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A indústria da antidemocracia

13/09 - 20:04 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo

A quebra do Banco Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, é uma das consequências diretas dos atentados de 11 de setembro de 2001, em Washington, e, em Nova York, que alteraram, para pior, o perfil democrático do mundo. O Lehman era um dos maiores bancos de crédito dos Estados Unidos e o concedeu, para a aquisição da casa própria – a milhares de pessoas de quase nenhuma capacidade de pagamento de dívidas contraídas.

 

George Bush – que havia fraudado sua primeira eleição em 2000, com a cumplicidade dos Democratas – afrouxou as regras públicas do sistema financeiro de seu país, para poder atender aos interesses da indústria bélica e da indústria do petróleo. Permitir a facilitação do crédito aos “consumidores” sem renda fazia parte de seu projeto político, de imposição de seu país como única potência.

O extermínio dos talebans, que apoiavam Osama Bin Laden, e do próprio, “idealizador” dos atentados em setembro de 2001, foi a desculpa para a invasão do Afeganistão, naquele mesmo ano, e depois do Iraque, em 2003, em guerras de ocupação – a primeira como guerra de “autodefesa” e a segunda como ato indisfarçado de arbítrio imperial.

A primeira consequência para a democracia – no mundo – foi a institucionalização da tortura, como meio, digamos, “legalizado”, para combater o terror, qualquer terror, interrompendo a luta pelos direitos humanos. Direitos fundamentais (ir e vir, intimidade, privacidade etc) foram suprimidos em nome da segurança dos Estados.

O Poder Judiciário norte-americano teve suas competências reduzidas. Um suspeito preso não podia mais recorrer a ele. As agências de inteligência saíram das sombras e adquiriram protagonismo, passaram de eminências pardas a eminências claras. Esse passou a ser o modelo de democracia exportado, até para os seus opositores, como Hugo Chávez. Chávez declarou, há pouco, defendendo as Farcs colombianas como insurgentes, revolucionárias, que “no entanto, com terroristas (não às Farcs) não pode haver diálogo”. Cuba, China e Coréia do Norte não são exemplos de democracia. A esses países convém, igualmente, um mundo sem direitos, como o de agora.  

Desmonte da coisa pública

Nas Américas, incluindo-se os Estados Unidos, não há – por assim dizer – uma Europa Ocidental de base iluminista, democrática, que impediu a formação de mais “regimes fortes”, por exemplo, no Leste Europeu, após a queda do Muro de Berlim  (1989) e da extinção da União Soviética (1991). A América Latina não tem tradição democrática. Oscila entre caudilhos e ditaduras, com exceção recente de países como o Brasil e o Chile, nos quais, embora haja democracia, ela é ainda incipiente.

Os Estados Unidos eram, até Bush, um país de democracia formal, da democracia-imperialismo; depois de Bush tornaram-se unicamente um país pró business. Exemplo disso é reação de parte dos americanos ao tachar de “socialista” o tímido plano de Barack Obama de reforma da saúde pública, quando já não mais existe a ameaça “comunista” no mundo. Qualquer esforço por direitos sociais e democráticos é rechaçado. A própria Europa persegue hoje imigrantes e a Itália elege um primeiro-ministro como Silvio Berlusconi, político que encarna – como nenhum outro – a dissolução entre o público e o privado, ostensivamente. No Brasil, seu equivalente seria José Sarney, entre muitos outros.

A quebra do Lehman – há exato um ano – levou os Estados nacionais a socorrerem os bancos, com bilhões de dólares, que – hoje – apresentam balanços com lucro. O dinheiro do contribuinte foi usado para “salvar” o sistema. A conta da expansão capitalista, liderada pelos Estados Unidos, ficou, obviamente, com a população, que, a cada dia, perde ainda mais direitos.

A idéia de “tortura” expandiu-se para o cotidiano: as guerras em curso banalizaram intensamente a vida, quando novos valores precisavam ser discutidos. Erguidos, confirmados. Haja vista o aumento de crimes comuns brutais, brutalizantes. O capitalismo transnacional disfarçava seus reais objetivos em democracias eleitorais – hoje até elas estão risco (reeleição ilimitada como na Venezuela, golpe em Honduras etc) . Não há mais disfarces. Vote e cale a boca! 

A questão de fundo, que poderia levar à mudança de modelo – o desaquecimento global – é tratada em reuniões de G-20 e similares – grupos sem poder nacional algum, sem vontade política alguma. Há um desmonte da biosfera, para fazer os mais ricos, mais ricos ainda. Em outras palavras, a natureza, as florestas, a fauna, foram privatizadas – não pertencem mais à humanidade. A todos interessam as guerras do Afeganistão e do Iraque. Elas permitem o esmagamento de minorias étnicas na China, os genocídios na África, as autocracias na América Latina (Hugo Chávez, Álvaro Uribe), as máfias no poder (Rússia), a ação da polícia brasileira etc etc. 

Gosto da expressão “democracia feudal”, cunhada pela economista italiana Loretta Napoleoni, para descrever o que se passa hoje, em termos de direitos, nos Estados Unidos e no mundo. Ela fala na indústria do medo: do medo do terror ao de perder o emprego, do medo de ser assaltado ao de ser torturado. Ela aponta causas profundas para esse fenômeno. Prefiro, no entanto, dizer que o capitalismo financeiro inventou explicitamente, agora, indústria da antidemocracia. É preciso lutar contra ela.

Leia mais sobre: crise - Estados Unidos





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