Verinha Montoro relembra bastidores da morte de Tancredo Neves

"Tinha alguém segurando a cabeça dele por trás do sofá", lembra sobrinha de Montoro, chefe do cerimonial nos momentos finais

Nara Alves, iG São Paulo |

Quando Verinha Montoro voltou para casa depois de um mês enfurnada no Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, ouviu a seguinte pergunta de sua filha de seis anos: "Mãe, acabou a democracia?"

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Adriana Elias
Verinha Montoro foi mestre de cerimônia nos últimos momentos de Tancredo
A dúvida da menina refletia o sentimento que tomou a nação há 25 anos, no dia 21 de abril de 1985, quando morreu o presidente Tancredo Neves após 38 dias de internação. Escolhido pelo colégio eleitoral para ser o primeiro presidente civil depois de 20 anos de ditadura militar, Tancredo foi internado com fortes dores abdominais na véspera de assumir o cargo, no dia 14 de março de 1985. O político mineiro foi internado em Brasília e, 12 dias mais tarde, transferido para a capital paulista.

Ao chegar em São Paulo, Tancredo e sua família foram recepcionados por Verinha Montoro. Sobrinha do então governador paulista Franco Montoro, Verinha cumpriu a função de chefe do cerimonial e auxiliou a família Neves durante os tumultuados dias em que jornalistas e populares se amontoavam em frente ao Incor para saber se o presidente, enfim, sobreviveria.

No segundo andar do hospital, montou-se um escritório para selecionar quem seria autorizado a subir ao quarto piso, onde estavam hospedados a primeira-dama Risoleta e os filhos. No terceiro andar instalou-se Tancredo, na Unidade de Terapia Intensiva. Eu ficava enfiada naquele lugar, que era uma espécie de ilha da fantasia. Quando eu saía, era um horror, lembra.

Do lado de fora, as especulações sobre o estado de saúde de Tancredo dominavam o noticiário e a busca por informações era acirrada. Quando ele tinha de sair para fazer exames, primeiro a gente mandava uma ambulância vazia para despistar os repórteres. Quando descobriram isso, começamos a mandar duas, três ambulâncias, conta. Do lado de dentro, Verinha recepcionava políticos, famosos, religiosos, recebia presentes de senhoras anônimas aflitas e assessorava os demais familiares, informando-lhes sobre a evolução do quadro. Tínhamos um telefone vermelho para ligações diretas com o tio Montoro e com o vice-presidente José Sarney, diz.

Reprodução
'Tinha alguém segurando a cabeça dele por trás do sofá', disse Verinha
Boatos e relíquias

A demanda por informação era maior do que o que a família de Tancredo permitia expor à mídia por temor de uma reação negativa no meio militar. O medo era de que o general João Figueiredo, indicado por Ernesto Geisel como seu sucessor, se recusasse a empossar o vice na chapa de Tancredo, José Sarney. Com a internação na véspera da posse, Figueiredo não entregou a faixa presidencial a Sarney, mas também não impediu que ele assumisse a presidência da República no dia 15 de março.

Na tentativa de tranquilizar a população e saciar jornalistas, foi divulgada uma fotografia do presidente com a equipe médica, ainda em Brasília. Logo após a divulgação da imagem, Tancredo sofreu uma intensa hemorragia interna e precisou ser transferido às pressas para São Paulo. "Aquela foto realmente foi produzida, tinha alguém segurando a cabeça dele por trás do sofá, mas ela não foi montada, não", conta.

Depois de sete cirurgias, o então secretário de imprensa e porta-voz das informações médicas, Antônio Britto, anunciou a morte de Tancredo, aos 75 anos, em uma noite de domingo, dia 21 de abril. O corpo cumpriu cortejo entre São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e São João Del Rei, sua cidade natal.

No avião que transportava o caixão estavam dom Paulo Evaristo Arns, Franco Motoro, dona Risoleta e os filhos na parte da frente da aeronave. Verinha e outros amigos iam logo atrás. Quando o avião começou a dar a volta triunfal em São Paulo, o caixão deslizou da primeira classe e quase foi parar na econômica. A tripulação amarrou o caixão de forma mais adequada e o voo seguiu para Brasília. No dia 23, o corpo de Tancredo chegou ao aeroporto da capital mineira para receber as homenagens de 2 milhões de pessoas. Foi enterrado no dia 24 de abril de 1985.

Até hoje, Verinha guarda na gaveta de casa o lacre de alumínio que o suposto paranormal mineiro Thomas Green Morton entortou e endureceu durante uma visita de energização, na tentativa de curar o presidente. Dona Risoleta não permitiu a entrada dele no hospital, mas o Aecinho (o ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves) deixou a gente levar escondido, revela. Outra relíquia muito bem conservada por Verinha é a jarra de estanho mineiro que ganhou da primeira-dama como agradecimento por toda a ajuda.

O Fernando Henrique (ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) me falou para eu escrever tudo isso antes que eu me esqueça. Mas eu ainda me lembro, diz. Hoje com 61 anos, Verinha se aposentou como funcionária pública, mas continua na ativa como corretora Private Brokers, um seleto grupo de 15 mulheres que vende imóveis de altíssimo padrão da imobiliária Coelho da Fonseca. Seu filho mais novo, Léo Coutinho, é assessor político do deputado tucano Ricardo Montoro, e sua filha mais velha, Daniela, ou Piny, tornou-se assessora de imprensa. 

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