17/12 - 17:21, atualizada às 10:36 19/12 - Juliana Simon, do Último Segundo
SÃO PAULO – Um motorista do 15° Departamento de Polícia teria recebido um cheque de R$ 30 por "uma água", disse o médico particular de Ryan Gracie, Sabino Ferreira de Farias Neto, em depoimento dado nesta segunda-feira. A informação foi dada pelo delegado da Corregedoria de São Paulo, José Antonio de Araújo. De acordo com ele, se for confirmado o recebimento do dinheiro, o motorista pode ser demitido por suborno.
O motorista está sendo procurado pela Corregedoria e deve prestar depoimento nos próximos dias. O delegado afirmou, ainda, que médico do lutador confirmou ter oferecido também R$ 100 para um "cafezinho" ao carcereiro. O carcereiro confirmou a proposta, mas negou que tenha aceitado a quantia.
Segundo Araújo, a delegacia não pediu que o preso fosse encaminhado para um hospital, pois o médico particular disse que não era necessário. "A corregedoria e os delegados não têm como exigir a internação do preso sem pedido médico. Isso poderia ser interpretado como abuso de autoridade", disse. O único pedido feito pelo médico era para que Gracie ficasse em uma cela separada porque estava muito agressivo e poderia ser perigoso para os outros presos.
Apesar de estar em estado alterado, o lutador não apresentou resistência ao ser encaminhado para o Instituto Médico Legal (IML), onde fez exame de corpo delito, disse o delegado.
Foram ouvidos outros três presos que estavam em uma cela vizinha a do lutador. Eles afirmaram que apenas ouviram uma respiração ofegante de Gracie, mas que em nenhum momento ele teria pedido ajuda.
Processo contra médico
O advogado da família Gracie, Rodrigo Souto, afirmou, nesta tarde, que irá aguardar os laudos do Instituto Médico Legal (IML) sobre a morte de Ryan Grace para acionar a Justiça contra o psiquiatra Sabino Ferreira de Farias Neto, que atendeu o lutador na prisão, e contra o Estado. “As normas de conduta serão apuradas tanto pela Corregedoria como pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). O fato é que Ryan entrou vivo e saiu morto”, disse o advogado. De acordo com o IML, os laudos saem em 30 dias.
Souto afirmou que ficou com Gracie no 15º Distrito Policial até por volta das 2h, quando o lutador foi encaminhado ao IML para a realização de exames de corpo delito. "Ryan estava conversando normalmente e saiu da delegacia andando. Ele ainda disse que tomou aquela atitude (ele é suspeito de ter roubado um carro) porque estava sendo perseguido", contou.
O advogado esclareceu que já havía indo embora no momento em que Gracie foi medicado pelo psiquiatra Farias Neto. "Soube da morte de Ryan quando retornei à delegacia com um pedido de liberdade provisória para que ele assinasse".
Segundo ele, durante o período na delegacia, Gracie não sofreu agressão e teve todos os direitos de conversar com um advogado. “Ele comeu lanche, tomou suco e foi bem tratado", reforçou.
Souto descartou a possibilidade de traumatismo craniano ou morte em razão de agressões que ele poderia ter sofrido pelos motoboys, quando foi imobilizado, após ter tentado roubar uma moto. "Ele não foi agredido de forma veemente, a única coisa que vi em Ryan foi um corte no supercílio", disse.
O advogado da família também afirmou que representava Gracie há muito tempo e que o lutador sofreu diversos processos, mas foi absolvido de todos. "Ele não tem nenhuma condenação. Morreu como réu primário".
Acusações da família
No domingo, durante o enterro do corpo de Ryan, no Cemitério São João Batista, em Botafogo (zona sul da cidade), a irmã do lutador, Flávia Gracie, acusou o psiquiatra de "assassinar" Ryan, ao prescrever-lhe um coquetel de remédios quando ele voltou do IML.
Ela também criticou o fato de o irmão ter sido levado para uma prisão, e não para um hospital. "A polícia errou ao deixá-lo ficar na cela. Ele não era um preso, era um doente, precisava de tratamento", disse.
"Ele ainda me disse: se eu der a metade desse comprimido para você, entrará em coma, mas para o seu irmão dou um inteiro, pois ele é forte", afirmou Flávia, acrescentando que, depois de tomar os remédios, seu irmão não conseguia mais andar.
A irmã do lutador explicou que chamou o médico às pressas para obter um laudo para atestar a dependência química de Gracie, a fim de que ele fosse internado imediatamente, em vez de ficar na cela. Informou ter pago ainda R$ 5 mil pelo serviço. "No dia seguinte, ao saber da morte de Ryan, ele me pediu desculpas. É um safado, um vendido."
Flávia contou que o médico passou em sua casa, na madrugada de sábado, para cobrar a consulta e pedir que enviasse "R$ 100 para o carcereiro", para que o lutador fosse bem tratado na cadeia. "Paguei na mesma hora. Ele disse que as coisas funcionam assim mesmo nessa delegacia (91º Distrito Policial). E sugeriu que eu mandasse R$ 2.500 para cada delegado."
A reportagem tentou entrar em contato com o psiquiatra Farias Neto, mas não obteve resposta.
O pai de Ryan, Róbson Gracie, criticou o poder público. "Se o laudo aponta que meu filho usou cocaína, crack e maconha, isso é prova que ele precisava de socorro. E o poder público? Por que não levou o menino para o hospital?", questionou. "Nós vencemos o mundo inteiro. Em qualquer lugar, somos valorizados, aqui somos os escárnios".
Síndrome do pânico
Para Róbson, o filho não participou de nenhum roubo. Ele alegou que Ryan sofria da síndrome do pânico, achava que estava sendo perseguido e tentou fugir de qualquer forma. O jovem lutador é suspeito de roubar um carro e uma moto.
Abatido, Robson Gracie Filho, de 18 anos, que morava com Ryan há três anos em São Paulo, disse que o irmão era seu segundo pai. "Era um herói e o herói sempre passa por um momento de baixa. Vou lutar por ele sempre". Ryan deixou o filho Rayron, de 6 anos.
(*Com reportagem de Lecticia Maggi, do Último Segundo, e informações da Agência Estado)
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