12/01 - 09:06, atualizada às 11:56 12/01 - Ana Freitas, repórter do Último Segundo
SÃO PAULO - Neste sábado, o acidente na estação Pinheiros da Linha 4 do Metrô de São Paulo que matou sete pessoas completa um ano. Ao longo destes doze meses, 237 pessoas foram indenizadas, três continuam morando em hotel, as investigações estão atrasadas em cerca de 5 meses e as obras de construção da linha seguem normalmente em 25 canteiros.
No final de 2009, a três estações começam a funcionar e inauguram a nova linha do metrô da capital paulista, mas a de Pinheiros não será uma delas. O acidente alterou o cronograma das obras e o projeto (com 12 estações), que era previsto para ser concluído no final deste ano, será finalizado apenas em 2012.
Segundo a Companhia do Metropolitano de São Paulo, a estação Pinheiros será inaugurada em 2010. Em seus arredores, será construído um terminal de ônibus. A circulação de pessoas pelo local promete ser intensa, uma vez que a interligação entre trem, metrô e transporte viário permitirá que o paulistano vá para praticamente qualquer região da cidade.
No momento, porém, duas das ruas que serão os acessos principais à estação, a Gilberto Sabino e a Capri, estão desertas. Desde o acidente, a esquina entre as vias está interditada e muitos dos moradores não pretendem voltar às suas residências. Os que retornaram não esquecem o fatídico dia 12 de janeiro de 2007.
| Ana Freitas/Último Segundo |
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| Itália Pereira não esquece o dia do acidente |
Indenizações
Após o desmoronamento, Itália Souza Pereira e outras 211 pessoas foram levadas para um hotel. Suas casas foram interditadas e começou o processo indenizatório do Consórcio Via Amarela (CVA), responsável pelas obras. Até o momento, com a intermediação da Defensoria Pública do Estado São Paulo, 209 pessoas fecharam acordo com o CVA e voltaram para suas antigas casas ou compraram ou alugaram outros imóveis.
Rosa Maria Naschese, de 54 anos, morou por quase um ano no hotel para onde foi levada. Apenas no dia 31 de dezembro do ano passado pôde retornar à sua casa. Ela conta que demorou quase 10 dias para limpar toda a poeira acumulada durante este período. “Foi um ‘trampo’ arrumar tudo, meu fogão virou um ninho de baratas. Mas o mais difícil de voltar é ver tudo vazio em volta, é muito estranho”, relata.
A defensora Renata Tibyriçá, que trabalhou no caso, diz que as negociações foram rápidas e as já concluídas foram realizadas em câmara de conciliação e não chegaram, portanto, a virar um processo.
“As negociações foram rápidas. Normalmente uma ação indenizatória demora cerca de 10 anos, podendo durar até mais. No caso deste acidente, fechamos alguns dos acordos em apenas uma audiência”, comenta Renata Tibyriçá.
Depois de indenizados, alguns moradores alegam que "se sentiram obrigados a fazer um acordo" com o consórcio. Antonio Manuel Teixeira, de 54 anos, é um deles. Ele morava em um prédio a cerca de 20 metros de onde foi aberta a cratera e, juntamente com sua mulher e seus dois filhos, ficou hospedado em um hotel até o último dia 24 de dezembro.
“Fui obrigado a entrar em acordo com eles. Não quis brigar na Justiça. Preferi aceitar”, reclama. Ele completa:“Você sabe que se for para a Justiça é um processo [que demora] de cinco a dez anos. E eu tenho 54 anos. Não vou ficar brigando”.
Segundo a assessoria do consórcio, os valores das indenizações foram propostos pelos próprios moradores e negociados abertamente entre as partes. Alguns moradores repensam agora, porém, o que acordaram. Itália, por exemplo, diz que negociou R$ 39 mil (R$ 6,5 mil por cada um dos seis meses que ficou no hotel com sua família), mas que, quando retornou à sua casa, alguns móveis estavam com defeito e, por eles, ela não foi ressarcida.
“Enquanto ficamos no hotel, os móveis da casa e da lanchonete foram levados para um depósito. Quando trouxeram de volta, tive que consertar várias coisas que estavam com problema, além de ter perdido toda a mercadoria da lanchonete”, reclama Itália, que negociou com o consórcio com um advogado particular, contratado pelo proprietário do imóvel que aluga.
De acordo com o Consórcio Via Amarela, as famílias das sete vítimas fatais foram indenizadas em menos de 90 dias após o acidente.
Vítimas fatais
Elenildo da Silva lembra que, na última vez em que viu seu sobrinho Wescley Adriano da Silva, no Natal de 2006, ele estava feliz com a proximidade do nascimento de seu primeiro filho, Kauã. Wescley tinha 22 anos e era cobrador de uma van que passava a próximo à estação quando ocorreu o acidente e caiu na cratera que foi aberta.
“Para a família, continua sendo doloroso. A mãe de Wescley teve que ir embora de São Paulo – as circunstâncias a obrigaram a isso porque ela não tinha mais estrutura emocional para ficar aqui. Todas as pessoas que a conheciam perguntavam do filho dela e isso era diariamente. Isso ia minando as forças dela”, conta.
Kauã Adriano Ferreira da Silva nasceu 40 dias após o acidente, em 22 de fevereiro. A criança e a mãe continuam vivendo em São Paulo, no município de Taboão da Serra, numa casa, ainda não terminada, e comprada com o dinheiro que ela recebeu da indenização do consórcio.
A mãe de Wescley, por outro lado, não fez acordo com o consórcio e decidiu entrar na Justiça para receber a indenização pela morte do filho.
“A indenização foi um fato muito complicado. Eles [do consórcio] marcaram uma reunião 15 dias após o ocorrido e trataram do assunto de uma forma muito chocante para a minha irmã”, diz Elenildo.
Além de Wescley, também morreram no acidente o motorista da van Reinaldo Aparecido Leite, os passageiros Márcio Alambert e Valéria Alves Marmit, o office boy Cícero Augustino da Silva, o motorista de um caminhão ("engolido" pela cratera) Francisco Sabino Torres e a aposentada Abigail de Azevedo.
Investigações
O Ministério Público aguarda a conclusão do laudo técnico do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) para elaborar a denúncia contra quem possa ser o responsável pelo acidente. A previsão do IPT é que o documento seja concluído um mês após o término das escavações e da perícia no local do acidente, que finalizam em março.
O Instituto de Criminalística, órgão ligado à Polícia Civil, também trabalha em um documento técnico sobre o acidente, que deve ficar pronto em agosto. “O MP precisa ter dados suficientes para que possa dizer o que ocorreu. Não basta ter só o ouvi dizer”, disse promotor criminal que coordena o inquérito, Arnaldo Hossepian.
Os trabalhos de escavação, feitos pelo consórcio e acompanhados pelo IPT, estão atrasados, o que retarda o inquérito do MP que investiga do acidente. Um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) previa o final dos procedimentos na cratera até 17 de outubro. O consócio precisa justificar cada um dos dias atrasados sob pena de uma multa diária de R$ 70 mil por descumprir o cronograma.
De acordo com o MP, no entanto, o consórcio já justificou 73 dias. "Os atrasos são por motivos de aprimoramento das investigações e reforço da segurança. Estamos falando de uma questão que envolve pessoas", comentou o Hossepian.
O promotor disse ainda que provavelmente as investigações apontarão algum tipo de irregularidade na atuação do consórcio ou do Metrô. “É difícil que não seja encontrada nenhuma imperícia, negligência ou imprudência. Estamos avaliando as cautelas que uma obra deste porte deveria ter com o entorno”, completou.
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