Durou apenas poucas horas a exposição de fotografias intitulada "Heróis" na Câmara dos Deputados, que incluía entre 24 poses de personalidades uma foto do travesti Rogéria apenas de camisa social e gravata. Nesta quinta-feira a Diretoria-Geral da Casa retirou as peças no início da manhã provocando a indignação da curadora da mostra, Karla Osório, e lamentos pela polêmica desnecessária, como disse o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), um dos retratados da exposição.
A estrutura foi montada no início da noite desta quarta-feira, no espaço mais nobre do Congresso Nacional dedicado a artes, o Salão Negro. O quiprocó começou já na preparação da exposição, porque os funcionários da área de relações públicas da Câmara notaram a fotografia do travesti e artista Rogéria em pose apenas com uma camisa social e gravata frouxa, e pelos pubianos à mostra.
"Eu fotografo as pessoas, e elas se mostram. Tenho o maior respeito pela Rogéria", argumentou Luiz Garrido, que também clicou personalidades como o presidente Lula e o deputado federal Fernando Gabeira.
Mas os funcionários da Câmara não entenderam assim e comunicaram o fato à Diretoria-Geral da Casa, que mandou cancelar a exposição. Segundo Pedro Pellegrini, chefe de gabinete do diretor-geral, antes de decidir pelo cancelamento o órgão tentou retirar o retrato da Rogéria ou mudar as fotografias para outro local da Câmara, sem concordância da curadora, Karla Osório.
"O Salão Negro é visitado quase todos os dias por crianças, por escolares. Nos fins de semana, recebemos quase mil pessoas", alegou Pellegrini, admitindo a falha das relações públicas por não ter requisitado, antes da montagem, o álbum de fotos para verificação prévia. Ele disse que a Diretoria-Geral não aceitou manter a mostra mesmo com os tapumes erguidos em torno da peça polêmica: "Como é que criança não vai atrás de biombo para ver?", questionou.
Os argumentos não convenceram Karla Osório, que prometeu represálias contra o ato que classificou como arbitrariedade e retrocesso. E protestou por só ter tido conhecimento do cancelamento esta manhã, por meio de jornalistas.
"Recebi a notícia com repugnância, é um exemplo péssimo para a Nação brasileira. É uma violência gratuita que remete aos tempos da ditadura. Vou colocar a boca no trombone", avisou Karla.
O deputado federal Fernando Gabeira, um dos retratados, lamentou o desgaste ocorrido com o episódio, mas não considera ter havido censura ou violência. "O principal erro foi a falta de apresnetação dos contatos (fotos de amostra) ou slideshow sobre a exposição. Uma vez estabelecido esse critério, as negociações podem ser feitas antes da exposição. Acho que foi uma falha dos dois lados", avaliou Gabeira, acrescentando que "uma vez instalada a crise, fica muito difícil resolver".
"Não é que seja uma censura prévia, mas nenhum lugar é obrigado a mostrar fotos que não quer mostrar. A Câmara dos Deputados tem uma estrututa política e as precauções têm que ser maiores que num museu", disse.