14/05 - 18:32, atualizada às 19:01 14/05 - Reuters
RIO DE JANEIRO (Reuters) - A deferência que os ambientalistas tinham com o governo pela presença de Marina Silva à frente do Ministério do Meio Ambiente desaparece com sua saída. A mensagem é clara: o governo abriu mão da agenda ambiental em nome do desenvolvimento a qualquer custo.
As tensões entre os defensores ambientais e o governo tendem a recrudescer, agravadas ainda pela entrega da gestão do Plano Amazônia Sustentável (PAS) ao ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger.
'O governo vai ficar mais exposto, pois poucos brasileiros tem o carisma da Marina. O governo já teria sido muito mais criticado se não fosse pelo patrimônio de credibilidade que a Marina tem', afirma o secretário-geral do Fundo Brasileiro para Biodiversidade (Funbio), Pedro Leitão.
Por seu histórico na questão ambiental e sua penetração no movimento social, Marina levava ambientalistas de diferentes matizes a serem menos hostis ao governo, comportamento que tende a se desfazer com a sua renúncia.
Mais importante, para os ambientalistas, Marina era o ponto de equilíbrio entre uma visão de desenvolvimento sustentável e uma de desenvolvimento puramente econômico, cuja disputa se inclinaria agora favoravelmente à segunda posição.
Segundo Leitão, os ambientalistas não necessariamente estavam de acordo com a agenda de Marina Silva e com a fidelidade dela ao governo Lula.
'Muita gente boa achava que ela já deveria ter saído há muito tempo. Pessoalmente, acho que ela foi correta em tentar levar até o fim uma bandeira de acomodação entre essas agendas (ambientalista e desenvolvimentista)', disse.
Mario Monzoni, coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV) comenta que não é de hoje que se percebe o caráter 'desenvolvimentista a qualquer preço' do governo.
'O governo fica mais autêntico agora, pois estava se escondendo atrás de uma roupagem verde que não tem. Não tem mais o escudo que a Marina imprimia, com todo o reconhecimento por seu trabalho', avalia.
'Se pudesse apostar, diria que o governo vai ser mais atacado. A saída dela vai abrir uma porteira, acho que o período de trégua acabou', acrescentou.
Para o diretor de campanhas do Greenpeace, Marcelo Furtado, o governo abdicou da agenda ambiental e perdeu o seu maior ícone, com a saída de Marina Silva.
'Ela vai embora e leva a legitimidade do ministério. Não importa quem vai entrar, porque vai carimbar a agenda do desenvolvimento a qualquer custo do governo, se tentar ressuscitar a sustentabilidade, será tirado.'
Preocupação com Unger
O vice-presidente para a América do Sul da Conservação Internacional, José Maria Cardoso da Silva, acha que o maior prejuízo da saída de Marina é o risco de se perder a estrutura governamental que a ex-ministra montou com pessoal qualificado para gerir a política ambiental no país.
'Até então, o staff era bastante limitado e posições-chave eram ocupadas por consultores. Ela conseguiu abrir concursos no ministério e no Ibama para avançar na construção de estruturas governamentais mais fortes. Isso não aparece muito, mas faz diferença grande para quem esta no dia-a-dia da ação ambiental no Brasil', destacou.
O que assusta mais os ambientalistas é a presença de Mangabeira Unger no cenário de políticas para a Amazônia.
Nomeado gestor do PAS, o ministro é considerado neófito e despreparado.
'O que a gente ouve do Unger é assustador. Ele parece desconhecer completamente toda a trajetória de discussões sobre a Amazônia. Representa um risco muito grande', disse Pedro Leitão, do Funbio.
O vice-presidente da Conservação Internacional salienta a injustiça de tirar de Marina um plano desenvolvido por ela junto aos governos estaduais e municipais, ONGs e movimentos sociais. E endossa a preocupação com a entrega da gestão do PAS a Mangabeira Unger.
'Unger é uma pessoa que não conhece a Amazônia, não tem engajamento com movimentos sociais, nem com a comunidade de ciência e tecnologia da região. Ele vai ter que aprender o que é desenvolvimento sustentável na região', afirmou.
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