18/10 - 16:36, atualizada às 20:27 18/10 - Bárbara Skaba, do Último Segundo
RIO DE JANEIRO – Com muita emoção, Helen da Silva Lacerda, mãe de Jorge Kauã, de 4 anos, despede-se do menino morto nesta quarta-feira, durante uma operação da polícia na favela da Coréia, na zona oeste do Rio. “Quero só abraçar o policial que tentou salvar meu filho”, disse. O corpo do garoto foi enterrado às 16h20 desta quinta-feira no Cemitério de Irajá, subúrbio da cidade.
Segundo a babá Jurema Viana, vizinha e amiga da família, Helen ainda está consternada com a morte do filho. “Parece que a ficha não caiu ainda”, declarou. A mãe do menino chegou a passar mal durante o enterro e acompanhou o caixão carregada por duas pessoas.
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| De mãos dadas, mãe (esq.) e avó (dir.) do menino |
Com olhar distante e desolado, Helen contou que, na manhã da operação, deixou Jorge Kauã em casa tomando café enquanto ia na casa da sogra, Rosângela Lacerda, que mora em frente, com o outro filho, Pablo, de 9 meses. Quando viu os moradores da comunidade invadindo sua casa, ela pediu para entrar e retirar o filho, levando-o para a casa da sogra. Os policiais, então, entraram na casa de Rosângela e começaram a trocar tiros com os supostos traficantes. Dentro do banheiro, nove pessoas ficaram escondidas, entre elas três crianças e uma adolescente de 16 anos.
Helen contou que Jorge Kauã foi atingido quando estava no colo da avó e falou: “Vó, estou sangrando”. O policial Marcelo dos Santos Fernandes Silva, tentou socorrer a criança e saiu da casa com ela no colo. Os acusados, no entanto, continuaram atirando e o atingiram na mão esquerda. O menino morreu na ambulância, a caminho do Hospital Albert Shweitzer, em Realengo.
“Ele era um menino ótimo. Nós fazíamos planos para ele. Queríamos que ele fizesse um curso de inglês, para fazer concurso para a Marinha”, contou Helen.
O pai do menino, Leonardo Lacerda, afirmou que outras operações policiais já haviam acontecido na favela, mas com menos violência. “A comunidade era tranqüila", disse. Ele revelou ainda que os suspeitos só atiraram porque os policiais entraram na casa de sua mãe. "Os policiais estavam errados de entrar na casa da minha mãe. Com os bandidos não tem lei, mas os policiais tinham que respeitar. Os bandidos só atiraram porque os policiais estavam lá”, contou.
De acordo com Wellington Lacerda, tio de Jorge Kauã, a casa ficou no meio do fogo cruzado e as “paredes estavam cobertas de tiros”. Assustada, Helen disse que perdeu seus documentos e está apenas com o título de eleitor, perfurado por uma bala. “Não tenho roupa, não tenho ventilador, não tenho nada. Minha casa está toda ensangüentada. Não temos para onde ir”, declarou.
Jurema Viana informou que Helen e Rosângela, que também teve a casa alvejada, devem ser mudar da comunidade. No momento, a mãe de Kauã está alojada na casa do pai.
A operação policial
Jorge Kauã foi morto durante uma operação realizada por cerca de 500 policiais civis, iniciada na manhã de quarta-feira, na favela da Coréia, em Senador Camará, na zona oeste do Rio de Janeiro. A polícia prendeu nove suspeitos de tráfico de drogas e deixou 12 pessoas mortas, entre eles um policial, e cinco pessoas ficaram feridas.
| AE/André Mourão |
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A criança morreu após ser atingida dentro de casa por uma bala perdida. Jorge foi levado para o Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, mas não resistiu. Uma outra criança de dois anos chegou a ser atingida, mas passa bem.
O policial civil Sérgio Coelho foi velado na manhã de hoje na Academia de Polícia Civil. Ele foi enterrado às 11h no Cemitério do Caju, no Centro do Rio.
O governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB), defendeu a operação, apesar da morte de Jorge Kauã. "É assim que temos trabalhado, não se entra numa comunidade sem antes fazer um trabalho prévio sobre a ação que será desenvolvida. Mas evidentemente é sempre um drama muito sério, porque são comunidades com pequenas ruas, vielas, casas coladas. E temos sempre o risco de o criminoso atirar no inocente."
Também no Hospital Albert Schweitzer foram atendidos dois policiais civis feridos na operação. Gilberto Barbosa, de 51 anos, foi baleado na mão esquerda e sofreu fratura exposta. Operado, ele passa bem. Mendel Naschpitz foi ferido por estilhaços de granada no nariz e liberado depois de medicado. Marcelo dos Santos Fernandes Silva, de 25 anos, identificado como morador da favela, foi atendido com um tiro na coxa esquerda e também já teve alta.
O delegado Rodrigo Oliveira, da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), que foi atingido por estilhaços de granada no pescoço, foi levado para o Hospital Miguel Couto, na zona sul do Rio, onde permanece internado.
De acordo com o último balanço da Polícia Civil, na ação, que teve como objetivo cumprir mandados de prisão e reprimir o tráfico de drogas, foram apreendidos seis fuzis, seis pistolas, quatro granadas, 20 kg de maconha, cerca de quatro mil papelotes de cocaína, material de contabilidade do tráfico de drogas e radiotransmissores.
(*Com redação de Renata Castro)
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