Na selva, Brasil busca estender seu alcance

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Curso brasileiro de guerra na selva recebe soldados da região e de outros continentes no momento em que País quer espalhar sua influência em partes do mundo em desenvolvimento

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O major José Maria Ferreira sorria enquanto listava as ameaças à sobrevivência humana na selva envolvendo este posto militar remoto na Amazônia brasileira. Ele começou com as piranhas, que se escondem nos rios, e as cobras como a surucucu, a mais longa cobra venenosa do hemisfério ocidental. Então, ele falou a respeito das criaturas silenciosas, incluindo a formiga-cabo-verde, encontrada em colônias na base das árvores. Sua picada, de acordo com vítimas, dói tanto quanto ser baleado e a dor dura 24 horas.

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Soldados brasileiros descem de rapel de um helicóptero durante curso de guerra na selva executado pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva do Brasil. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesBrasileiro tenente Caio Nicoli Calggario, à esquerda, olha para uma lesão no joelho enquanto descansa durante o curso. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesSoldado durante curso de guerra na selva executado pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva do Brasil. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesChuva se aproxima de zona onde é realizado o curso, próximo de um posto militar remoto na Amazônia brasileira. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesInstrutor militar brasileiro ajuda a oficial do exército francês, à direito, em rapel de um helicóptero durante o curso. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesSoldados brasileiros preparam comida para compartilhar com os participantes. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesSoldados brasileiros interceptam um veículo de simulação de contrabandistas de madeira durante o curso de guerra na selva. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesSoldados do Brasil, Guatemala e França durante o curso de guerra na selva. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesBrasileiro faz rapel de um helicóptero durante um curso executado pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesTenente Djibil Toure, segundo à direita, um dos quatro oficiais de uma unidade de operações especiais do exército de Senegal. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesSoldado guatemalteco detém um falso contrabandista de madeira durante curso na Amazônia brasileira. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesSoldados brasileiros durante gurso de guerra na selva executado pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva do Brasil. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesSoldados brasileiros em uma entrevista antes de uma missão executado durante o curso. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesCurso de guerra na selva emerge como um dos pilares da ambição do país para espalhar sua influência. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesSoldados brasileiros durante curso na Amazônia brasileira. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesSoldados brasileiros se preparam antes de sair para missão durante o curso de guerra na selva. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesSoldado francês carrega munição no pescoço durante curso do Centro de Instrução de Guerra na Selva. Foto: Mauricio Lima /The New York TimesSoldado brasileiro durante um curso de guerra na selva próximo a de um posto militar remoto na Amazônia brasileira. Foto: Mauricio Lima /The New York Times

Sorrindo ainda mais, Ferreira descreveu a leishmaniose, a doença causada por picadas da mosca de areia, as febres por picadas de mosquitos, como a malária e a dengue e, finalmente, rabdomiólise, uma condição causada por exercício extremamente extenuantes. Isso leva a danos nos rins e à degradação do tecido muscular esquelético, as vítimas podem identificar seu início quando a urina se torna marrom escuro.

"Ficamos preocupados quando isso acontece", disse Ferreira, 42, o porta-voz do Centro de Instrução de Guerra na Selva do Brasil, que está entre as instituições mais exigentes de seu tipo nos trópicos. "Essa coloração marrom significa 90% de chance de morte."

Estranhamente, dezenas de soldados das unidades militares de elite brasileiras, assim como membros das forças de operações especiais de todo o mundo, competem todo ano pelas cobiçadas vagas nos cursos do centro, que está emergindo como uma figura principal da ambição do Brasil de espalhar sua influência em partes do mundo em desenvolvimento, especialmente na América Latina e África.

Nos cursos que duram cerca de nove semanas, os instrutores fazem com que os soldados cumpram algumas árduas tarefas. Os soldados devem realizar longas caminhadas pela floresta, nadar em águas infestadas de jacarés e piranhas e sobreviver por vários dias sem comida, caçando seus próprios alimentos.

Os instrutores também privam os soldados de sono, gritando insultos contra eles quando eles mostram sinais de fadiga, e forçando-os a brigarem uns com os outros.

"Tem sido uma experiência muito, muito difícil e cansativa", disse o tenente Djibil Toure, 26, um dos quatro oficiais subalternos de uma unidade de operações especiais do exército do Senegal enviados para participar do curso este ano.

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Após o término do curso, Toure disse que conselheiros militares brasileiros planejam viajar para o Senegal, onde sua unidade está envolvida na luta contra a insurgência do Movimento das Forças Democráticas de Casamance.

Para o Brasil, a oportunidade de treinar soldados africanos ajudará a melhorar ainda mais seu perfil no outro lado do Atlântico, num momento em que o comércio está crescendo entre o Brasil e os países africanos. Além do Senegal, Angola começou a enviar soldados para o centro, comumente chamado de CIGS.

Mauricio Lima /The New York Times
Centro de Instrução de Guerra na Selva

O Brasil também disponibilizou os cursos para os países em seu próprio hemisfério, para países como Argentina, Venezuela, Guiana e Suriname. Mesmo a França, que possui soldados na Guiana Francesa, uma região ultramarina que compartilha uma fronteira na Amazônia com o Brasil e os Estados Unidos, ocasionalmente, envia soldados para participar do treinamento.

Formar uma força militar que permitirá ao Brasil construir sua soberania sobre a Amazônia, cerca de 60% dela se encontra no Brasil e está sendo urbanizada a um ritmo acelerado, continua sendo a principal prioridade do centro. O programa se concentra em lidar com os desafios colocados pelo tráfico de cocaína, o desmatamento ilegal, a mineração não autorizada de ouro e diamantes, e a ameaça de incursões de guerrilheiros da Colômbia que procuram refúgio.

A tarefa de preparar os soldados para missões no Brasil ou no exterior é em grande parte deixada para o tenente-coronel Mario Augusto Coimbra, o instrutor-chefe no Centro de Instrução de Guerra na Selva do Brasil.

Coimbra, um conhecedor auto-descrito do uísque Jack Daniels, recentemente passou um período de férias no Texas caçando porcos selvagens e possui uma coleção de facas de combate, particularmente a faca nepalesa kukris, em seu escritório.

"O Rambo não conseguiria terminar este curso", disse Coimbra, 44. "Pois ele é um individualista. Para realmente sobreviver na selva você precisa trabalhar em equipe."

Ainda assim, mesmo as equipes formadas durante o curso inevitavelmente acabam diminuindo. Dos 100 participantes que iniciaram o curso este ano, restaram apenas 53 participantes quando atingiram a metade do trajeto. Médicos e psicólogos monitoram constantemente os soldados, solicitando sua remoção se eles parecem estar muito cansados ou doentes. A última morte foi em 2008, quando um soldado desmaiou enquanto nadava.

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Em uma tarde recente, muitos dos participantes pareciam magros e com olheiras, pois foram obrigados a correr em formação sob chuva incessante. Todos eles tinham seus crachás removidos de seus uniformes, e foram atribuídos números pelos instrutores.

No. 14, o tenente Caio Nicoli Calggario, do Espírito Santo, parecia exausto quando perguntado a respeito do curso. Ele disse que um dos piores momentos ocorreu durante a fase de sobrevivência, quando alguns soldados esfomeados comeram as larvas encontradas na árvore de coco de babaçu.

"Eu dormi 10 minutos na noite passada", disse ele, olhando para o chão. "É difícil caçar quando você está cansado."

Por Simon Romero

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