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São Paulo não tem espaço físico para tantos carros, dizem especialistas

04/03 - 19:09 - Luciana Fracchetta, do Último Segundo

SÃO PAULO – Em uma semana a cidade de São Paulo registrou quatro recordes de trânsito. Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), acidentes, pequenas obras e até um apagão elétrico contribuíram para complicar ainda mais o já congestionado trânsito da capital paulista. Porém, para os especialistas, a razão é apenas uma: a cidade não tem espaço físico para tantos carros.

“Claro que os acidentes ajudam a complicar o trânsito, mas o que é preciso destacar é o que a indústria automobilística esta superaquecida e os veículos antigos ainda permanecem em circulação. São Paulo não tem espaço físico para abrigar esse crescimento. Uma obra para atrapalhar o trânsito precisa ser grande”, afirma o professor de Engenharia Civil e Urbanismo da Universidade de Campinas (Unicamp), especialista em trânsito, Carlos Alberto Guimarães.

O professor avalia ainda que, com o aumento da frota, o motorista também diminuiu a velocidade com que circula pela cidade, contribuindo para aumentar o congestionamento.

AE
Trânsito carregado na manhã desta terça
De acordo com o Departamento Estadual de Trânsito (Detran), São Paulo atingiu em fevereiro deste ano a marca de seis milhões de veículos emplacados na cidade. Nos horários de pico, segundo dados da CET, de 3,5 a 4 milhões de veículos circulam pelas vias da cidade.

“Não é preciso ser um engenheiro de tráfego para saber que as vias estão saturadas, basta ir de carro para o trabalho e ver quanto tempo se demora para percorrer até distâncias curtas”, comenta o professor do departamento de Engenharia de Transportes da USP, Orlando Strambi.

141km, 146km, 155km...

O novo recorde de congestionamento para o período da manhã foi batido nesta terça-feira, em São Paulo. A CET registrou, às 9h30, 155 Km de lentidão em toda a cidade. Às 10h30 a cidade registrou 149 km de vias com morosidade.

Na última terça-feira, a cidade teve 141 km de congestionamento. Na sexta-feira, atingiu a marca de 146 km e, na segunda-feira, o recorde foi alcançado às 9h, com 149 km de vias com lentidão.

Tem solução?

1. Transporte público

A solução contra um futuro “engarrafamento apocalíptico”, aquele que travaria de vez a cidade, segundo Strambi, não é construir mais ruas e abrir espaços para o tráfego. Para ele, ao invés de facilitar a circulação de veículos, o governo precisa estudar medidas que façam justamente o contrário, restrinja o uso de carros.

“Especialistas em transportes já enxergam que ampliar o sistema viário para acomodar a frota não adianta mais. É caro, demora e não dá resultados. A saída agora seria restringir o uso indiscriminado do automóvel. Como isso pode ser feito é que precisa ser pensado”, explica.

Para limitar o uso de carros, porém, a cidade precisaria ter um sistema eficiente de transporte público, o que está longe de ser uma realidade em São Paulo. O metrô possui apenas 61,3 kms e transportam no máximo 2,2 milhões de pessoas por dia. Os 14 mil ônibus da cidade possuem uma idade média de quatro anos de uso e lotam facilmente no final da tarde.

2. Políticas urbanas

Coordenadora da divisão técnica de trânsito do Instituto de Engenharia, a arquiteta Maria da Penha Nobre concorda que o caos no trânsito é resultado de uma seqüência de opções urbanas que a cidade fez ao longo de sua história.

“Os deslocamentos das pessoas refletem a lógica da ocupação territorial. Se hoje milhões de habitantes enfrentam horas para ir de suas casas na zona leste para o trabalho no centro, é porque não há trabalho em seus bairros”, comenta.

Segundo Maria da Penha, o trânsito é conseqüência das políticas urbanas adotadas e, quando na década de 70, os governantes optaram pelo desenvolvimento da indústria automobilística ao invés de incentivar o deslocamento ferroviário. “Para avaliar soluções para o caos nas ruas de São Paulo, precisamos hoje estudar diversos cenários, como econômico, social, de saúde pública, etc”.

*Com colaboração de Ana Maria Freitas

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