Florentino Cardoso afirma que programa Mais Médicos está cheio de erros e com pontos inconstitucionais

A Associação Médica Brasileira (AMB) afirmou nesta quarta-feira (10) que vai tomar "todas as providências possíveis, inclusive pela via judicial" contra o programa Mais Médicos, assinado pela presidente Dilma Rousseff esta semana. De acordo com a entidade, algumas medidas são inconstitucionais e a medida provisória está cheia de erros.

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"Nós não concordamos com o absurdo desta cabeça iluminada, ou destas cabeças iluminadas. Não tem país no mundo em que o curso de medicina seja de oito anos. Tem país onde o serviço médico é obrigatório. Em um país que a gente julga crescente, vibrante e democrático o profissional liberal ter que trabalhar onde o governo federal quiser é ir na contramão", disse o presidente da AMB, Florentino Cardoso, se referindo a determinação da medida provisória (MP) de que o curso de medicina passará para oito anos e que para o aluno receber o diploma ele precisará trabalhar os últimos dois anos do curso no Sistema Único de Saúde.

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A obrigatoriedade do estudante trabalhar no SUS foi apontada como inconstitucional. Para o presidente da AMB, a determinação fere o direito de ir e vir. "Além disso, se o governo considera que o curso é de oito anos, o estudante de medicina não pode trabalhar sozinho porque ele não é médico", disse .

Cardoso afirmou que advogados ligados às entidades médicas estão reunidos para estudar a MP. " Tem vários erros e isso não é de se estranhar levando em conta o modo açodado com que o governo faz as coisas. Um exemplo deste modo de trabalho está no fiasco que foi o plebiscito", alfineta.

"Se for para comparar que se compare tudo"

Ele faz um alerta sobre a manipulação de dados que o governo teria feito para conseguir a aprovação do programa perante a sociedade. "O governo cita números, faz comparações e principalmente manipula muito os números", denuncia.

Para ter números que possam rebater o governo futuramente, a AMB vai fazer um censo médico, que deverá ser respondido por profissionais de todo o País até o dia 30 de agosto. " Já deveríamos ter feito este censo antes, mas cada vez mais temos percebido que os números são manipulados e isso enviesa muito das conclusões", disse.

De acordo com a AMB, com o censo - realizado a partir de um questionário de 50 perguntas- será possível obter números reais e poder fazer projeções em comparações com a densidade populacional. O censo deve ficar pronto apenas no fim do ano.

Cardoso afirma que entre as manipulações do governo estaria o número divulgado pelo governo federal de haver no Brasil uma média de 1,9 médico por mil habitantes . As cidades do Rio, Brasília e Vitória teriam, de acordo com o governo, mais de 4 médicos por mil habitantes. " O governo enviesa números para achar que quanto mais médicos, melhor é o atendimento. Isso não é verdade", disse.

Ele ressalta que para fazer comparações é preciso levar em conta tudo referente ao assunto e não apenas um ponto. "Quando compara tem que comparar tudo. Quanto o Reino Unido investe do PIB em saúde e quanto o Brasil investe. Em que condição os médicos trabalham? Qual é o salário? No posto de saúde, o teto cai? Falta água para lavar as mãos?", questiona.

Para ele, problemas urgentes da saúde no País como subfinanciamento, má gestão e corrupção não entraram na MP. "Não vimos neste pacotão nenhuma medida para sanar estes três problemas".

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