'Senhor das armas’ brasileiro negocia com Farc e integrou lista suja dos EUA

Solto por habeas corpus do STJ e pouco conhecido no País, traficante condenado Coracy Vilhena foi parceiro de Beira-Mar e teve alerta vermelho da Interpol

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

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Coracy Vilhena dos Santos, em foto ao ser preso, é o "senhor das armas" brasileiro
Condenado pela Justiça por tráfico de cocaína, mas solto por habeas corpus do Superior Tribunal de Justiça (STJ), o brasileiro Coracy Vilhena dos Santos atua no comércio internacional de armas e drogas há mais de 20 anos e negocia ativamente com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) , segundo o iG apurou.

Por sua atuação destacada nesse comércio clandestino, o paraense de 54 anos é também conhecido como Vítor – alusão ao russo Viktor Bout, o “senhor das armas” , que inspirou o personagem de Nicolas Cage no filme de mesmo título.

No contexto global, a importância de Coracy é tanta que ele foi incluído em 2006 e 2007 na “lista suja” (Kingpin Act) da presidência dos Estados Unidos, que reúne os chefões e os nomes mais perigosos e influentes do tráfico internacional. Os integrantes da "lista suja" têm os bens bloqueados nos EUA.

Ele também esteve na lista de procurados com "alerta de difusão vermelho", nível máximo, da Interpol (Polícia Internacional), de 2004 até 2007, quando foi preso novamente após sete anos foragido.

No Brasil, porém, ele consegue manter um perfil discreto, quase invisível para as forças policiais e a imprensa.

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Ligações com as Farc, Beira-Mar e Leonardo Mendonça

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Alerta de difusão vermelha da Interpol pela prisão de Coaracy, que vigorou de 2004 a 2009
Coracy, ou Vítor, atua nas fronteiras internacionais, principalmente com a Colômbia, Guiana e Suriname.

Investigações da Polícia Federal apontaram que sua operação principal é a troca de armas por cocaína das Farc. Ele entrega as armas e recebe drogas em troca. Usando o Brasil como rota do tráfico internacional e usando barcos e aviões pequenos como meios de transporte, ele distribui os entorpecentes no Brasil e os envia para a Guiana, Suriname e Venezuela, de onde seguem para Europa e Estados Unidos.

É considerado um atacadista, que atua com grandes quantidades de droga.

No plano internacional, segundo investigações a que o iG teve acesso, ele tem conexões diretas com lideranças das Farc e já teria estado pessoalmente com Luiz Edgar Devia, o porta-voz das Farc conhecido como Raul Reyes – morto na operação militar colombiana na fronteira com o Equador, em 2008 – e com Victor Julio Suárez Rojas, o Mono Jojoy, chefe militar das Farc morto em um ataque militar, em 2010 .

Agência Estado
Beira-Mar foi parceiro de Coracy até ser preso, na Colômbia
No Brasil, fez parcerias com Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar – traficante do Rio preso na Colômbia, em abril de 2001 –, e Leonardo Dias Mendonça, detido em 2002 na “Operação Diamante”, da Polícia Federal, e apontado então como o maior traficante do País pela PF, que identificou remessas suas de 2 toneladas para o Suriname e a Guiana.

Beira-Mar e Leonardo – baleado em 2009 no presídio em Goiás e depois transferido para penitenciária federal de segurança máxima – são dois dos maiores nomes do tráfico no Brasil e atuaram juntos no tráfico de cocaína da Colômbia para o Suriname e a Guiana.

Na investigação que levou à prisão de Leonardo, a PF descobriu que ele levou ao menos 2 toneladas de cocaína da Colômbia para o Suriname e para a Guiana. 

Leonardo e Beira-Mar têm muitas semelhanças com Coracy.

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Coracy mantinha contatos com Beira-Mar e Leonardo Mendonça
O primeiro também mantinha contatos com as Farc, era investigado pelo FBI e constava na lista de criminosos mais procurados da Interpol. Beira-Mar foi preso na Colômbia, após tiroteio com as forças de segurança daquele país. Ele estivera com Negro Acácio, então responsável das Farc pelo tráfico de drogas.

Coracy também tinha contatos com Negro Acácio e com Gerardo Aguilar Ramirez, o Cesar - preso na operação que libertou Ingrid Bettancourt e mais 14 sequestrados das Farc, em 2008 (ver vídeos).

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Colômbia, Suriname e Guiana são a área de operação de Coracy, que chegou a morar em Georgetown (Guiana), no fim de 2005. Ele teria se deslocado à Guiana para se aproveitar da farta oferta de armas e munição no mercado negro daquele país e do escasso combate à atividade.

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Discrição

Diferentemente dos parceiros brasileiros Beira-Mar e Leonardo, cujos nomes aparecem muito na mídia, Coracy consegue manter um perfil discreto, quase invisível para as forças policiais e à imprensa.

É conhecido por sua habilidade de ficar abaixo dos radares das polícias locais e internacionais enquanto estabelece conexões de negócios e operações de fornecimento de armas a intermediários e representantes das Farc, e narcotraficantes para compradores no Brasil, Guiana e Suriname.

AFP
Coracy teve contato com Mono Jojoy, chefe militar das Farc
Embora seja apontado como o maior traficante de armas do Brasil – motivo pelo qual entrou para a lista negra dos EUA, além da atuação junto às Farc – ele teve apenas duas condenações, a última em processo criminal de 1998, em que foi sentenciado com seis companheiros a 7 anos e 6 meses de reclusão e 150 dias-multa, por ser reincidente em tráfico de entorpecentes.

Preso em fevereiro de 1999 após a apreensão de quantidade de drogas relativamente pequena, a sentença foi parcialmente anulada e seu regime passou a ser semi-aberto. Um habeas corpus preventivo o libertou em outubro de 99. Quando saiu a sentença, em maio de 2000, estava foragido, e só foi novamente preso em novembro de 2007, portanto mais de sete anos depois.

Entretanto, em dezembro de 2009, o STJ lhe concedeu o direito de apelar em liberdade.

Veja o guerrilheiro Cesar, contato de Coracy, em cenas da Operación Xeque-Mate, que libertou Ingrid Bettancourt. Ele foi preso na operação de julho de 2008

Base em Manaus e conexões com Guiana, Suriname e Venezuela

AP
Jornalista francês Romeo Langlois foi sequestrado e libertado pelas Farc
Apesar de baseado em Manaus (AM), Coracy circula com desenvoltura pela região amazônica. Tem conexões de negócios e viaja com frequência para a fronteira da região com a Colômbia, Georgetown, na Guiana, e Paramaribo, Suriname.

Ele coordena o transporte de armas e drogas na região. A reportagem apurou que agentes operacionais das Farc ligados a Coracy entraram na Venezuela pelo Rio Negro e pelo Rio Orinoco para receber remessas de armas da Guiana e do Suriname.

A quadrilha do brasileiro também teria usado com frequência aeroportos clandestinos na Venezuela, em Maroa e Puerto Ayacucho, com capacidade para receber aviões grandes.

O iG não conseguiu contato com o advogado de Coracy, Antônio José Dantas Ribeiro, baseado no Pará. Seu nome e foto aparecem no cadastro de membros da OAB no Estado, mas não há telefone disponível. Os telefones do advogado e de Coracy também não estão na lista telefônica.

Veja o desfecho da operação Xeque-Mate, que prendeu César, contato de Coracy, libertou Ingrid Bettancourt e 14 reféns das Farc, em julho de 2008

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