20/12/2008 - 23:11 - Juliana Kirihata, do Último Segundo
BLUMENAU – Noite chuvosa em Blumenau, e o analista de planejamento estratégico Brunno Pessoa não consegue dormir. “Aqui, chuva é sinônimo de medo, e medo provoca insônia”, diz o voluntário em seu “Diário S.O.S Santa Catarina”, na internet. O jovem, de 27 anos, é uma das milhares de pessoas que resolveram dedicar tempo e vontade à tarefa de ajudar as vítimas das enchentes que deixaram 128 mortos no Sul do País.
No início do mês de dezembro, Pessoa decidiu tirar férias para poder viajar a Santa Catarina, onde havia sido decretado estado de calamidade pública por causa das chuvas. "A minha decisão por vir foi tomada em dois dias, comovido com a situação e pelos anúncios sobre a necessidade de voluntários", conta.
Antes de partir de São Paulo, onde mora, o jovem conversou com funcionários da Defesa Civil do Estado afetado, que o ajudaram a encontrar um hotel em Blumenau. As diárias, porém, são pagas por ele próprio. "Liguei para o hotel e expliquei a minha intenção de ir para ajudar. Consegui que eles diminuíssem o preço de R$ 70 reais para R$ 30". Além disso, ele se increveu no site www.voluntariosonline.org.br, que cadastra interessados em ajudar as vítimas. Já em Santa Catarina, o primeiro passo foi procurar o centro de doações.
“Logo ao chegar à Vila Germânica, local onde ocorre a Oktoberfest, e está sendo utilizado como centro de arrecadação e distribuição de donativos, fui me informar sobre onde se encontrava o centro de cadastro de voluntários. A hospitalidade e a garra desse povo me cativaram”, relata ele em seu "Diário S.O.S Santa Catarina" criado para registrar os dias no novo lugar e também para “tocar as pessoas para a solidariedade”.
| Arquivo pessoal |
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Brunno Pessoa na Vila Germânica |
Dez dias depois, o jovem não estava somente no setor de colchonetes. Por causa da diminuição da quantidade de voluntários, acabou virando um “faz-tudo”. “Quando cheguei aqui devia ter umas 300 pessoas, era tudo mais organizado, existiam times. Hoje não chega a 40 pessoas. O tempo vai passando e as pessoas vão esquecendo, não sei”, diz.
Apesar da queda do número de colegas voluntários, Pessoa lembra que a contratação recente de uma empresa de logística melhorou a distribuição dos donativos nos últimos dias. Mesmo assim, o trabalho é puxado para quem vai ajudar: “O cansaço é visível nos gestos e olhares de cada um, em cada gota de suor que escorre pelo rosto e umedece a camisa. Enquanto parte do grupo trabalha, outra parte observa e descansa para repor a energia”, escreveu ele no quinto dia de trabalho.
Indignação e injustiça
| Arquivo pessoal |
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Soldado trabalha no centro de distribuição |
No início da semana, a notícia de roubo dos donativos por alguns voluntários e soldados deixou Pessoa indignado. Na segunda-feira, seu diário relatava: “É bem verdade que já houve casos de voluntários se apropriando de doações, eu cheguei a testemunhar duas cenas e me senti envergonhado e covarde por não ter feito nada na hora. Porém, são fatos isolados e que jamais deveriam ter destaque maior na imprensa. A dedicação, a seriedade e o carinho que a maior parte dos voluntários tem naquele pavilhão são muito maiores do que raras exceções que acontecem ali naquele espaço”.
Ele conta que, no dia da divulgação do caso, chegou a ficar com insônia. “Senti-me indignado e injustiçado, como a maioria dos que estão trabalhando ali. Eu entrava nos portais de notícia e o que me deixava mais triste eram alguns comentários ofensivos de internautas
| Arquivo pessoal |
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Brunno, à direita, com colegas voluntários |
O caso, porém, não o desanimou. O jovem ficou em Santa Catarina até o dia 20, mas pretende continuar a trabalhar como voluntário em São Paulo. “Eu soube agarrar a oportunidade e há 10 dias vivo essa experiência única, que levarei para o resto da minha vida. Experiência que, talvez, poucas pessoas já se deram a oportunidade de viver”, diz ele.
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