Para o filósofo, Francisco é jesuíta sem ser “soldado de Cristo” e, sem dúvida, é um missionário

Francisco é francamente moderno e o mais secular possível. Seu discurso na favela de Varginha não abusa das palavras “Jesus” ou “Deus”. Menciona-as com incrível parcimônia, e em contextos muito determinados e apropriados.

No caso de Jesus, vale destacar: “A Igreja está ao lado de vocês, trazendo-lhes o bem precioso da fé, de Jesus Cristo, que veio 'para que todos tenham vida, e vida em abundância' (Jo 10,10).” No caso de Deus: “Queridos amigos, certamente é necessário dar o pão a quem tem fome; é um ato de justiça. Mas existe também uma fome mais profunda, a fome de uma felicidade que só Deus pode saciar. Fome de dignidade.”

Fiéis recebem papa Francisco na favela do Manguinhos, no Rio
Associated Press
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Vida em abundância e moral da dignidade. Quem não vê novidade nessas citações é porque não está atento às mudanças que o papa Francisco está introduzindo na Igreja Católica. Novidades que o fazem “papa dos pobres”, mas em um sentido muito especial.

Os meios de comunicação estão certos quando dizem que ele é “o papa dos pobres”. Todavia, a política tradicional, ainda polarizada por religiões que se pretendem maiores que a do papa, a da “direita” e a da “esquerda”, vão cair do cavalo, ou melhor, do burro, se apostarem no que sempre apostaram, ou seja, em utilizar do discurso papal para seus intentos.

Francisco está longe de ser o anticomunista João Paulo II (ou o policial deste, Ratzinger, que virou Bento 16) e também distante de protetores e tutores de pobres, os marxistas da Teologia da Libertação. É claro que ele tem uma doutrina social, mas ele não acredita nos manuais de sociologia que informam os estudantes de ciências humanas de que, no mundo moderno, a política substituiu a religião. Ele acha isso uma bobagem imensa. Ele aposta claramente na ideia da riqueza histórica da Igreja Católica em ter seus próprios heróis. Ela não precisa da cantoria de um Padre Marcelo ou da cantoria dos que dizem ter lido Karl Marx.

Seu discurso dirigido aos pobres e aos jovens é recheado de mensagens diretas, em linguagem simples, quase que internética – fantasticamente atual para um professor de filosofia com mais de setenta anos – e completamente inteligível a todos. As imagens de seu discurso são de vitalidade, são terrenas sem serem moralistóides ou de revolta meramente adolescente. Para quem conhece um pouco de filosofia e história do cristianismo, é possível identificá-las nos heróis internos. Com um carisma distinto de qualquer outro papa antes que eu tenha visto, ao vivo ou por filme, Francisco tem um sorriso sincero, mostra felicidade e fé, tem uma energia absurda para sua idade e, enfim, é jesuíta sem ser “soldado de Cristo”. Isto é, sem dúvida trata-se de um missionário. Mas é avesso à disciplina que não a própria, e tem desdém pela disciplina da corporação, muitas vezes formal. Sua disciplina vem de seu franciscanismo, de seu singelo flertar com os ideais da Igreja dos pobres de São Francisco de Assis. É como se ele evocasse um tipo de São Francisco que tivesse rejeitado ser enclausurado em uma Ordem – a velha fórmula da Igreja do passado de cooptar revoltados, gente com disposição à dissidência, como os Luteros da vida.

A mensagem de Francisco é a da abundância, o que contraria um certo tipo de direita e também uma esquerda marxista meio inculta, que sempre disseram aos pobres que eles deveriam viver sem o “consumismo” (leia-se: consumo). Mas, ao mesmo tempo, a mensagem de Francisco é a de negação da “cultura do descartável”. Nisso, não se refere às coisas, mas às pessoas tornadas descartáveis. Então, evoca a capacidade de acolhimento, o que se casa muito bem com a frase nacional de que possível sempre por “mais água no feijão” , que ele utilizou magistralmente, como um mestre positivo da retórica.

Francisco parece apostar mesmo no que falou ao final do discurso de Varginha, de que os pobres não estarão sozinhos, que a Igreja e o papa estarão com eles. Mas, vinda dentro do contexto em que veio, essa frase soou como que a criação de um elo baseado na opção individual. Trata-se de um papa que não quer por canga no devoto porque ele próprio não a aceita.

Todo esse discurso coadunou bem com a resposta do garoto de Varginha, que lembrou que, com a vinda do papa, asfaltaram ruas e fizeram esgotos em sua comunidade, coisa que ele nunca tinha visto, e que ele esperava que serviços assim pudessem continuar a serem feitos após a ida do papa.

Esse argentino vai surpreender ainda mais.

Paulo Ghiraldelli Jr., 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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