Médicos alertam para os perigos do cyber bullying Por Lola Felix São Paulo, 27 (AE) - O bullying - a intimidação de uma pessoa por outra que se considera física e psicologicamente mais forte - extrapolou os limites da sala de aula e foi parar na tela do computador, no visor do celular e em e-mails. Virou cyber bullying ou bullying digital.
Sua propagação conta com as tecnologias de comunicação modernas (computadores, celulares, e-mails). Crianças e adolescentes usam estas ferramentas para ameaçar e humilhar outras crianças e outros adolescentes.
Segundo uma pesquisa recente encomendada pela Secretaria da Educação da Inglaterra, a popularização de equipamentos eletrônicos e o acesso à web agravou os casos de bullying. Na pesquisa, 70% dos adolescentes entre 12 e 15 anos confessaram já ter sido vítimas de cyber bullying. Nos Estados Unidos, a garota Megan Meier, de 13 anos, se suicidou após receber uma série de mensagens ofensivas de um garoto no seu MySpace (site de relacionamentos). Aqui no Brasil, os casos começam a chamar a atenção pelo alto teor de violência, como o ocorrido na Escola Estadual Professora Guiomar Rocha Rinaldi, no qual uma aluna foi queimada com gasolina. Antes da violência se tornar física, vítima e a agressora já brigavam pelo orkut (outro site de relacionamentos).
"O cyber bullying é uma questão ainda mais complexa do que o bullying, porque ele pode ser praticado a qualquer hora e em qualquer local", constata o pediatra Aramis Lopes Neto, coordenador do Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia).
Segundo Lopes, combater o cyber bullying é algo difícil, pois, muitas vezes, a criança intimidada não conta aos pais o que acontece. "Ela sente medo de perder o acesso ao computador, o porte do celular", explica o pediatra.
No entanto, é aos adultos que as crianças e adolescentes devem recorrer quando se sentem ameaçadas por uma mensagem no celular ou humilhadas por uma fotomontagem na internet.
"Os pais precisam ser o porto seguro para onde as crianças podem ir quando as coisas vão mal online e offline. Os pais devem ajudar a criança durante o incidente. Não reaja exageradamente ou dê pouca atenção para o caso. A dor que eles sentem é real e séria", aconselham especialistas do site Stop Cyber Bullying (www.stopcyberbullying.org).
BOXE: COMO LIDAR COM O PROBLEMA
- Nunca repasse informações pessoais, como senhas, números de cartões, seu nome completo, nomes de amigos e familiares, seu endereço, telefone, nome da escola, fotos e endereço de e-mail;
- Não acredite em tudo o que você vê ou lê. Só porque alguém lhe diz, na internet, que tem 15 anos de idade, isto não significa que a pessoa está contando a verdade;
- Use a netiquette (a etiqueta aplicada à internet). Seja educado com os outros da mesma maneira como você é offline. Se alguém ameaçá-lo ou tratá-lo de forma rude, não responda. Valentões da internet são como os da vida real. Eles querem que você responda. Mas não lhes dê satisfação;
- Não mande uma mensagem quando você estiver zangado. Espere até se acalmar e ter tempo para pensar;
- Não abra uma mensagem de alguém que você não conhece. Na dúvida, peça ajuda aos seus pais;
Boxe 2: "Ele até me ameaçaram com canivete"
Tinha dois amigos, com quem andei por três anos. Eles eram as únicas pessoas com quem eu andava na escola. Um dia a gente brigou e isto criou um clima estranho. Então eles foram me excluindo, eu fui me excluindo, e a gente brigava mais e eles me odiavam cada vez mais, me batiam na classe, no intervalo, jogavam coisas em mim, me xingavam, até me ameaçaram com um canivete. Um dia, eles decidiram se "divertir" mais e criaram uma comunidade me zoando e me xingando de todos os nomes possíveis. Eles faziam montagens com minhas fotos e até colocaram o meu endereço lá por um dia. A partir dai, tudo piorou. Atualmente, acho que eles pararam um pouco, não achei mais a comunidade. Minha escola era um ambiente violento, e tinha um policial lá. Durante as brigas, envolvi a polícia no meio e, mesmo assim, nem depois eles pararam de me agredir. Isto aconteceu de 2005 até o ano passado, mas eu ainda faço tratamento psicológico. Fui diagnosticado com depressão grave, ansiedade e síndrome do pânico.
(G., estudante, 15 anos)