“Senhor das armas” visitou líderes das Farc em acampamento na selva

Foragido da Justiça brasileira, Coracy Vilhena encontrou Mono Jojoy e Negro Acácio para estreitar relações com narcoguerrilha, em 2005

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

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Coracy Vilhena, o "senhor das armas" brasileiro, encontrou-se com líderes das Farc em acampamento
O “senhor das armas” brasileiro, o paraense Coracy Vilhena dos Santos, 54 anos, viajou em 2005 para um acampamento da 16ª Frente das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), na selva colombiana, no departamento de Guainia.

Lá, Coracy encontrou-se com parte da elite à época do grupo guerrilheiro: o líder militar das Farc Victor Suárez Rojas, o Mono Jojoy, o responsável pelo tráfico, Tomás Medina Caracas, o Negro Acácio, e o comandante da 16ª Frente, Jorge Briceno Suárez. O comandante da 1ª Frente, Gerardo Aguilar Ramirez, o Cesar , possivelmente participou do encontro, o iG apurou.

Leia mais: 'Senhor das armas’ brasileiro negocia com Farc e integrou lista suja dos EUA

Além deles, o brasileiro também esteve pessoalmente com Luiz Edgar Devia, o porta-voz das Farc conhecido como Raul Reyes. Outro contato, da frente comandada por Cesar era a guerrilheira Nancy Conde Rubio, codinome Adriana, que recebeu a missão de cuidar das ações relativas ao tráfico de drogas.

Em outras ocasiões, as transações ilegais foram e são feitas usando intermediários das Farc.
Desde então, Negro Acácio foi morto a tiros pelo exército colombiano , em 2007; Reyes morreu na operação militar colombiana na fronteira com o Equador, em 2008; e Mono Jojoy perdeu a vida em ataque militar em 2010 . Cesar foi preso na Operação Xeque-Mate, em que foram resgatados Ingrid Bettancourt e mais 14 presos. (link)

Viagem teve objetivo de estreitar laços com as Farc

AFP
Mono Jojoy, chefe militar das Farc morto em 2010, encontrou-se com Coracy
O objetivo da viagem de 2005, de acordo com investigações a que o iG teve acesso, foi estreitar as ligações do maior traficante de armas do País com o grupo armado da Colômbia.

Como o iG revelou nesta terça-feira (12), Coracy é o principal nome do País nesse comércio ilegal. Ele atua há 20 anos trocando armas por drogas com as Farc e distribuindo cocaína para Guiana e Suriname, tendo tido como parceiros Fernandinho Beira-Mar e Leonardo Dias Mendonça. Pouco conhecido no Brasil, ele integrou a lista suja da presidência dos EUA (Kingpin Act) e teve alerta de difusão vermelho da Interpol. Condenado a 7 anos e seis meses de prisão e multa por tráfico internacional, Coracy está solto por habeas corpus do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Coracy, ou Vítor – como é chamado em alusão a Viktor Bout, o “senhor das armas” que inspirou personagem de Nicolas Cage em filme de mesmo nome –, atua nas fronteiras internacionais, principalmente com a Colômbia, Guiana e Suriname. Usando o Brasil como rota do tráfico internacional e usando barcos e aviões pequenos como meios de transporte, ele distribui os entorpecentes no Brasil e os envia para a Guiana, Suriname e Venezuela, de onde seguem para Europa e Estados Unidos.
É considerado um atacadista, que atua com grandes quantidades de droga.

Foragido e procurado pela Interpol, 2005 foi ano-chave de contatos internacionais

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Alerta de difusão vermelha da Interpol pela prisão de Coaracy, que vigorava em 2005, quando foi à Colômbia
No fim do mesmo ano, 2005, o brasileiro – que estava foragido e integrava a lista suja dos EUA e tinha alerta vermelho da Interpol – mudou-se para a Guiana com o fim de aproveitar a farta oferta de armas e munição no mercado negro daquele país e do escasso combate à atividade.

Apesar de baseado em Manaus (AM), Coracy circula com desenvoltura pela região amazônica. Tem conexões de negócios e viaja com frequência para a fronteira da região com a Colômbia, Georgetown, na Guiana, e Paramaribo, Suriname.

Ele coordena o transporte de armas e drogas na região, usando suas conexões e habilidade em forjar operações ilegais para fornecer armas a membros e intermediários das Farc e drogas para compradores no Brasil, Guiana e Suriname.

O iG apurou que agentes operacionais das Farc ligados a Coracy entraram na Venezuela pelo Rio Negro e pelo Rio Orinoco para receber remessas de armas da Guiana e do Suriname. A quadrilha do brasileiro também usa aeroportos clandestinos na Venezuela, em Maroa e Puerto Ayacucho, com capacidade para receber aviões grandes.

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Corpo de Mono Jojoy chega a Bogotá, após ser morto em 2010
A atuação do brasileiro se estende ainda para a Venezuela, aonde ele também foi também em 2005, após a fuga da prisão do parceiro colombiano José Maria Corredor Ibague, o Boyaco, traficante de armas e drogas, extraditado em 2008 para os EUA. Nessa ocasião, Coracy se deslocou à fronteira da Colômbia com a Venezuela para estimular conexão direta com membros das Farc no corredor Puerto Ayacucho-Maroa-San Felipe, todos na Venezuela.

A reportagem conseguiu contato com o advogado Antônio José Dantas Ribeiro, defensor de Coracy no STJ, mas ele informou que não representa mais e não poderia falar por ele. O iG não localizou Coracy nem seus novos advogados.

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