Manifestação convocada por centrais sindicais nesta quinta-feira teve pouca participação espontânea

Depois de prometerem "parar a cidade", sete centrais sindicais que teoricamente representam todos trabalhadores do País, dezenas de sindicatos, partidos políticos, movimentos de sem-terra, sem-teto e entidades estudantis juntos conseguiram levar apenas 7 mil pessoas à Avenida Paulista , segundo a Polícia Militar, para um ato na tarde desta quinta-feira.

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O número representa 10,27% das 65 mil pessoas que o novato Movimento Passe Livre juntou na manifestação contra o aumento das tarifas de transporte no Largo da Batata , dia 17 de junho.

Garotas com coletes da CUT recebram R$ 30 para participar de manifestação na Paulista
Ricardo Galhardo
Garotas com coletes da CUT recebram R$ 30 para participar de manifestação na Paulista

Dos 7 mil que estiveram na Paulista, vários foram pagos para participar do protesto. O estudante Eric Rodrigues, de 16 anos, disse que recebeu R$ 80 mais almoço e café da manhã para segurar um balão do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, ligado à Força Sindical

"O pai de uma amiga perguntou se a gente queria trabalhar e eu topei", disse o estudante que mora em Artur Alvin.

Ele usava uma camiseta com o nome do presidente do sindicato, o deputado estadual Antonio Ramalho (PSDB-SP), líder da ala sindical do PSDB.

Um grupo de garotas com idades entre 15 e 16 anos moradoras do bairro Monte Líbano, Zona Sul, disse ter recebido R$ 30. Elas usavam camisetas da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Hamilton Chaves, dirigente da associação de moradores do bairro, disse que as garotas fazem parte de projetos sociais da associação e que o dinheiro era para alimentação.

O estudante Alex Silva, 20 anos, que mora em Itaquaquecetuba, disse ter recebido R$ 50 da Central dos Sindicatos do Brasil (CSB) para vestir a camiseta da entidade no protesto. Ele e outros dois amigos não sabiam citar um item sequer da pauta da manifestação.

Embora tenha aprovado uma resolução nacional apoiando o protesto e feito convocatórias por meio do diretório municipal e do setorial de Juventude, o PT foi pouco visto na rua.

O presidente do diretório estadual do PT, Edinho Silva, disse que o partido reviu a posição para evitar confrontos com os sindicalistas.

A presença popular espontânea praticamente se restringiu ao Sindicato dos Motociclistas, que levou cerca de 100 pessoas, e ao MST, que atraiu 500 militantes.

Eric Rodrgues ganhou R$80 para segurar balão de sindicato
Ricardo Galhardo
Eric Rodrgues ganhou R$80 para segurar balão de sindicato

Concebido em uma reunião no Instituto Lula, no dia 19 de junho, quando a onda de protestos populares havia se espalhado por todo o País causando danos à imagem do governo e da presidente Dilma Rousseff, o ato desta quinta-feira, em São Paulo, teve muito poucas semelhanças com as manifestações populares de junho.

A primeira diferença visível foi a faixa etária. Enquanto os atos de junho eram formados na maioria por jovens, a manifestação das centrais sindicais levou para a avenida um grande número de velhos sindicalistas, muitos deles empregados na burocracia das entidades trabalhistas. Um homem de 73 anos carregava uma bandeira vermelha da Aliança da Juventude Revolucionária.

Outra diferença foi a presença livre de partidos políticos. Além do PT foram vistas bandeiras do PSTU, PCO, PC do B, Pátria Livre e PMDB.

Enquanto as manifestantes que foram às ruas em junho se expressavam livremente, de forma desorganizada, carregando faixas e cartazes com demandas pessoais feitos em casa, os militantes que foram ao ato desta quinta-feira se limitavam a vestir camisetas ou coletes das centrais sindicais, distribuídos na hora, quando as peruas fretadas chegavam à Paulista.

O humor e criatividade característicos das manifestações de junho, também desapareceram. Foram substituídos por discursos burocráticos de líderes sindicais e políticos profissionais.

Uma das poucas exceções foi um homem que levou um cartaz pedindo a redução da alíquota do IPVA, o imposto sobre veículos.

A infraestrutura foi outro diferencial. Nas passeatas de junho as instruções eram passadas via jogral já que os organizadores não tinham dinheiro para contratar equipamentos. Nesta quinta-feira, na Paulista, a reportagem do iG contou oito carros de som funcionando simultaneamente.

Os movimentos que levaram milhões de pessoas às ruas em junho funcionam à base de doações ou crowdfunding, espécie de vaquinhas virtuais. O MPL não tem nem sequer uma sede própria. Já as centrais sindicais receberam em 2013 R$ 7,5 milhões em imposto sindical, segundo o Ministério do Trabalho. O dinheiro vem do desconto de um dia de trabalho por ano de cada trabalhador assalariado do Brasil.

Apesar da baixa audiência, alguns organizadores do protesto desta quinta-feira chegaram a discursar em tom professoral dizendo que ao contrário das marchas de junho, o protesto de ontem tinha pauta, lideranças, rumo e organização.

Para algumas lideranças que estiveram quinta-feira na Paulista, o baixo quórum do protesto mostra o descolamento entre partidos de esquerda, movimentos sociais e suas bases ocorrido nestes 10 anos de governo do PT.

Homem carrega bandeira da Aliança da Juventude Revolucionaria
Ricardo Galhardo
Homem carrega bandeira da Aliança da Juventude Revolucionaria

"Desaprenderam a fazer. Ficaram tanto tempo longe das ruas que não sabem mais protestar", disse Markus Sokol, integrante do diretório nacional do PT e líder da corrente minoritária O Trabalho. "Se pagam para fazer piquete quando tem greve também pagam para trazer gente nos protestos", completou Sokol.

João Paulo Rodrigues, diregente nacional do MST, apontou uma suposta arregimentação dos sindicatos pelo governo. "Vejo dois problemas. O primeiro é a falta de capacidade de mobilização. Hoje é muito menos gente. O segundo é de caráter político. As centrais ficam com receio por causa das relações com o governo e para não constranger a Dilma", disse ele.

Embora o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força, tenha ameaçado pedir o "fora Dilma" no protesto desta quinta-feira, as críticas ao governo foram leves e pontuais, restritas a pautas específicas da agenda trabalhista e críticas à equipe econômica, em especial ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, pela plítica de aumento de juros.

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Dirigentes das centrais sindicais negaram ter pago pela presença de manifestantes. Paulino da Força minimizou o número reduzido de pessoas. "Já sabíamos que aqui na Paulista seria um ato de militância. Na periferia teve muito mais gente", disse ele.

O secretário de relaçõas internacionais da CUT, João Felício, foi no mesmo caminho. "Nosso ato foi descentralizado. Muita gente foi para a rua em centenas de cidades. Pelos relatos que chagaram até agora São Paulo não foi a maior. Em Belo Horizonte, Porto Alegre e Floriaópolis teve muito mais gente", afirmou Felício.

Veja fotos dos protestos pelo País:


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