Filósofo escreve sobre os motivos que levam as pessoas a enfrentar filas e chuva para ver o papa Francisco

“Quando fiquei sabendo que tinha câncer, passei a encontrar com as pessoas com uma pergunta na cabeça: o que essa pessoa que está aí tem para me ensinar?”. “Deve haver algo nessa pessoa que eu possa aproveitar, e vou saber o que é, vou aprender”. Eis aí as palavras da minha prima Mariana, ainda na casa dos vinte, na festa em que fizemos para ela, para comemorar a sua cura. Foi um ano enfrentando a doença, a “químio” e a operação.

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Papa Francisco esteve em Aparecida na quarta-feira para rezar uma missa
Associated Press
Papa Francisco esteve em Aparecida na quarta-feira para rezar uma missa

Ao usar da doença antes para aprender que para deixar-se nublar pela confusão mental de um futuro tenebroso, Mariana deu um passo decisivo para a sua cura – eu acredito, ou ao menos quero acreditar. Todavia, seria tolo da minha parte não lembrar, também, que todos nós, inclusive ela, criamos na família correntes de oração. Mariana usou dos poderes terrenos, mas nós todos junto com ela invocamos também os poderes da divindade.

É exatamente assim que funcionamos. É com esse tipo de mentalidade que milhares de brasileiros têm participado da Jornada Mundial da Juventude e da peregrinação para ver o papa Francisco no Brasil. Todos são como Mariana: de um lado, não falham na labuta diária e no exercício de aprender e continuar a vida, de outro lado, esporadicamente, renovam a ideia de que em algum lugar há algo que é maior que tudo que se vê por aqui, e que por ser maior, teria de ter mais poder e certamente uma grande bondade.

As pessoas modernas – e no Brasil mais os católicos que quaisquer outros religiosos – aprenderam a dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Trouxeram a devoção e a fé para o interior do coração, como algo privado, e deixaram para a vida pública o aprender e o viver. Em momentos como este, da vinda do papa, então elas se permitem tirar a fé lá de dentro do peito e mostrá-la publicamente.

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Ao contrário do que pensa algum metido a sociólogo, não se trata de ir ver o papa por causa do “grande espetáculo”, algo como “a Copa dos Devotos” ou o “Show de Rock dos Carolas”. Nem tudo que passa na TV ou é anunciado por esta é levado a sério por estar na TV. A maioria dos participantes lá está por devoção, por fé. Encontrar o papa é encontrar com um homem estudado, devoto, calejado pelo serviço de ajuda aos necessitados e, ao mesmo tempo, crente na esperança – Deus. Por que não encontrar com um homem assim?

Por mais ou menos ingênuo que o homem moderno possa ser ele age filosoficamente, ao modo de Pascal: é mais fácil ver plausibilidade no milagre que dizer que é algo que não existe. Para Pascal, a noção ampla de “natureza” nunca foi algo a ser levado a sério. Não há “natureza” em Pascal. Sendo assim, não há também o “sobrenatural” e não temos quer criar a oposição entre natural e sobrenatural. Assim, não havendo natureza ou leis férreas, seria tolo não admitir o que chamamos de milagre. Em um mundo sem natureza não faria sentido falar em quebra da natureza ou rompimento das “leis da natureza”, ou seja, milagre. Este, portanto, é apenas o não corriqueiro, o não banal. É o que podemos admitir se a probabilidade nos é familiar (não à toa Pascal é o inventor da máquina de cálculo).

A Igreja Católica e fundamentalmente o papa não banalizam o milagre. Desse modo, valorizam ainda mais o poder da fé, da oração e, por essa via, fazem da empresa religiosa algo sério. O que não é banal é sério por si só. É o que merece destaque. A cura de Mariana não é algo banal, tem o caráter do que é para ser levado a sério como um milagre é levado a sério. Quem diria o contrário, sinceramente, dentro do nosso círculo familiar? Quem proibiria ou censuraria ou outro, no nosso círculo familiar, por ir ao encontro de um homem, um professor, que promete levar a sério fatos não corriqueiros, não banais?

Estar com o papa é uma alegria se se pensa assim. Pois à luz de sua presença, talvez se possa ter mais fé, mais esperança, mais alegria no peito. É desse modo que pensam muitos, e por isso frio e chuva não os desanimam – querem ver p Papa.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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