13/12 - 08:54, atualizada às 12:15 13/12 - Rodrigo Ledo e Eduardo Bresciani/Santafé Idéias
BRASÍLIA - A novela da CPMF acabou na madrugada desta quinta-feira com uma grande vitória da oposição: a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da prorrogação do tributo foi rejeitada por 34 votos contra e 45 votos a favor. A única vitória do governo, por 60 votos favoráveis e 18 contrários, foi a aprovação da prorrogação da Desvinculação das Receitas da União (DRU), dispositivo que permite ao Executivo manejar livremente 20% das receitas vinculadas constitucionalmente, como as destinadas às áreas de saúde e educação. Na prática, significa que mais de R$ 40 bilhões poderão ser utilizados livremente em quaisquer áreas a critério do governo.
Com a derrota do governo na votação da prorrogação, a CPMF deixa de ser cobrada a partir de janeiro de 2008 e o governo terá de fazer grandes ajustes em suas contas para compensar a perda dos cerca de R$ 40 bilhões que seriam arrecadados com a contribuição. Eram necessários 49 votos favoráveis à prorrogação para aprovação da PEC.
A previsão do governo é de que a área da Saúde vai ficar sem o aumento de seus recursos previstos pela regulamentação da Emenda 29. Aprovada na Câmara dos Deputados em outubro, a regulamentação da chamada Emenda da Saúde previa para o setor um aumento de R$ 24 bilhões nos próximos quatro anos – de acordo com o que se arrecada com a CPMF ou com o PIB nominal do país, o que for maior.
O líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), indicou que alguns tributos serão aumentados. “O governo vai procurar alguns setores para compensar. Vai punir o setor formal da economia, beneficiando a economia informal".
| José Cruz/ABr |
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| Oposição comemora derrota do governo |
Já a líder do PT no Senado, Ideli Salvatti (SC), afirmou que não tem dúvida de que "foi uma derrota para o País e para o modelo de crescimento com distribuição de renda". Para ela, "venceu o quanto pior, melhor". O líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), afirmou que o fim da CPMF é um atraso "econômico, político e social".
Os únicos dois votos não computados foram os dos senadores Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR), que não compareceu porque foi ao velório do governador de Roraima, Ottomar Pinto, que morreu na última terça-feira em Brasília, e do senador Garibaldi Alves (PMDB), que também não votou por ocupar o cargo de presidente da Casa.
Fiel da balança
O fiel da balança na votação foi o PSDB e o resultado desfavorável ao governo começou a se desenhar justamente com a decisão dos tucanos, anunciada no meio a tarde de quarta-feira, de manter seu posicionamento contrário ao tributo. Votaram contra a prorrogação os 27 senadores da oposição (DEM e PSDB), José Nery (PSol-PA), Mão Santa (PMDB), Geraldo Mesquita (PMDB), Jarbas Vasconcelos (PMDB), Romeu Tuma (PTB), César Borges (PR) e Expedito Júnior (PR). Os demais senadores votaram a favor da emenda.
Foi a pá de cal nas esperanças do governo de contar com votos tucanos, já que, pela manhã, novas propostas apresentadas pelo Palácio do Planalto causaram contradições entre os senadores do PSDB – uns defendendo firmemente a rejeição da PEC e outros, como o senador Marconi Perillo (PSDB-GO), admitindo a possibilidade de serem convencidos pelo governo para votarem pela continuidade da CPMF.
Percebendo o risco de racha na bancada, os líderes tucanos convocaram uma reunião de emergência e a bancada decidiu não acatar as novas propostas do Palácio do Planalto, que nem haviam sido oficialmente enviadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas apenas comentadas nos bastidores. Com a pressão adicional dos governadores do PSDB, favoráveis à CPMF, a maioria da bancada mostrou o desejo de votar de forma favorável caso se firmassem compromissos pelo governo.
Mas o líder da legenda, Arthur Virgílio (AM), tirou a discussão do nível político e colocou em questões pessoais, ameaçando deixar o comando da bancada se o partido revisse sua posição de votar unido contra a CPMF. Os senadores Álvaro Dias (PSDB-PR) e Papaléo Paes (PSDB-AP) também jogaram pesado e disseram que deixariam a legenda caso colegas votassem a favor do tributo.
Com a postura agressiva dos anti-CPMF, a maioria da bancada foi obrigada a recuar, e o anúncio oficial veio pelo senador Álvaro Dias (PSDB-PR). “O PSDB deliberou que vai manter a decisão de votar contra a prorrogação da CPMF. A partir do ano que vem, aí sim, se o governo quiser discutir com tranqüilidade a CPMF no contexto da reforma tributária, podemos conversar", afirmou o senador Álvaro Dias (PSDB-PR).
Governo manteve votação
| Agência Brasil |
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| Jucá fala durante sessão |
Na sessão, a estratégia foi alongar ao máximo os discursos em busca de conquistar os votos que ainda faltavam. Os ministros Guido Mantega (Fazenda), José Gomes Temporão (Saúde) e José Múcio (Relações Institucionais) passaram o dia reunidos e em contato com os articuladores em busca de uma proposta milagrosa.
Última aposta
A última aposta foi uma carta-compromisso que chegou ao Plenário quando a discussão já durava mais de quatro horas. Jucá decidiu guardar a carta para ser lida no final tentando antes conversar com colegas sobre o tema e tentar virar os votos baseado no que viria.
A principal proposta do texto que chegou do Palácio do Planalto foi a da aplicação integral dos recursos da CPMF na Saúde de forma escalonada.
"Quero aqui colocar na mesa essas duas propostas: ou renovamos por um ano a CPMF, dando à saúde os recursos propostos pelos secretários de saúde, enquanto discutimos a reforma tributária, ou renovamos por quatro anos dando todos os recursos da arrecadação CPMF à saúde. Não é cortando dinheiro da saúde que vamos melhorar a situação”, apelou o líder do governo.
A oposição e os dissidentes aliados garantiam que a proposta de última hora não mudaria os votos. Como nenhum fato novo ocorreu, o destino da CPMF foi selado pelos 34 votos contrários da oposição.
(*com informações do Congresso em Foco)
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