rebelião no Carandiru, em 1992, resultou em 111 detentos mortos e 87 feridos. O episódio é considerado como o maior massacre do sistema penitenciário brasileiro. Na primeira etapa do julgamento do Carandiru, que foi desmembrado em quatro etapas, 23 policiais militares, todos da Rota, foram condenados pela morte de 13 detentos, ocorrida no segundo pavimento.

*Com Agência Estado e Agência Brasil

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