Ordem do papa, jesuítas são conhecidos pelo desapego material e por dialogar

Por Renan Truffi - iG São Paulo | - Atualizada às

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Saiba como funciona o grupo religioso a qual pertence o argentino Jorge Mario Bergoglio, que chega ao Brasil no próximo dia 22 de julho para a Jornada Mundial da Juventude

Muitas pessoas conhecem os jesuítas apenas como padres que na época da colonização vieram da Europa catequizar os índios e disseminar a fé católica na América. Mas a escolha do então arcebispo de Bueno Aires, Jorge Mario Bergoglio, como primeiro papa jesuíta da história trouxe nova visibilidade à Companhia de Jesus, como é chamada a ordem religiosa a qual pertence esses católicos. Com aproximadamente 600 membros no Brasil e 20 mil no mundo, os jesuítas têm como uma das principais características o desapego material. E o fato de terem um representante no mais importante cargo do Vaticano tem um significado.

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“Um papa jesuíta é um símbolo muito forte de que a Igreja Católica está querendo dialogar, se abrir para outra percepção de realidade que ainda não se abriu. (...) Essa característica, o diálogo, é fortíssima entre os jesuítas”, explica o padre Geraldo Lacerdine, diretor de comunicação da Companhia de Jesus no Brasil.

Núcleo de Comunicação/Companhia de Jesus
Pateo do Collegio é um dos complexosa administrados pelos jesuítas em SP, com museu, igreja e biblioteca

O desapego material é outra característica desta ordem religiosa que já aparece em atitudes e discursos do papa Francisco, de acordo com o padre jesuíta Carlos Alberto Contieri. “Em primeiro lugar, e o que é mais evidente para todos, o desapego material. Um desapego expresso na simplicidade. Todas as vestimentas do papa Francisco são muito simples. O desapego que se exprime também na forma de considerar o poder. Para o papa Francisco, o poder é um serviço aos outros. Ele (papa Francisco) não aceitou ir morar, por exemplo, no apartamento papal no Palácio Apostólico. A razão é simples. Na Casa Santa Marta ele encontra os bispos e cardeais do mundo todo, ouve diretamente as pessoas e não somente aqueles que o Vaticano indica”, afirma.

Passado e presente

Fundada em 1540 por Santo Inácio de Loyola, a Companhia de Jesus é o nome canônico da instituição a qual pertencem os jesuítas. Segundo Lacerdine, a ordem religiosa nasce “no ambiente universitário”, com o “desejo de ajudar pessoas e resgatar a dignidade humana”. “Santo Inácio tem um característica muito legal que vai definir a missão da Companhia de Jesus até os dias de hoje. O que chama atenção dele em Jesus Cristo é o trabalho para resgatar o ser humano. Isso é a missão principal da Companhia de Jesus: ajudar a ser plenamente humano no exercício da fé. É o que marca profundamente os jesuítas do passado e de hoje”, conta.

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Núcleo de Comunicação/Companhia de Jesus
Padre Carlos Alberto Contieri, diretor do Pateo do Collegio e do Museu de Arte Sacra dos Jesuítas

Se antigamente o desafio dos jesuítas era levar o catolicismo além das fronteiras, o que fazem estes religiosos hoje em tempos de internet? “A Companhia de Jesus não tem nenhum trabalho específico, as situações são as mais diversas possíveis. Nós temos jesuítas que trabalham em universidades, jesuítas que estão inseridos lá no interior do Mato Grosso e convivem com indígenas. Temos um grupo de jesuítas especialistas em análise social para conscientizar a comunidade europeia a olhar para o terceiro mundo. As situações naquela que somos colocados são muito diversas”, responde Contieri.

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Isso não significa, no entanto, que os jesuítas tenham perdido a função. Para o padre Geraldo Lacerdini, o que aconteceu foi a mudança da lógica de missão dos membros da companhia. “Somos chamados a ir ajudar todas nações, mas não é só geograficamente. Ajudamos grupo de pessoas excluídas, como pobres e refugiados. A concepção de missão muda e evolui com o tempo. Agora não são fronteiras geográficas, mas fronteiras ecológicas, sociais. Pode ser que a missão seja no meio científico. Temos jesuítas, por exemplo, que são formados em genética. Eles trabalham em laboratórios de pesquisa para vencer a fronteira do diálogo entre ciência e fé”, complementa.

Processo de admissão

Por causa dessas características, a Companhia de Jesus também escolhe seus membros com base na “vocação”. “O processo de ingresso é longo e demorado”, conta Contieri. Além de ter concluído o ensino médio, o interessado em fazer parte da ordem religiosa precisa ser acompanhado por um jesuíta ao longo de um ano inteiro. “Se o lugar onde ele mora não oferece essa possibilidade, vai para uma casa que chamamos de comunidade vocacional. Lá estarão outros rapazes nesse mesmo processo”, acrescenta o padre.

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Após um ano, a pessoa entra num plano de candidatos. “Vai ter que fazer um retiro espiritual, uma experiência de inserção. Será entrevistado por mais três ou quatro jesuítas, a fim de verificar de fato a vocação. Somado a isso, tem um teste psicológico para ver se é uma pessoa integrada ou se está em vias de integração. Juntados todas essas coisas, é feito um parecer deste padre jesuíta que o acompanhou e de um padre provincial. A partir disso vão discernir se é apto e pode ser admitido imediatamente ou se é uma pessoa que tem de esperar. Todos nós passamos por isso”, diz Contieri quando questionado se o papa Francisco também teve que enfrentar este tipo de seleção.

Núcleo de Comunicação/Companhia de Jesus
Na Companhia de Jesus desde 2000, o padre jesuíta Geraldo Lacerdine atuou em várias missões como, por exemplo, com os índios na Amazônia peruana

“A pessoa precisa ter vocação apostólica missionária. Nós não estamos num lugar para sempre. A mobilidade e o deslocamento é o que caracteriza o jesuíta. Diferente do beneditino que faz voto de confinamento, a gente é enviado para qualquer parte do mundo”, resume ele. Se possuir todas essas características, o candidato se torna então um irmão jesuíta, status que exige os votos de pobreza, castidade e obediência à Companhia de Jesus. A partir disso, o religioso pode ou não iniciar os estudos para se tornar um padre jesuíta. "É uma dimensão de reflexão intelectual muito avançada. São pessoas que estudaram muito, fizeram três universidades, para chegar a ser ordenado padre", conta Lacerdine.

Visita do papa

Mas as missões não os únicos trabalhos dos jesuítas no País. A Companhia de Jesus é responsável por diversas escolas populares. O padre Geraldo Lacerdine comemora os benefícios que este setor terá com a visita do papa Francisco ao Brasil, em 22 de julho, por causa da Jornada Mundial da Juventude. “A companhia nunca teve tanta visibilidade. Do dia para a noite ficou conhecida no presente. O trabalho do presente não era tão conhecido assim. Podemos mostrar coisas que nós fazemos: projetos, fé e alegria que tem nas mais de 2 mil unidades de educação popular. É um trabalho lindíssimo que só é potencializado com a visita do papa”, afirma.

Ainda que o papa tenha diversos atributos ligados à vocação jesuíta, Lacerdini acredita que uma outra qualidade pessoal do líder religioso vai marcar a passagem pelo Rio de Janeiro. “O que é legal é que esse papa surpreende. Vai conquistar muito (os brasileiros). É muito carismático, bem-humorado, sabe rir, é um papa que se diverte, que se alegra. Para a gente vai ser muito bacana”, aposta.

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