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Vítima descobriu desfalque de suspeito, diz testemunha do caso dos franceses

30/10 - 15:17, atualizada às 18:45 30/10 - Nara Alves, repórter iG no Rio

RIO DE JANEIRO - A presidente da Organização Não-Governamental Terr’Ativa, à qual pertenciam os três franceses assassinados em Copacabana, na zona sul do Rio, em fevereiro, depôs na tarde desta terça-feira no julgamento de Társio Wilson Ramirez, suspeito do crime, no 3º Tribunal do Júri da Capital. Ela declarou que uma das vítimas, Delphine Claudie Douyère, descobriu um desfalque feito por Társio na organização. Mais cedo, o suspeito havia insinuado que o desvio foi feito pela própria direção, com envolvimento de Delphine e das outras vítimas, Jérôme Marie Marc Faure e Christian Pierre Doupes.

A presidente da ONG também afirmou que estima que Társio desviou R$ 38 mil só com relação ao INSS. Segundo ela, Delphine teria conversado com o suspeito, que admitiu a fraude e se justificou dizendo que estava sofrendo muito por ser homossexual e não ser aceito pela família.

O acusado, no entanto, nega participação no desfalque. "Eles queriam jogar esse desvio para cima de mim, então eu queria recolher provas contra eles”, alegou, referindo-se ao contador e à presidente da ONG. O acusado também afirmou ser coordenador de um projeto social da organização, chamado Brilho da Lua, em Cascadura, na zona norte. Segundo ele, o projeto havia sofrido um corte de verbas, o que o levou a descobrir o desvio de verbas, que teria sido feito a partir do dinheiro enviado por patrocinadores. “Não tem nada ali contra mim”, completou, falando sobre os documentos encontrados sobre o desfalque.

Társio também alega que um outro suspeito, Luiz Gonzaga Gonçalves, foi o responsável pelas mortes. No depoimento, ele disse que foi até a ONG no dia do crime com Luiz e o terceiro acusado, José Michel Gonçalves Cardoso, para recolher documentos que provariam sua inocência. Ele também afirmou que tirou entre R$ 2.500 e R$ 3000 do próprio bolso para o projeto e, para ser ressarcido, roubou os R$ 300 que estavam no cofre da organização.

O suspeito garante que foi surpreendido pela atitude de Luiz Gonzaga quando este revelou que estava de posse de facas, cordas e outros materiais. “Eu também estava ameaçado”, disse. De acordo com Társio, Luiz, que seria sub-coordenador do projeto e diretor do conselho fiscal, esfaqueou Jérôme e agrediu Delphine e Christian. Também teria sido ele quem despejou álcool na sala, em uma tentativa de queimar o local e destruir as provas do crime.

Outro depoimento ouvido nesta terça-feira foi o do delegado que registrou a ocorrência na época do crime. Ele declarou que Társio tinha uma bolsa de estudos na Universidade Gama Filho paga pela ONG e deveria se formar este ano, mas parou de cursar a faculdade em 2004. Para continuar recebendo o dinheiro, ele apresentava recibos falsos da universidade. A presidente da ONG completou que Delphine estava até ajudando Társio com seu trabalho de conclusão de curso.

O caso é julgado por um júri popular, formado por cinco mulheres e dois homens, selecionados através de sorteio. O juiz Sidney Rosa da Silva desmembrou o processo e adiou o julgamento de Luiz Gonzaga e José Michel para o dia 13 de dezembro, por estes serem co-réus. Eles já foram liberados nesta terça-feira. Dois funcionários do Consulado francês acompanham o julgamento, mas não quiseram fazer comentários.

Testemunharam ainda o contador da ONG, uma diarista e um porteiro. Todos confirmaram o conteúdo da denúncia. Após os depoimentos, a defensoria pública e a promotoria estão em fase de debates, que podem durar até três horas. Concluída esta etapa, o vereticto será decidido.

O caso

Segundo a denúncia, os franceses Jérôme Marie Marc Faure, Christian Pierre Doupes e sua mulher, Delphine Claudie Douyère, foram mortos com várias facadas, de forma cruel e que impossibilitou suas defesas, no dia 27 de fevereiro. O motivo teria sido a descoberta de um desvio de R$ 80 mil nas contas da instituição e o suspeito principal seria o funcionário Társio Ramirez. Segundo a acusação, ele teria planejado o crime e depois contratado Luiz e José Michel para se livrar dos patrões. No dia do crime, foi roubado um cofre contendo bens e valores diversos. Os réus tentaram também incendiar o apartamento, a fim de ocultar a prática criminosa.

Durante as investigações, descobriu-se que, quando tinha 15 anos, Társio foi ajudado pela Terr'Ativa - que desenvolvia projetos com menores carentes no Rio. Segundo foi informado hoje no julgamento, o suspeito foi aprendiz da empresa Light. Em 1998, ele foi selecionado pela companhia para assistir à Copa do Mundo de Futebol na França, onde conheceu as vítimas.

O site do Tribunal de Justiça do Rio informa que, de acordo com os autos, o filho de dois anos do casal francês não foi executado porque estava no apartamento onde a família morava, no mesmo prédio em que funcionava a ONG.

Os acusados vão responder por homicídio qualificado, com agravantes - motivo torpe, tortura ou outro meio cruel, que impossibilitou a defesa do ofendido - e pela tentativa de ocultação. Também são acusados de furto qualificado e de terem provocado incêndio em edifício de uso público.

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