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Titular da delegacia atacada por bomba presta depoimento à CPI das milícias

03/07 - 18:55, atualizada às 18:55 03/07 - Redação

RIO DE JANEIRO - A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembléia Legislativa do Rio (Alerj) destinada a investigar a ação das milícias no estado considerou o depoimento do titular da 35ª DP (Campo Grande), Marcus Neves, fundamental para compreender o funcionamento desse grupo ilegal composto por policiais civis e militares.

“O nosso foco principal é entender o funcionamento das milícias, o seu grau de enraizamento no poder público e o seu poder bélico, econômico e político de domínio de território. Isso foi explorado de forma satisfatória no depoimento do delegado. Agora, queremos obter, também, informações sigilosas sobre os tentáculos das milícias na administração pública”, revelou o presidente da CPI, deputado Marcelo Freixo (PSol).

Após o depoimento de Neves, a comissão realizou uma reunião fechada onde ouviu os inspetores Lício Modesto Ferreira e Marco Antônio Barbosa, para tratar especificamente do caso do atentado a bomba contra a 35ª DP e da prisão de Ocian Gomes Ranquine Salustiano e de seu pai, Antônio Santos Salustiano, acusados de terem fabricado o artefato.

Estrutura das milícias

O titular da 35ª DP começou seu depoimento definindo as milícias como grupos armados que exploram atividades econômicas, que vão do transporte alternativo e da distribuição de gás de cozinha à redistribuição do sinal de TV a cabo, e que impõem sua força através da execução das pessoas que se opõem a elas – o delegado mostrou, na reunião, fotos de pessoas assassinadas por esses grupos, além de uma lista com cerca de 30 nomes de supostos integrantes da milícia conhecida como “Liga da Justiça”.

“A questão das milícias tem como pano de fundo o viés político e o lucro fácil pela exploração dos serviços. Temos informações do Ministério Público, confirmadas pela apreensão de uma contabilidade do grupo, de que essa milícia tem um lucro mensal de aproximadamente R$ 2 milhões com a oferta desses atendimentos”, informou.

Neves voltou a apontar o deputado Natalino Guimarães (DEM) e seu irmão, o vereador Jerônimo Guimarães (PMDB), como responsáveis por um grupo de milicianos em Campo Grande, zona Oeste do Rio.

"É preciso que fique claro que a atuação da autoridade policial está embasada em investigações e não em questões pessoais”, frisou Neves.

O delegado disse ainda que o atentado a bomba contra a delegacia de Campo Grande foi motivado pela prisão, por porte de arma de calibre restrito das Forças Armadas, de um policial militar conhecido como Filé, que, de acordo com o titular, fazia parte da “Liga da Justiça”. Neves ressaltou que não existe tráfico de drogas zona Oeste da capital.

“Não existe traficante em Campo Grande, já que, ao assumir o controle da região, os milicianos assassinaram todos os membros do tráfico por eles identificados. Se tem uma coisa que demonstra a eficiência das milícias, essa coisa foi acabar com o tráfico de drogas onde elas agem. Quando tive o primeiro contato com o tema, equivocadamente, pensei que a milícia seria um mal menor em relação ao tráfico e que seria mais facilmente combatida pelo poder público. Rapidamente percebi que estava equivocado, já que os milicianos estão infiltrados em todos os setores da sociedade”, descreveu.

Disque-Milícia

Questionado sobre o comportamento da população em relação às ações da polícia no combate a esses grupos, Neves contou que, timidamente, a população já começou a se mobilizar e a fazer denúncias.

“A população vem aplaudindo nosso trabalho. Em alguns casos até se apresenta de forma espontânea para prestar depoimento”, disse.

O presidente da CPI aproveitou para divulgar que, desde a última segunda-feira, quando foi inaugurado, o Disque Milícia (0800 28 20 376) já recebeu 90 denúncias.

“Recebemos dez denúncias no primeiro dia de funcionamento, no segundo foram 43 e no terceiro, 37. Isso demonstra o quanto a população está empenhada em ajudar no combate às milícias. As queixas são, em sua maioria, feitas por moradores de comunidades localizadas, principalmente, na zona Oeste do Rio e na Baixada Fluminense, e que são dominadas por esses grupos armados do qual fazem parte policiais civis e militares”, observou Freixo.

O deputado do PSol afirmou que a oferta desse serviço se justifica pela necessidade que a comissão tem para colher informações de forma sigilosa sobre os crimes praticados pelas milícias no estado.

“Precisamos muito da contribuição dos cidadãos, a quem garantiremos o sigilo e o anonimato absolutos. As informações passadas através destas ligações serão cruzadas por analistas especializados, convocados pela CPI, ajudando a orientar o trabalho da comissão”, explicou o presidente da CPI.

Próximos passos

Na próxima segunda-feira, a CPI vai se reunir, no Ministério Público Estadual, com o procurador-geral de Justiça do estado, Marfan Martins Vieira. Na quinta-feira, a comissão fará uma reunião, a portas fechadas, para analisar os documentos recebidos.

“Vamos avaliar uma quantidade enorme de documentos oficiais e as denúncias recebidas através do Disque-Milícia. Também vamos definir os próximos passos da comissão. Defenderei que a próxima pessoa a ser ouvida seja o delegado da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco), Cláudio Ferraz”, finalizou Freixo.

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