01/12 - 13:21 - Marina Morena Costa, repórter do Último Segundo
“Há vinte anos, a maioria das crianças portadoras do vírus da Aids não sobrevivia até à adolescência”, conta Maria de Fátima Reis dos Santos, baseada em sua experiência como educadora de crianças soropositivas na casa de apoio Viva a Vida, em São Paulo. Os dados confirmam a percepção empírica de Maria de Fátima: segundo o Ministério da Saúde, em 1988, antes da introdução da Terapia Antirretroviral de Alta Potência (Tarv), uma criança com Aids tinha cerca de 25% de chance de estar viva após 60 meses (5 anos).
Hoje, a maioria das crianças não só sobrevive à adolescência, como atinge a idade adulta com saúde e condições de levar uma vida comum. Segundo o estudo “Ampliação da Sobrevivência de Crianças com Aids: Uma Resposta Brasileira Sustentável”, realizado pelo Ministério da Saúde, as crianças que foram diagnosticadas no período de 1999 a 2002, após o uso da Tarv, tem cerca de 86% de chances de sobreviver por 60 meses - um aumento de 3,5 vezes, da década de 80 em comparação com 2007.
| Marina Morena Costa |
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| Micaela Carolina Cyrino, 20 anos e cheia de planos |
Karina Ferreira da Cruz, de 21 anos, também nasceu com o vírus HIV na década de 80 e venceu as poucas chances de sobrevivência. Criada pela avó desde os 7 anos, quando ficou órfã, Karina começou a frequentar ONGs sobre Aids na adolescência. Agora, trabalha como educadora no Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto e mora com o marido. Recém-casada (seu parceiro não tem o vírus da Aids), ela sonha em curtir a vida a dois e solidificar suas conquistas. “Meu maior sonho eu já realizei, que era casar com o homem que eu amo. Agora só falta a cura”, diz entre risos. “Nós dois somos ‘sorodiscordantes’. É assim que se classifica”, explica.
Um dado positivo sobre a Aids no País é a queda nos casos de crianças soropositivas menores de 5 anos. A incidência caiu de 5,5 por 100 mil habitantes em 1986, para 3,1 por 100 mil habitantes em 2006. Ou seja, a transmissão vertical do vírus (de mãe para filho) está diminuindo.
Preconceito
Mulher, portadora de HIV e negra. Micaela pertence a grupos taxados como minoria e historicamente excluídos. Perguntada sobre o enfrentamento do acúmulo de preconceitos, ela suspira e responde: “Costumo dizer que eu venço batalhas todos os dias. Na verdade eu sofro mais preconceito por ser negra, do que por ter HIV”. E completa: “A maior dificuldade [dos soropositivos] ainda é o preconceito por falta de informação. Acho que temos que continuar o trabalho que as ONGs vêm desenvolvendo: ir até aos jovens, explicar, ensinar como se prevenir, distribuir camisinha. Da minha parte, acho importante dizer ‘olha, eu estou aqui, estou viva, estou bem’, para derrubar a imagem preconceituosa do portador de HIV”.
Tanto Micaela quanto Karina apontam o preconceito como a principal barreira a ser vencida pelos portadores de HIV. Para Karina, “as pessoas têm uma visão antiga e preconceituosa dos soropositivos”. “Taxam a gente como aidético [a Aids é a manifestação do HIV; pessoas que não desenvolveram a doença são portadoras do vírus, não aidéticas]. Relacionam ao Cazuza, à magreza, à infecção. Acho que isso acontece por causa de informações distorcidas”, afirma.
Entre julho e agosto deste ano, Karina participou da 12ª Conferência Internacional de Aids, realizada na Cidade do México. Em contato com jovens do mundo inteiro, Karina percebeu diferentes reivindicações: “Muitos países ainda lutam pela distribuição de medicamentos, questão na qual estamos avançados. Mas aqui no Brasil ainda lutamos por assistência social. Monitoramento de exames, verbas para as casas de apoio, assistência à mulher, garantia dos direitos das pessoas que ficam debilitadas (como aposentadoria antecipada) e queda de patentes dos remédios do coquetel”.
A educadora Maria de Fátima, que trabalha há oito anos com crianças portadoras do vírus HIV, acredita que o nível de conscientização ainda é baixo no Brasil. “As pessoas desconhecem a doença em vários aspectos. Antes, tinham medo da Aids, porque achavam que as pessoas morriam magras e cheias de feridas. Agora têm a idéia errada de que é ‘só tomar um remedinho’. Mas não sabem que são doses altíssimas de medicamentos – entre 12 e 16 pílulas diariamente –, com efeitos colaterais graves”, afirma.
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