Sérvia quer extradição de “Big Brother”, suspeito de chefiar quadrilha no Brasil

Condenado em seu país em 2002, o sérvio Goran Nesic foi apontado por investigação da PF como um dos líderesde grupos que remetem drogas para o exterior pelo mar

Mario Hugo Monken iG Rio de Janeiro |

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Goran Nesic, conhecido pelos apelidos de Big Brother, Debeli ou Ciga

O Supremo Tribunal Federal (STF) aguarda o cumprimento de uma diligência na Sérvia para definir o julgamento do processo de extradição do sérvio Goran Nesic, que está preso no Brasil desde maio do ano passado.

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Conhecido pelos apelidos de Big Brother, Debeli ou Ciga, ele foi condenado em seu país a oito anos de prisão em 2002 por tráfico internacional de drogas pelo Tribunal Distrital de Pirot. A Sérvia quer que ele cumpra pena por lá.

Segundo informações da Justiça Federal de São Paulo, onde Goran tem uma condenação por falsidade ideológica e responde a processo por tráfico internacional de drogas, o suspeito fugiu de seu país e passou pela Bósnia, Alemanha e França antes de chegar ao Brasil.

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Big Brother foi um dos alvos da operação Niva da Polícia Federal (PF) que, no ano passado, desarticulou três organizações especializadas em tráfico internacional de drogas. Segundo as investigações, as quadrilhas levariam cocaína boliviana e colombiana para a Europa e África do Sul em cruzeiros marítimos ou navios de carga.

Localização da cidade de Pirot, na Sérvia, onde Big Brother foi condenado

O processo de extradição

O processo de extradição de Goran (de número 1208) ainda não entrou na pauta do STF porque a Procuradoria Geral da República (Ministério Público Federal) solicitou que fosse anexada aos autos a transcrição para o português da legislação da Sérvia que trata da prescrição de crimes na época em que houve a condenação e nos dias atuais.

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O STF enviou um ofício ao Ministério da Justiça para que o órgão, via diplomática, solicitasse ao governo sérvio o documento pedido pela Procuradoria. O caso, no entanto, precisou passar por outros trâmites.

A pasta da Justiça encaminhou o pedido para o Itamaraty no dia 20 de junho. E o Itamaraty já expediu a solicitação para a embaixada brasileira em Belgrado (capital da Sérvia), que ficará responsável pelas tratativas com o governo do país europeu. Ainda não houve retorno.

Apesar de ter pedido a diligência, a Procuradoria já havia opinado favoravelmente pela extradição do sérvio.

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Neste ano, Goran foi condenado a um ano e quatro meses de prisão pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-SP/MS) por falsidade ideológica: ele foi acusado de apresentar documento falso em nome de Elias Ilija Radosavljevic quando foi preso em Bauru, no interior paulista, em maio de 2011.

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Drogas apreendidas pela PF durante a Operação Niva

Empresário de futebol

Segundo os autos do processo em que foi condenado em São Paulo, Goran contou que estava no Brasil desde 2004 tendo vindo para cá fugitivo de um crime pelo qual é acusado na Sérvia.

Disse ter se casado no Brasil, teria tido um filho e alterou o nome do passaporte quando entrou no País. Afirmou ter feito curso de metalúrgico, ter ido para Alemanha, Paris, e depois para São Paulo, estabelecendo-se em Bauru.

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Sobre suas atividades, contou na época que fazia negócios imobiliários formais aqui no Brasil e pagaria impostos, além de ser empresário de jogadores de futebol. Admitiu que trocou o nome do passaporte e da identidade com a finalidade de se esconder da Justiça estrangeira.

A casa em que vivia em Bauru era uma espécie de fortaleza: tinha muros altos, cerca elétrica e várias câmeras.

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Dinheiro recolhido por agentes federais durante a Operação Niva

Mais de um milhão de euros no Brasil

O sérvio é um dos réus de uma ação penal que tramita na 5ª Vara Criminal Federal de São Paulo, processo resultante da operação Niva da PF.

De acordo com as investigações, os grupos eram formados principalmente por suspeitos oriundos de repúblicas da antiga Iugoslávia, muito deles procurados mundialmente e com seus nomes na “difusão vermelha” (lista de procurados) da Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal).

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Ainda segundo as investigações, Goran Nesic comandaria a quadrilha baseada em São Paulo. Os outros bandos atuavam no Espírito Santo e no Amazonas. Os três grupos, relevam os autos do processo, teriam sido responsáveis pela entrada de mais de um milhão de euros no Brasil entre 2009 e 2011 (pouco mais de R$ 2 milhões)

Com os suspeitos, foram arrecadados 620 kg de cocaína. Após adquirirem o entorpecente com fornecedores de países vizinhos, como a Bolívia e a Colômbia, os traficantes remetiam as drogas para o exterior em cruzeiros ou navios de carga. Quando não conseguiam colocar as drogas nos navios ainda ancorados, os suspeitos usavam flexboats, ou seja, pequenas embarcações que levavam o entorpecente até os cargueiros ou cruzeiros em alto mar.

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Um dos carregamentos supostamente trazidos para os investigados da operação Niva foi apreendido em fevereiro de 2010. Na ocasião, agentes federais recolheram 550 kg de cocaína na cidade de Arujá, na região metropolitana de São Paulo. A droga, comprada na Bolívia, veio do Mato Grosso do Sul, e foi achada escondida em latas de frutas em calda.

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A PF informou ter apreendido 620 kg de cocaína durante a Operação Niva

Uma das remessas de drogas para a Europa foi interrompida pela PF em setembro de 2010. Na ocasião, cinco suspeitos ligados ao grupo de Big Brother foram presos quando se prepararam para enviar 29 kg de cocaína, que estavam escondidos em embalagens de produtos alimentícios, para a Espanha. A droga, comprada na Colômbia, seria transportada em um cruzeiro, que sairia da cidade de Paranaguá (PR).

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Um integrante do grupo de Goran Nesic fora preso em Joinville em agosto de 2009 com 24 kg de cocaína. A droga, segundo as investigações, seria levada para a cidade litorânea de Itajaí (SC), onde funciona um dos principais portos do Brasil.

Outra suposta rota usada pelos investigados na operação Niva seria Maceió. Em dezembro de 2009, a PF recebeu informações de que 12 kg de cocaína vindos de Franca (SP) chegariam à capital alagoana escondida em uma carga de calçados. A droga também seria remetida para o exterior. Suspeitos de participar das negociações foram presos mas o entorpecente não foi apreendido. Na ocasião, foram recolhidos com eles 146,5 mil euros (R$ 363,5 mil).

Repercussão

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Página do governo sérvio (em inglês) anunciando a prisão de Goran Nesic no Brasil

O envolvimento de pessoas oriundas de repúblicas que formavam a antiga Iugoslávia com o tráfico de drogas no Brasil e a prisão de Nesic ganharam destaque no site do governo sérvio e também em jornais do país.

Uma das principais publicações, o Blic, revelou que a condenação de Goran em 2002 se deveu a um suposto contrabando de heroína da Bulgária para ser comercializada em outros países, como a própria Sérvia, Holanda e Suíça.



Mulas de dinheiro

Para trazer os euros para o Brasil, os suspeitos usavam "mulas". Em junho de 2009, de uma só vez, a PF conseguiu apreender cerca de 500 mil euros (R$ 1.246.400) com dois suspeitos no Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos (SP).

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Em dezembro do mesmo ano, um outro suspeito de integrar o bando de Big Brother foi flagrado no mesmo aeroporto com cerca de 100 mil euros (R$ 249,3 mil). Outros 206 mil da mesma moeda (R$ 513,5 mil)  foram apreendidas com outro envolvido com o grupo no Rio de Janeiro, em abril de 2010.

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Drogas escondidas em bloco de mármore iriam ser remetidas para o exterior


Lavagem de dinheiro

As quadrilhas investigadas na Operação Niva abriram, ao menos, quatro empresas para lavar o dinheiro do tráfico de drogas. Uma delas, aberta em Vitória, chegou a providenciar a perfuração de um bloco de mármore que seria enviado para a Macedônia. Dentro dele, iriam escondidos 158,7 kg de cocaína divididos em 179 tabletes. A porta de saída seria o porto da capital capixaba.

As outras três firmas ficavam em São Paulo. Uma delas era do ramo de turismo, da qual Big Brother seria um dos sócios. O local era ponto de encontro para reuniões do grupo.

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A outra realizava atividades de consultoria em gestão empresarial, intermediação e agenciamento de serviços. Era sediada no bairro do Brás e internava dinheiro no país.

A terceira era especializada em compra e venda de imóveis e tinha sede no bairro do Jardim Paulista. Esta empresa era proprietária de um apartamento em um edifício na Barra Funda, em São Paulo, que foi avaliado em R$ 265 mil.

Goran e sua mulher, uma brasileira que também é ré no processo, também tinham um apartamento no bairro de Campos Elíseos, na capital paulista, de 380 metros quadrados. Escutas telefônicas revelaram que a esposa de Big Brother pretendia alugar o imóvel por R$ 20 mil.

Este apartamento consta na lista dos bens sequestrados pela Justiça, que chegou a autorizar a PF a ocupar o imóvel para fins de atividades de inteligência.

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