iG - Internet Group

iBest

brTurbo

 

publicidade

ULTIMO SEGUNDO

 

iG BUSCA

enhanced by


Home > Notícia
  • Tamanho do texto
  • A
  • A

Alberto, morto nas Casas Bahia, se destacou pelo combate à violência, diz educadora

21/11 - 19:59 - Lívia Machado

SÃO PAULO - Dos seus 23 anos de vida, Alberto Milfont Júnior passou 10 na Casa do Zezinho. Sua história foi interrompida por uma bala disparada por um segurança das Casas Bahia no último dia 10. Os detalhes do caso ainda são desconhecidos, exceto por um, o que motivou a discussão. Em uma das regiões mais pobres da capital paulista, o Campo Limpo, em uma rede varejista que se destacou por dar crédito para as classes C e D muito tempo antes de elas se tornarem o motor do crescimento do País, o fim trágico de Alberto começou a ser traçado porque ele estava mal vestido.

 

Acordo Ortográfico

No bate-boca, segurando a nota fiscal, Alberto tentava explicar que não era bandido, estava apenas comprando um colchão. O segurança apontou o calibre 38 e Alberto duvidou que o profissional atirasse. Levou um tiro no rosto e morreu algumas horas depois no Hospital do Campo Limpo. Um fim que Dagmar Garrox, a tia Dag, tenta todo dia evitar que se consume em algum ponto de uma das regiões mais pobres da cidade.

A “Casa do Zezinho”, ONG da qual é presidente e fundadora, tem 340 jovens de 15 a 21 anos e 900 com idade entre 9 e 14. Todos são moradores da periferia, da região do Capão Redondo. O bairro é definido por Dag como uma “panela de pressão”. Eles também já sofreram algum tipo de preconceito, seja pela cor da pele, pela aparência, ou pela roupa.

“Não tem um ‘zezinho’ que não sofra preconceito por ser da periferia”, assevera ela. “Zezinho” é como ela chama, carinhosamente, cada um dos jovens atendidos pela organização. De certa forma, o nome evoca alguma poesia, dos “Severinos” do poema “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto: “Iguais em tudo na vida, / morremos de morte igual, / mesma morte severina: / que é a morte de que se morre / de velhice antes dos trinta, / de emboscada antes dos vinte / de fome um pouco por dia / (de fraqueza e de doença / é que a morte Severina / ataca em qualquer idade, / e até gente não nascida)”.

Tia Dag, todo dia, tenta evitar que o poema se torne a biografia de um dos meninos. Alberto é definido por ela como um “zezinho de carisma, alegre e um grande mediador de conflitos”. Segundo ela, o rapaz se destacava em todas as atividades nas quais se envolvia. Fez teatro, freqüentou diversas aulas e oficinas da entidade. Conviveu com outros “zezinhos” por oito anos. Passou de aprendiz a professor. Ajudava a diminuir a violência que os meninos traziam das ruas.

Divulgação

Alberto Milfont

Foto de Alberto publicada no site de relacionamento Orkut

Educado pela entidade, nunca perdeu o vinculo. Trabalhou como voluntário, cargo que lhe daria direito a um salário de R$1.000,00. Porém, segundo Tia Dag, Alberto nunca quis receber. “Ele me perguntava: Quanto você gastou para me educar? Deixa eu devolver um pouco”.

Quando pequeno, dizia que seria famoso. O estrelato foi planejado primeiro por meio do futebol, tempos depois como produtor de filmes e, por fim, educador. A instrução dada pela Casa é para que os jovens sempre corram atrás dos próprios direitos, e não permitam abusos. Diante da morte do rapaz, Tia Dag ainda questiona: “Que jeito tem um bem vestido? Que jeito tem um mal vestido?”.

Na Casa, Alberto se destacava representando personagens em peças de teatro e liderava traquinagens entre os “zezinhos”. Fez diversos cursos: informática, vídeo, estúdio de som e assistência de eventos.

O jovem de 23 anos, pai de Gustavo, de cinco meses, também trabalhou em uma grande empresa de engenharia e depois foi auxiliar de vídeo de uma produtora. Atualmente, ajudava o tio, Francisco Glaucione da Silva, que é advogado e dono de uma metalúrgica. À noite, trabalhava entregando pizza na região do Campo Limpo.

Foi criado pela mãe, Francisca Aldeísa da Silva, 52, junto com as irmãs mais velhas, Daniela Silva Milfont, 25 e Tatiane Silva Milfont, 31. O pai mora no Ceará e não tinha contato com a família há mais de cinco anos. Quando soube do assassinato do filho, teve uma crise de hipertensão e optou por não voltar a São Paulo para participar do enterro. “Meu pai disse que preferia não ver o filho morto”, diz a irmã mais velha do rapaz.

Diante da dor

Tia Dag relata outros casos de preconceitos. Ela conta a história de um menino da Casa que foi demitido por ser considerado “feio demais”. O garoto trabalhava em uma lanchonete e foi dispensado sem justificativa. Preocupada com o problema, ela entrou em contato com o dono do estabelecimento para entender o ocorrido.

A surpresa veio na resposta: “Por ter a mandíbula saltada, ele aparentava uma feição de mau–humor. Ele era feio e isso não era bom para a empresa. Foi isso que eu ouvi”.

A morte de Alberto provocou a revolta dos membros da “Casa do Zezinho”, aponta Dagmar. “Foi difícil convencê-los de que a regra não é olho por olho, dente por dente.” A vontade de depredar a loja das Casas Bahia, num ato de protesto, só foi contida quando a fundadora lembrou os rapazes de sua própria história.

“Há dez anos eu tinha 120 jovens na Casa. Um rapaz tentou assaltar a residência da minha família. Meu pai reagiu e foi assassinado com três tiros. Eu devia ter parado naquela época? Tive a audácia de ter esperança”, diz, repetindo o discurso feito para os jovens minutos antes de saírem para uma manifestação contra a impunidade, na terça-feira (18).

Ela afirma que deu um conselho simples aos jovens. “Falei para usarem a internet a favor da justiça. Escrevam em blogs, orkut, que procurem por vereadores, políticos, que falem com a imprensa”.

A família, os 1.200 “zezinhos” e a comunidade de Capão Redondo, que conhecia Alberto, fizeram um protesto em frente às Casas Bahia do bairro. Sete dias depois da morte do rapaz, as portas da loja estavam fechadas. As Casas Bahia disseram que o motivo foi “luto e solidariedade”. Na terça-feira (11), um dia após a tragédia, com o piso limpo e desinfetado, a loja abriu normalmente.

Os jovens e a fundadora agora querem modificar a lei. Dizem não entender como um segurança pode usar a arma para revidar uma provocação. Eles questionam qual o treinamento que os funcionários das empresas de segurança, sejam elas terceirizadas ou não, recebem. Querem saber quem faz a fiscalização dessa profissão, quem seleciona o perfil de segurança para uma área de conflito como é a região do Capão Redondo. “O trabalho de oito anos foi explodido em segundos”, diz Tia Dag. 

 





US Multimídia


Publicidade


Enquete