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Transexuais contam as dificuldades da realização da cirurgia de mudança de sexo

06/06 - 19:04, atualizada às 21:52 06/06 - Felipe Leal, repórter Último Segundo

RIO DE JANEIRO - O anúncio ministerial de que as cirurgias de mudança de sexo serão feitas pelo SUS agradou a diversos representantes de entidades ligadas ao movimento GLBTT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais), como a transexual Carla Amaral, 35 anos, presidente do Transgrupo Marcela Prado e diretora do Grupo Dignidade, com sede em Curitiba. “Nossos sorrisos estão de orelha a orelha, porque mudar de sexo é o sonho da maioria das transexuais, tanto masculinas como femininas”, comemorou.


Nascida num corpo masculino, aos 13 anos ela descobriu que sua identidade era de mulher. “Há 11 anos, quando soube da resolução do Conselho Federal de Medicina, que desejo realizar essa cirurgia”, contou ela. Carla iniciou o tratamento psicoterapêutico na capital paranaense em 1998.

Dois anos depois, concluiu o acompanhamento psicológico, mas teve uma grande frustração, comum a muitos outros interessados na mudança de sexo: por não ser moradora das capitais onde estão cadastrados os centros de referência ligados ao ministério, ela não pôde realizar a cirurgia.

“A minha garantia era realizar o procedimento em um desses centros, o que não aconteceu. Não confio em clínicas particulares e espero que com a nova resolução do SUS, consiga fazer a mudança de sexo”, disse. Uma das lideranças do movimento, ela disse que vai trazer a discussão para grupos de trabalho que se reúnem na Conferência Nacional sobre GLBTT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais), em Brasília, até o próximo dia 8.

Para o presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais), Toni Reis, o anúncio do ministério “vai ajudar no trabalho na questão da saúde mental da comunidade transexual.” “Eles precisam e necessitam dessa readequação sexual. Trata-se de uma questão de saúde pública, de adequar o biológico com o psicológico”, considerou ele, que frisou que a maioria dessas cirurgias são feitas em clínicas particulares.

Foi o caso da secretária de Travestis e Transexuais da Associação da Parada do Orgulho GLBT Alessandra Saraiva, de 30 anos, que mudou de sexo em uma clínica particular em Jundiaí, no interior de São Paulo. “Fiquei três anos em terapia e depois que fui liberada, procurei um médico para me operar”, relatou.

“Operei a minha alma”, diz paciente

Alessandra gastou cerca de R$ 20 mil para a realização do procedimento, quantia alta para a maioria dos brasileiros. “Tive que fazer um sacrifício enorme para juntar esse dinheiro. Foram 30 anos sofrendo para mudar de vida. Este período faz você perder completamente a vontade de viver. Eu não mudei somente o meu corpo, eu operei a minha alma”, contou.

Segundo Alessandra, o acompanhamento psicológico é fundamental, pois há vários transexuais que tentam realizar a cirurgia apenas por questão estética. “Existe muito essa coisa de modismo, pois falta consciência para muita gente, não é uma brincadeira, é uma coisa que marca a pessoa por absolutamente toda a sua vida”, disse.

Madrasta de uma menina de 3 anos e vivendo com um companheiro, ela diz que não sofre mais nenhum preconceito depois de ter passado pela mudança de sexo. “Enfrentei um processo muito doloroso psicologicamente e muito simples tecnicamente. Hoje eu vivo uma vida normal, sou muito feliz e não sinto nenhuma discriminação, como ocorria antes”, comentou.

Identidade sexual e nominal

Assim como Carla Amaral, ela entrou com um processo na Justiça para a mudança de nome, procedimento que esbarra nos entraves da burocracia jurídica e pode demorar até dois anos nos casos em que a alteração da identidade é aceita. Em algumas ocasiões, o novo nome é negado.

Parte importante no processo de assumir uma nova identidade – física, psicológica, moral e nominal – a garantia de um nome condizente com a nova condição sexual deve passar por um processo em que o transexual convence a Justiça o porquê de estar mudando de assinatura.

Carla está há dois anos tentando registrar o que chama de “nome social”, ou identidade que os transexuais usam na sociedade. “Não adianta mudar de gênero sem mudar de nome, acho que isso é uma questão lógica que devia ser mais ágil. São solicitados inúmeros documentos que vão para análise e que, junto com a história de vida de cada um, definem se o nome pode ser trocado ou não”, explicou.

Reinvenção do corpo

Doutora em sociologia e pesquisadora associada do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), a antropóloga Berenice Bento, autora dos livros “A Reinvenção do Corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual”, e “O que é transexualidade”, disse que a ampliação do serviço para o SUS atende a uma antiga reivindicação dos envolvidos na questão.

“Com certeza a medida deve agilizar os atendimentos nacionais, porque muita gente sai do País para realizar as cirurgias em locais como o Equador, por exemplo. Há pacientes que esperam até cinco anos para serem atendidos. Sem dúvida é um reconhecimento, tardio, de que as pessoas transexuais precisam ser assistidas pelo Estado. A transexualidade é uma questão identitária seríssima, não é vaidade”, disse a especialista.

Em sua tese de doutorado, a pesquisadora realizou um longo trabalho de campo no Hospital Universitário de Goiânia, um dos centros referência no Brasil. “A questão da transexualidade não está ligada à identidade sexual da pessoa. A pessoa não muda de sexo, ela não tira os seios para poder ter relações sexuais. É muito mais do que isso, a questão está vinculada à identidade de gênero”, explicou.

Conforme mostrou em suas publicações, há pessoas que nascem homens e são reconhecidas como mulheres, se negando a viver com o gênero que nasceram. “O paciente reconstrói esse corpo para ser reconhecido socialmente. Gênero e sexualidade não tem nada a ver”, disse Berenice, que salientou discordar do modo como é feito o acompanhamento psicológico dos transexuais que mudam de sexo.

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