Após perder filho em acidente, engenheiro se torna ativista

Engenheiro Fernando Diniz fundou ONG Trânsito Amigo, estudou segurança de trânsito e passou a cobrar leis mais duras

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O engenheiro brasileiro Fernando Diniz nunca esquecerá uma noite, em 2003, quando telefonou para o celular de seu filho Fabrício e um policial atendeu dizendo que havia ocorrido "um acidente muito grave". Ao chegar ao local, Diniz descobriu que seu filho estava com amigos em um carro que bateu em um poste e capotou. Ele viu o corpo de Fabrício estirado na pista.

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Arquivo pessoal
Foto da família de Fernando Diniz, em dois momentos: com (na foto à esquerda) e sem Fabrício


"É a pior dor que pode acometer um ser humano", disse Diniz. Ele também descobriu que o motorista, que não ficou ferido, praticava um racha. O acidente matou não apenas Fabrício, mas também duas jovens de 18 anos que estavam no mesmo carro. O motorista permanece foragido da Justiça até hoje, diz Diniz.

Dias após enterrar o filho, Diniz começou a procurar outras famílias com histórias parecidas. "Em quase todos os casos, o principal sentimento das famílias era a revolta contra o motorista causador do acidente. É comum que eu tenha que dissuadi-las de fazer justiça com as próprias mãos", afirmou.

Diniz criou a ONG Trânsito Amigo, estudou segurança de trânsito e passou a participar de palestras e audiências públicas apoiando uma legislação mais dura contra motoristas causadores de acidentes. 

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Sua luta é para evitar acidentes como o que matou o motorista de ônibus Marcos Aurélio Menarbini Pereira, de 25 anos, em agosto de 2005. A moto dele foi atingida por um carro cujo motorista participava, bêbado, de um racha no trânsito de São José do Rio Preto, cidade do interior de São Paulo.

"Meu irmão costumava cuidar da nossa mãe idosa. Ela não tinha problemas de saúde, mas duas semanas após a morte dele, ela teve seu primeiro infarte. Agora está sempre doente. Minha família ficou totalmente desestabilizada", afirmou Sandra Menarbini.

Leis e punições

O caso do irmão dela é o exemplo de uma questão técnica que ainda divide a Justiça: acidentes causados por motoristas bêbados podem ser considerados crimes dolosos (com intenção de matar)? 

"O motorista que matou Menarbini assumiu o risco de matar alguém quando bebeu e se envolveu em um racha de rua. Ele foi sentenciado a 14 anos de prisão", disse o promotor José Heitor dos Santos. Mas os juízes brasileiros não costumavam adotar esse tipo de interpretação até a Lei Seca de 2008, que estabelece porcentagens máximas de álcool no sangue de motoristas.

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Antes da lei e até atualmente, grande parte dos motoristas envolvidos em acidentes com morte tende a receber sentenças mais brandas, como contribuir para ONGs ou pagar cestas básicas às famílias das vítimas, uma vez que seus crimes acabam sendo considerados culposos. Para Diniz, o pagamento de cestas básicas é uma ofensa, por "equiparar a vida de pessoas a alguns grãos de arroz".

Ele participou da elaboração do projeto de lei 798/07, que tramita no Senado e propõe que penas alternativas a quem praticou crime de trânsito sejam cumpridas em ambientes relacionados ao resgate, atendimento ou recuperação de vítimas - como acompanhar atendimento de primeiros socorros ou o tratamento de pessoas com sequelas de acidentes.

Ao mesmo tempo, especialistas ouvidos pela BBC Brasil concordam que leis mais rígidas não bastam para prevenir acidentes e pedem mais investimentos em fiscalização, educação para o trânsito e conservação de estradas e ruas. O especialista de trânsito Philip Gold afirmou que o governo precisa melhorar a sinalização em vias, a conservação da malha rodoviária e trechos de estradas com defeitos de projeto.

Ele também defende campanhas. "É preciso mudar a mentalidade das pessoas para que elas passem a ter o hábito de não dirigir após ingerir bebida alcoólica. Assim como foi com o uso do cinto de segurança, é preciso que a prioridade para os motoristas passe a ser a segurança e não apenas a multa", disse.

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