21/01 - 16:27 - Reuters
SÃO PAULO - Velozes e furiosos, mas essenciais. Esses são os motoboys, que pilotam acelerados para fazer entregas na terceira maior metrópole do mundo, e que vêm agravando o caos nas ruas, em protestos contra as más condições do trabalho que lhes rende, em média, 600 reais ao mês.
Acostumados a se organizar espontaneamente, o que às vezes termina em brigas e roubos, centenas dos cerca de 160 mil motoboys da cidade pararam o trânsito duas vezes na semana passada para protestar contra os altos impostos que pagam e contra um pacote de medidas da Prefeitura paulistana.
Eles se preparam para voltar às ruas, na terça-feira, e pedir, além de menos impostos, tolerância da polícia com seu trabalho e justiça pela morte de um colega, baleado por um promotor público no começo do mês.
'Esse é um momento histórico para a nossa profissão, que pode deixar de ser um monte de gente apenas para se tornar uma categoria de verdade', disse à Reuters o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Motociclistas da Cidade de São Paulo (Sindimoto), Aldemir Martins de Freitas.
A irritação dos motoboys é focada nos planos do governo de elevar o seguro obrigatório de 180 para 240 reais, na expulsão deles da via expressa da Marginal Pinheiros, uma das principais da capital, e na exigência de que eles usem equipamentos de segurança escassos no mercado paulistano.
Tudo em nome da segurança, em uma profissão que em 2006 matou cerca de 380 motoboys e feriu 9 mil deles, de acordo com a Associação Brasileira de Motociclistas. O sindicato da categoria afirma que em 2007, assim como nos últimos anos um motoboy perdeu a vida na capital paulista a cada dia.
Para barrar as mudanças propostas pela Prefeitura, os motoboys enfrentam, além da antipatia de muitos, a pouca representatividade do Sindimoto, que abriga apenas 12 mil dos cerca de 650 mil motociclistas da cidade.
Os motoboys têm evitado a associação sindical e contam com o misto de comoção e irritação das manifestações para terem as exigências atendidas --até agora conseguiram apenas as faixas de trânsito exclusivas nas avenidas 23 de Maio e Sumaré.
PÉ NA TÁBUA
A paralisação do trânsito na semana passada não servirá para negociar, disse o prefeito Gilberto Kassab (DEM), com quem os sindicalistas esperam se reunir nesta semana.
'Essa situação tensa só esconde o problema real, que é a falta de educação do motociclista, de regulamentação da profissão, de investimento na malha viária', disse o presidente do Sindimoto.
Para satisfazer os clientes e fazer mais viagens, os motoqueiros se aventuram na velocidade e, não raro, entre uma súbita mudança de faixa e outra, encontram portas de carros e retrovisores pelo caminho, gerando a fúria dos motoristas.
'Cansei de chutarem meu carro enquanto eles mudam de faixa.
Quando discuti com um, outros cinco apareceram para me ameaçar.
Não tem como ter simpatia por eles, porque a gente sempre acha que são bandidos. Pode não ser, mas a suspeita sempre existe', disse à Reuters o empresário Eurico Ferreira, 48.
Benjamin de Souza, 26, é motoboy e recusa o rótulo dado por Ferreira. Pai de duas meninas, trabalha na profissão há dois anos e acredita que os motoristas não lhes abrem espaço para motos nas ruas nem prestam socorro quando os atingem.
'Motorista não ajuda nada. Nós estamos expostos, e eles tem um monte de ferro ao redor. Não tem como sermos o maior problema do trânsito. O problema é qual? Cair e morrer?', diz.
'A idéia dos protestos é mostrar que nós também existimos, somos importantes. A sociedade nega apoio porque não quer dividir espaço com motoqueiro, que é pobre e não pode encostar em carrão. Protestar também não pode. Aí fica difícil.'
QUESTÃO DE IMAGEM
Dono de uma empresa de entregas, Paulo Cézar de Andrade Prado, 35, trabalha com cinco pessoas e acha justificável o preconceito contra os motoboys.
'Mais da metade dos funcionários que tive me lesou, sumiu dinheiro. Tem muita gente desqualificada, sem alternativa de emprego. Os poucos bons pagam por isso', disse.
'Não dá para melhorar a imagem quando você corre o risco de encostar seu carro em um deles e mais de 20 aparecerem para te agredir. A maioria não é registrada, as empresas não têm política para a profissão e isso atrai muita gente disposta, inclusive, a transportar carga ilegal', comentou.
Cientes da má fama, os motoqueiros criaram há três anos um festival para melhorar a imagem, com direito a eleição de miss motoboy. Nem sempre a vencedora sabe guiar uma moto. A próxima edição, a partir de 24 de janeiro, terá um tom mais político, diz Luis Augusto de Alcântara Machado, diretor do festival.
'Os maus elementos são os que se destacam entre os motoboys e o festival serve para dar um reconhecimento positivo para eles.' E alerta: 'Por trás tem muito empresário que trabalha em três turnos porque sabe que vai ter motoboy para ajudar'.
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