Aos 16 anos, ele matou um homem ao tentar roubar sua moto. Após internação na Fundação Casa, quer mudar de vida

Internos da Fundação Casa, em Osasco, na grande São Paulo, frequentam aulas
Alexandre Dall´Ara
Internos da Fundação Casa, em Osasco, na grande São Paulo, frequentam aulas

D. tinha 16 anos quando cometeu o crime que o levou à Fundação Casa. Dois anos antes, começou a usar drogas. A rotina era sempre a mesma: consumia entorpecentes, frequentava bailes funk e assaltava. Seu último roubo terminou em morte. “Entrei e dei voz de assalto. O cara reagiu, eu vi a filha dele gritar.” A reação da vítima somada ao nervosismo do menino resultou em dois tiros. O primeiro, disparado por acidente, acertou seu braço. O segundo matou a vítima.

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O interno lembra do desespero da menina, filha da vítima, mas não se sentia culpado. Ele fugiu do local e, ao voltar para casa, foi levado ao hospital pela mãe. Para ela, D. disse ter sofrido um assalto. A mesma versão foi contada ao policial que estava no hospital acompanhando um detento. Pelo rádio, o agente soube que um assaltante havia sido ferido na região do Taboão após tentar roubar uma moto. O adolescente foi reconhecido, apreendido e levado para a unidade do Brás, na capital paulista.

Ficou lá até o julgamento e depois foi internado na “Casa 1” do complexo formado por dois prédios com capacidade para 64 internos cada, em Osasco, na Grande São Paulo. A sentença não foi suficiente para fazer o jovem sentir-se culpado. Ele conta que sentia revolta. “Só pensava em sair daqui e voltar para o crime.” Acreditava que a causa da morte era a reação da vítima, que o assustou. Sua visão mudou após a internação. D. está na última etapa do programa socioeducativo, em que deve reconhecer seu erro e criar um projeto de vida. “Agora eu entendo, principalmente vendo o sofrimento da minha mãe. Ele estava na casa dele, estava protegendo a moto dele, que nem tinha acabado de pagar”, diz.

Aos poucos, os adolescentes entrevistados pela reportagem do iG, foram se envolvendo com as drogas, o tráfico e o crime. Especialistas confirmam que as relações sociais e o meio em que vivem influenciam o contato com as infrações. O fator financeiro aparece com frequência. “O menino carente de tudo, saúde, educação, saneamento passa a se identificar com o sujeito não pertencente à cidade, à sociedade formal”, diz o professor Antônio Sérgio Spagnol, doutor em sociologia pela USP (Universidade de São Paulo) e autor da pesquisa “O adolescente e a criminalidade urbana de São Paulo”. “Mas não podemos ser deterministas. Muitos vivem na mesma condição e nem por isso se envolvem com o crime.”

L., de 18 anos, é outro dos internos de Osasco. Está lá desde dezembro. Roubava para “ter as coisas” que a avó, com quem morava, não podia lhe dar. Ela sustenta a casa com um salário mínimo. A relação do adolescente com a mãe é distante.

Internos da Fundação Casa cumprem pena socioeducativa em Osasco, na grande São Paulo
Alexandre Dall´Ara
Internos da Fundação Casa cumprem pena socioeducativa em Osasco, na grande São Paulo

O crime também dá dinheiro para as drogas e as festas. Foi após um baile funk que ele cometeu um crime e foi preso. L. havia levado sua arma, carregada com apenas uma bala. “O segurança era amigo meu, às vezes até deixava com ele [a arma] para entrar no baile.” Um colega o chamou para o roubo. Os dois saíram em busca de vítimas e encontraram um casal na rua, fora do carro, um Pálio “modelo antigo”. O homem reagiu quando abordado e a única bala foi disparada para o alto. Sem a arma, L. e o amigo espancaram a vítima e o levaram no banco de trás do automóvel. Poucos quilômetros depois a polícia os parou. Presos, foram separados. L., ainda menor, foi encaminhado à fundação. O amigo, com 18 anos completos, foi encaminhado ao Centro de Detenção Provisória.

O adolescente também se revoltou com a sentença, mas conta que uma cena o impressionou. Viu o tio e a avó chorando após a decisão do juiz. “Até minha mãe, eu nunca morei com ela, chorou", diz. “Fiquei 45 dias na primeira fase do programa. A segunda completei com um mês e tive a nota mais alta”, conta o jovem com orgulho, olhando para a diretora da unidade como que para confirmar o feito. Ela concorda.

L. sempre gostou de Biologia, mas deve fazer curso de torneiro mecânico ao deixar a fundação. Seu tio é gerente em uma empresa multinacional do setor de maquinário pesado e prometeu-lhe pagar os estudos e conseguir um emprego. “Agora vou fazer isso, trabalhar, depois eu tento uma faculdade, alguma coisa na área que eu quero.”

D. diz que vai se mudar de casa com a mãe e as irmãs. L. garante que não voltará a procurar os antigos amigos. “Eu é que chamava eles, ia lá com eles. Não vou mais fazer isso, mas aí quando vierem me chamar vou ter que negar, tem que dizer não. Fácil não é.”

Corredor de unidade da Fundação Casa localizada em Osasco, na grande São Paulo
Alexandre Dall´Ara
Corredor de unidade da Fundação Casa localizada em Osasco, na grande São Paulo

Seja pela dificuldade largar o crime ou pela falta de oportunidade, 13,5% dos internos voltam à Fundação Casa. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) indicam que uma parcela maior desses jovens permanece na criminalidade. Considerando aqueles que voltam a cometer crime acima de 18 anos e, portanto, são detidos no sistema carcerário, a reincidência atinge 43%.

Apesar de não garantir que os jovens deixarão a criminalidade, as medidas socioeducativas são consideradas um avanço para os especialistas entrevistados pelo iG. “O ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente] é muito interessante, foi uma referência para outros países”, afirma a psicóloga e pesquisadora da PUC-SP Gabriela Gramkow.

A diretora da unidade da Fundação Casa de Osasco, Gilsélia Alvim, concorda. Ela diz ainda que a fundação é levada a lidar com problemas que deveriam ser resolvidos antes do adolescente chegar à internação, uma medida extrema, de acordo com o estatuto. “É preciso ter outras estruturas lá fora. Tudo falha lá, aí o menino acaba cometendo algum delito e vem pra cá”, diz. Para ela, o problema da criminalidade entre menores não pode ser resolvido com internação. “Menino sai daqui e precisa de uma rede, continuar o acompanhamento lá fora. Não adianta só manter aqui, manter apartado da sociedade.”

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