Mesmo com crise, emigrantes brasileiros ainda apostam nos Estados Unidos

Há brasileiros que seguem morando no país e outros que voltaram, mas mantêm negócios lá; abertura de consulados refletirá principalmente em turismo

Denise Motta, iG Minas Gerais |

Há décadas, os Estados Unidos são atraentes para diversas nacionalidades, inclusive para brasileiros. No entanto, especula-se que o ritmo de imigração de brasileiros para a terra do Tio Sam tenha caído nos últimos anos, especialmente após o 11 de setembro, quando os EUA impuseram regras mais rígidas de entrada no país. Mas as estatísticas do governo brasileiro indicam que o “american dream” persiste entre os brasileiros, ainda que haja rigidez com estrangeiros e crise financeira.

EUA mudam o sistema para solicitação de vistos no Brasil

Estimativa do Itamaraty, do ano passado, indica que do total de 3,1 milhões de brasileiros no exterior, 1,3 milhão deles moram nos Estados Unidos. No ano 2000, dez anos antes, havia 799.203 conforme as mesmas estimativas. Crescimento de 74% no período.

O iG conversou com brasileiros nos Estados Unidos e com aqueles que retornaram, mas mantêm negócios no exterior. Alguns permanecem por causa da família e outros mantêm a expectativa de que a crise vai passar. O anúncio recente de dois novos consulados no Brasil, em Belo Horizonte e Porto Alegre, pode significar celeridade no turismo de negócio .

Amanda (nome fictício) saiu de Belo Horizonte, em 1992, com 11 anos, acompanhando os pais que foram trabalhar em Nova York. De lá até hoje, ela tenta legalizar sua situação, após casar-se com outro emigrante de Portugal (com visto para trabalhar) e ter um filho.

“Meus pais vieram tentar uma vida melhor e hoje eu fico pensando no que aconteceu. Estou esperando o Obama cumprir as promessas. Como vim muito nova, não consigo mais me adaptar no Brasil. Já tentei por dois anos e não deu certo. Além disso, tenho o meu filho que é americano e outros parentes morando aqui”, conta ela, que já trabalhou como babá, garçonete, engraxate, caixa de padaria e hoje possui um negócio próprio de faxina.

A socióloga e professora da Universidade do Vale do Rio Doce (Univale), Sueli Siqueira, reconhece a dificuldade de readaptação no país de origem, como uma das razões para que os brasileiros se mantenham nos Estados Unidos.

“Eles sentem-se estranhos no país estrangeiro e no de origem. É a dificuldade do retorno”, diz ela, que de Portugal trabalha em estudos sobre o perfil de emigrantes que retornam ao Brasil.

AP
Hillary Clinton durante anúncio sobre novos consulados no Brasil

Ilegal, Amanda conta que nunca pensou em falsificar documentos ou arrumar um casamento para conseguir o sonhado Green Card (visto permanente de residência para estrangeiros). “Para casar de esquema aqui custa US$ 20 mil. Eu nunca me meti com isso. Não tenho coragem. É arriscado e eu não me meto nisso de jeito nenhum”, diz ela, em conversa com o iG pela internet.

A pesquisadora Sueli Siqueira destaca que geralmente o emigrante pensa em voltar em condição econômica melhor.

Acontece atualmente a interrupção de um sonho ao meio. “Com a crise, o retorno às vezes acontece sem que a pessoa consiga atingir seus objetivos”, diz, destacando que existem basicamente dois grupos de emigrantes: os que vão para ganhar dinheiro rápido e desenvolver trabalhos na economia secundária, além dos que vão qualificados, para estudar e trabalhar, legalmente amparados.

Siqueira lembra que os brasileiros passaram a ter como rota alternativa aos Estados Unidos, Portugal. Há mais casamentos com “nativos” e, portanto, mais possibilidade de legalização.

“A procura por Portugal ocorreu depois que os Estados Unidos fez pressão no governo do México para a exigência do visto. Essa exigência provocou a redução de mais de 80% dos imigrantes naquele período (2004-2005) que foi o segundo momento de maior emigração para os EUA no início de 2000 (o primeiro foi na década de 80 – 90)”, destaca Raimundo Santana, que trabalha no Programa Emigrante Cidadão, da prefeitura de Governador Valadares.

Conforme informações do Censo 2010, Portugal está em segundo lugar como destino de emigrantes brasileiros, com um percentual de 13,4% contra 23,8% dos Estados Unidos. Em terceiro está a Espanha, com 9,4%. Os percentuais referem-se ao fluxo total de emigrantes brasileiros.

Sobre o impacto da abertura de consulados no Brasil, ele acredita que deva haver mais respeito com os mineiros, com fama de querer ir aos Estados Unidos para morar e trabalhar e não apenas para passear ou fazer negócios. Também sobre os consulados, a pesquisadora Sueli Siqueira diz: “Não muda muita coisa, apenas facilita”. A abertura dos consulados, conforme informações do próprio Estados Unidos, visa ampliar o fluxo de turismo de lazer e de negócios, mas não o de emigrantes.

Voltou mas mantém negócio

Em Minas Gerais, uma das cidades mais conhecidas por exportar “mão-de-obra” para os Estados Unidos é Governador Valadares, a 322 quilômetros de Belo Horizonte. A relação da cidade com os norte-americanos começou há décadas. Após a 2ª Guerra Mundial, norte-americanos foram a Governador Valadares em busca de mica, mineral utilizado como isolante elétrico na indústria bélica. Foi a partir daí que os valadarenses se encantaram com o “american way of life” e passaram a sonhar com os Estados Unidos.

“Fui ganhando dinheiro e fui ficando. Em 2006, começamos a sentir a crise”, diz ex-emigrante.
É o que diz André Ferreira da Costa, hoje com 45 anos. Em 1985, o pai de André foi para a “América” em busca de sustento da família, que ficou no Brasil. Um ano depois, André seguiu o caminho do pai e desembarcou em Nova York.

“Aconteceu comigo o que acontece com 90% das pessoas. Fui ganhando dinheiro e fui ficando. Entrei com visto de turista, mas depois consegui legalização porque trabalhei em fazenda e os norte-americanos não gostavam deste tipo de trabalho. Como eles precisavam desta mão-de-obra, perdoaram os estrangeiros que estavam ilegais”, lembra.

Taxa de visto para os Estados Unidos é reajustada

André trabalhou como cortador de grama, garçom e ajudante de lava-jato. Foi então que ele viu sua vida melhorar por volta de 1990, quando se casou com uma brasileira e mudou-se para a Flórida. Ele montou uma empresa de pintura residencial e viu o negócio prosperar.

“Cheguei a ter 300 funcionários e ser a terceira maior empresa do ramo em todo Estado da Flórida. Em 2006, começamos a sentir a crise. Meus filhos e minha esposa voltaram em 2007 e eu ainda fiquei com esperança de ver melhoria”, disse.

Em 2010, André voltou ao Brasil, mas ainda mantém negócios na Flórida.
“Meu irmão se casou com uma norte-americana e não quer sair de lá. Ele leva a empresa de pintura residencial, hoje com 15 funcionários. Cheguei a vender uma terra aqui no Brasil para mandar dinheiro para ajudá-lo”, diz ele, que mantém uma casa valorizada atualmente em US$ 200 mil, mas que já chegou a valer quase US$ 1 milhão. “Acredito que os EUA vão se recuperar e se eu mantiver meu negócio sairei na frente”, prevê.

Para André, o que dificulta a vida dos estrangeiros nos Estados Unidos é a falta de uma política para quem movimenta a economia do país.

“Hoje está muito difícil ser ilegal, mas existe. Quem está ilegal, não paga imposto, seguro de saúde, seguro de carro, enfim, prejudica muito a economia. Quando cheguei, no governo Ronald Reagan, havia mais incentivo aos estrangeiros. Agora, no governo Obama, os republicanos dificultam a aprovação de leis favoráveis aos emigrantes”.

Presidente de uma associação de apoio aos emigrantes, André hoje refez sua vida no Brasil. Ele tem uma empresa de construção civil e já pensa em ampliar os negócios. “Tenho necessidade em ajudar os emigrantes. O cenário hoje é de que as pessoas estão sobrevivendo. A única saudade que eu tenho é das facilidades nos Estados Unidos para trabalhar. Aqui tem muita burocracia.”

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