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"Foi um pedaço da gente que partiu", diz avó de menino morto no Rio

18/10 - 12:10, atualizada às 16:42 18/10 - Renata Castro, do Último Segundo

RIO DE JANEIRO - Em clima de revolta, a família de Jorge Kauã de Lacerda, de 4 anos, dá o último adeus ao menino, morto na quarta-feira. "Foi um pedaço da gente que partiu", lamentou a avó Rosângela Silva de Lacerda. Jorge Kauã foi atingido por uma bala no peito durante confronto entre policiais e traficantes na favela da Coréia, zona oeste do Rio. O garoto será enterrado na tarde desta quinta-feira no Cemitério de Irajá.

"Ele foi mais uma vítima inocente de uma fatalidade. Mais uma vítima de bala perdida. Eu e a mãe dele estamos desesperadas", contou Rosângela ao Último Segundo. A avó negou que a família tenha declarado que foram traficantes que atiraram contra o garoto, como consta nas edições de dois jornais de grande circulação do Rio. "Ela [a mãe] não pode ter afirmado nada porque nem força tem para segurar o filho de nove meses. Não temos como afirmar se o tiro partiu de traficantes", garantiu.

O corpo da criança foi liberado do Instituto Médico Legal, no Centro do Rio, no início da tarde desta quinta e seguiu para a Capela da Apresentação, no Cemitério de Irajá, onde está sendo velado numa cerimônia marcada pela emoção dos pais, avós e familiares. O enterro está marcado para as 16h.

Renata Castro, do Último Segundo
Jorge Kauã, entre amigos, aos 2 anos de idade
Jorge Kauã, entre amigos, aos 2 anos
De acordo com Rosângela, a mãe de Jorge Kauã, Helen Lacerda, está sob efeito de tranqüilizantes. “As pessoas não imaginam a dor que é perder um filho ou um neto; estamos desesperadas [...] Eu sei que meu neto está no céu. Ele era um anjinho. Está ao lado do senhor Jesus Cristo”, disse a avó.

Helen e o pai do garoto, Leonardo da Silva, vivem juntos há oito anos e Jorge Kauã era o primeiro filho do casal. “Jorge tinha uma mãe que o amava, um pai que o amava e um irmão de nove meses que já está sentindo saudades dele. Era uma criança muito brincalhona”, descreveu Rosângela. A avó contou que a brincadeira favorita de Jorge era tocar o violão que ganhou no último dia das crianças. Segundo ela, a criança tinha jeito de “homenzinho”, pois “comia de tudo e no café da manhã não queria mamadeira, mas sim café, pão com queijo e manteiga”.

A operação policial

Jorge Kauã foi morto durante uma operação realizada por cerca de 500 policiais civis, iniciada na manhã de quarta-feira, na favela da Coréia, em Senador Camará, na zona oeste do Rio de Janeiro. A polícia prendeu nove suspeitos de tráfico de drogas e deixou 12 pessoas mortas, entre eles um policial, e cinco pessoas ficaram feridas.

AE/André Mourão

A criança morreu após ser atingida dentro de casa por uma bala perdida. Jorge foi levado para o Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, mas não resistiu. Uma outra criança de dois anos chegou a ser atingida, mas passa bem.

O policial civil Sérgio Coelho foi velado na manhã de hoje na Academia de Polícia Civil. Ele foi enterrado às 11h no Cemitério do Caju, no Centro do Rio.

O governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB), defendeu a operação, apesar da morte de Jorge Kauã. "É assim que temos trabalhado, não se entra numa comunidade sem antes fazer um trabalho prévio sobre a ação que será desenvolvida. Mas evidentemente é sempre um drama muito sério, porque são comunidades com pequenas ruas, vielas, casas coladas. E temos sempre o risco de o criminoso atirar no inocente."

Também no Hospital Albert Schweitzer foram atendidos dois policiais civis feridos na operação. Gilberto Barbosa, de 51 anos, foi baleado na mão esquerda e sofreu fratura exposta. Operado, ele passa bem. Mendel Naschpitz foi ferido por estilhaços de granada no nariz e liberado depois de medicado. Marcelo dos Santos Fernandes Silva, de 25 anos, identificado como morador da favela, foi atendido com um tiro na coxa esquerda e também já teve alta.

O delegado Rodrigo Oliveira, da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), que foi atingido por estilhaços de granada no pescoço, foi levado para o Hospital Miguel Couto, na zona sul do Rio, onde permanece internado.

De acordo com o último balanço da Polícia Civil, na ação, que teve como objetivo cumprir mandados de prisão e reprimir o tráfico de drogas, foram apreendidos seis fuzis, seis pistolas, quatro granadas, 20 kg de maconha, cerca de quatro mil papelotes de cocaína, material de contabilidade do tráfico de drogas e radiotransmissores.

(*Com redação de Nara Alves)

 

Saiba mais sobre: operação policial - bala perdida

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