Há 70 anos, os naufrágios e o resgate que levaram o Brasil a entrar na 2ª Guerra

Sobrevivente de naufrágio que antecedeu a entrada do Brasil na Segunda Guerra relembra ao iG o dia que ficou três horas boiando em alto mar e uma caixa de leite condensado

Daniel Torres - iG São Paulo | - Atualizada às

A pequena Walderez Cavalcante, de apenas 4 anos, começava uma nova vida há 70 anos. Na manhã do dia 17 de agosto de 1942, na costa da Bahia, o navio em que ela e o pai estavam afundou após ser torpedeado por um submarino alemão nazista. Durante três horas ela ficou boiando sobre uma caixa vazia de leite condensado até ser resgatada. Os dias seguintes ao naufrágio, que mudou a vida de Walderez, também mudaram a história do Brasil. Após ter cinco navios afundados em dois dias pelo mesmo submarino alemão, o U-507, o País deixaria a posição de neutralidade para entrar Segunda Guerra Mundial.

Pelo mundo: Cerimônias relembram os 70 anos da Segunda Guerra Mundial

Arquivo pessoal
Walderez Cavalcante, após o resgate do navio Itagiba, em agosto de 1942

Com personagens como Walderez e outros sobreviventes dos ataques aos navios Baipendí, Aníbal Benévolo, Araraquara, Itagiba e Arará, o jornalista Marcelo Monteiro escreveu - e lançou nesta semana, na Bienal - o livro, “U-507 – O submarino que afundou o Brasil na Segunda Guerra Mundial”. A obra narra os dias que antecedem a decisão pela entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, tomada pelo então presidente Getúlio Vargas depois que o submarino alemão U-507 torpedeou cinco navios nacionais, no litoral de Sergipe e da Bahia, entre os dias 15 e 17 de agosto de1942, causando a morte de 607 brasileiros. Uma semana depois, Vargas decretou estado de beligerância à Alemanha e Itália e, no dia 31 de agosto, declarou guerra.

“Eu me lembro com muita emoção daquele dia. Era um dia comum na vida de uma menina que viajava junto com o pai que trabalhava no navio. Eu não tinha ideia do que aconteceria, mas às 10h50 fomos surpreendidos por uma explosão que gerou um estremecimento geral no navio. Alguém falou ‘ fomos torpedeados’. Nisso meu pai me pegou o fomos a uma baleeira [usado como barco salva-vidas] do navio, já que ele estava afundando. Mas quando o Itagiba [o navio] afundou, o mastro caiu sobre a baleeira em que estávamos e atingiu o meu pai, que fraturou a bacia e ficou enrolado aos fios. Foi alguém me colocou dentro da caixa de madeira de leite condensado dizendo “não solte" e fomos todos para água, onde fiquei por cerca de três horas à deriva, quando fui encontrada por uma outra embarcação onde meu pai estava”, conta Walderez, hoje com 74, em entrevista para o iG .

Hoje vivendo em Maceió, a psicóloga aposentada Walderez lembra que foi resgatada graças a persistência do pai, que não aceitou que poderia perder a filha. “Quando resgataram o meu pai e ele soube que não tinham me encontrado, ele disse que não queria viver sem mim, que era para jogá-lo ao mar de volta. Foi pela insistência dele que me encontraram três horas depois, sem nenhum arranhão e nem frio. Meu pai me contava que foram colocar um cobertor em mim, após o resgate, já que estava molhada, e eu dizia que não queria”, relembra emocionada a sobrevivente. Veja abaixo o vídeo com imagens dos sobreviventes e parte do depoimento de Walderez para o livro:

Outra lembrança emocionante revivida no último ano por Walderez foi o encontro com Vera Beatriz do Canto, também com 74 anos, filha do capitão do Exército José Tito do Canto. Na época com a mesma idade, as duas se conheceram no navio e brincavam juntas. As duas crianças escaparam do naufrágio. “Foi emocionante reviver tudo e encontrar a Vera depois de 69 anos. Ela era a filha do capitão que comandava a tropa e eu uma filha de um pai humilde que trabalhava no navio. Mas ficamos amigas lá”.

Reprodução livro Agressão/Marcelo Monteiro
Vera (esquerda) e Walderez, dias após o naufrágio; na segunda foto, Walderez (esquerda) e Vera, 69 anos depois

Além de entrevistar sobreviventes dos naufrágios, o escritor teve acesso ao diário de bordo de Harro Schacht, comandante do submarino alemão. Assim, além da rotina nos navios afundados, o livro também detalha, com base nos documentos nazistas, o cotidiano do U-507, dando nova luz a fatos históricos que poucos brasileiros conhecem.  "O livro é composto de uma história mais incrível que a outra. As histórias são o principal do livro. Se deparar com a história da dona Walderez, uma menina que sobreviveu ao naufrágio em uma caixa do Leite Moça, é emocionante. Mas são histórias que as pessoas não conhecem porque não há quase nada publicado sobre o assunto", conta o escritor.

Após ser resgatada sem nenhum ferimento, a menina Walderez foi levada a casa do prefeito de Valença, já que o pai estava internado em um hospital da cidade para se recuperar dos ferimentos. Mas poucos dias depois Walderez também precisou ser hospitalizada, já que brincando com a filha do prefeito, caiu de uma escada e quebrou o braço esquerdo. No hospital, voltou a companhia do pai, que foi fundamental para salvá-la.

O soldado

Marcelo Monteiro
O tenente Dálvaro José de Oliveira, ao 92 anos

Outro sobrevivente do naufrágio, também personagem do livro, é o tenente aposentado Dálvaro José de Oliveira, soldado – na época – da tropa comandada pelo pai da sobrevivente Vera. A tropa era transferida do Rio de Janeiro para Olinda (PE), onde seria formado o 7º Grupo de Artilharia de Dorso.

“O tenente Dálvaro na época era só um soldado. Hoje tem 92 anos e muitas lembranças, coisas muito vivas na cabeça dele e que histórias que emocionam. Ele estava ao lado de um amigo que foi atacado por um tubarão. Os dois estavam nadando após o naufrágio do Itagiba em direção a uma baleeira, a um metro de distância um do outro, quando o amigo deu um urro e desapareceu, sendo puxado de repente. A área era um ponto com muitos tubarões. Ele tem memórias muito vivas disso. Algumas coisas que você vê que ainda são dolorosas”, conta o autor do livro.

Centenas de militares perderam a vida nos ataques alemães. Às margens do rio Una, em Valença, cidade para onde foram levados os náufragos e feridos dos naufrágios do Itagiba e do outro navio torpedeado na sequência, o Arará, o soldado e seus colegas sobreviventes juraram vingança. "E curiosamente, em 44, um e meio depois, ele, o soldado Dálvaro, e outros colegas que escaparam do naufrágio embarcaram para a Itália, lutaram na Força Expedicionária Brasileira e voltaram para contar essa história. Juraram vingança e ajudaram, de alguma forma, a acabar com a força daquele regime”, conta o jornalista. “Nossa vitória na guerra foi uma homenagem àqueles que morreram inocentemente nos navios mercantes brasileiros”, conta no livro o tenente, que até 2011 ocupava a presidência da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira.

Divulgação
U-507 - O submarino que afundou o Brasil na Segunda Guerra Mundial

O livro

Título: U-507 - O submarino que afundou o Brasil na Segunda Guerra Mundial

Autor: Marcelo Monteiro

Prefácio : Luís Fernando Veríssimo

Formato: 16X23 cm

Páginas: 350

ISBN: 978-85-8013-121-5

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