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Acupuntura: mito ou ciência?

08/10 - 00:03 - Agência Estado

Acupuntura: mito ou ciência? Por Hong Jin Pai (*) São Paulo, 04 (AE) - Artigo publicado recentemente na revista americana "Archives of Internal Medicine" sobre trabalho coordenado por Michael Haake, da Universidade de Reagensburg, Alemanha, aponta a acupuntura como opção eficiente e promissora no tratamento da dor lombar crônica, mas sugere que os bons resultados encontrados tenham sido apenas decorrência do efeito placebo. A pesquisa envolveu 1100 voluntários divididos aleatoriamente em 3 grupos: o tratado com acupuntura verdadeira, o com a falsa acupuntura (em que as agulhas foram inseridas superficialmente e em locais não correspondentes aos pontos clássicos) e o grupo tratado com antiinflamatórios e exercícios físicos.

A avaliação da melhora da dor foi realizada após 6 meses através de um questionário que revelou um índice de melhora de 47%, 44% e 27% respectivamente.

A interpretação desses resultados foi lamentavelmente equivocada, uma vez que tanto na que o autor denominou "acupuntura falsa" quanto na denominada "acupuntura verdadeira", as agulhas estimulam terminações nervosas que existem em qualquer local do corpo. Estes estímulos ativam os sistemas nervosos central e periférico promovendo a liberação de substâncias tais como endorfinas, serotonina e dinorfina entre outras com efeitos antiinflamatório, analgésico, de relaxamento muscular, antidepressivo, ansiolítico etc, o que resulta em índices de melhora maiores que o obtido pelo grupo tratado com antiinflamatórios e exercícios.

A diferença entre a "acupuntura verdadeira" e a que os autores intitularam de "falsa" está na rapidez dos resultados. Quando uma agulha é inserida corretamente no local e com a profundidade indicada o efeito é mais rápido. Entretanto como a acupuntura tem efeito cumulativo e prolongado no organismo, essa diferença desaparece após 15 a 20 sessões.

Não podemos chamar de "falsa" a técnica de inserção das agulhas utilizada na pesquisa, uma vez que ela faz liberar as mesmas substâncias da técnica que foi chamada de "verdadeira". Seria mais apropriado chamá-la, para distingui-la de "verdadeira", de "acupuntura mínima".

Em um dos nossos trabalhos desenvolvidos no Centro de Dor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, no tratamento de dores crônicas ou de lesão nervosa, os resultados encontrados foram diferentes - 68% de melhora com a acupuntura verdadeira, e 30% com a acupuntura mínima.

A diferença entre os nossos resultados e os dos autores alemães pode ser decorrente da qualificação dos médicos acupunturistas dos dois grupos. Utilizar os pontos de acupuntura na sua localização correta e precisa e na profundidade desejada exige conhecimento, prática e experiência. Na Alemanha, a duração do curso de acupuntura é de 120 horas e aqui é de 600 horas. Provavelmente as duas técnicas usadas no trabalho alemão foram de acupuntura mínima. REFERÊNCIA INTERNACIONAL A acupuntura nasceu na China há milênios e difundida por todo mundo. O Brasil, por ser um país que recebeu migrantes dos mais diversos recantos da Terra, sofreu influência de técnicas de acupuntura também diversas, bem diferentes da chinesa, a autêntica, a única integrada à Medicina Moderna a partir de 1980. Essa diversidade "permitiu" uma explicação equivocada baseada unicamente na Medicina Tradicional Chinesa, trazendo confusão e prejuízo à evolução da Acupuntura no nosso país.

Mitos como cura de câncer e aids, que as agulhas possuem energia própria, que as incisões cirúrgicas "danificam" os meridianos podendo causar a morte do paciente, diagnósticos dados através do pulso radial e da língua, e como se não bastasse, um dos livros amplamente adotado no Brasil, escrito por um não-médico de origem italiana, descreve conceitos, evolução e tratamento das doenças baseado somente em filosofia da Medicina Chinesa com pelo menos 30% de erros graves e equivocados. E ele por ser não-médico, dispensando assim os modernos diagnósticos da Medicina Ocidental.

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A acupuntura foi reconhecida no País como especialidade médica em 1995 pelo Conselho Federal de Medicina e no ano seguinte pela Associação Médica Brasileira. Hoje, pelo menos 3000 médicos já possuem o Título de Especialista em acupuntura e encontram-se clinicando em Unidades Básicas de Saúde, Hospitais universitários e públicos além das Clínicas particulares no Brasil MAIS CRITÉRIO As publicações científicas estão sendo avaliadas com mais critério, cerca de 800 por ano no mundo.

Hospitais do porte do HC da FMUSP desenvolvem trabalhos científicos de qualidade, motivo pelo qual 30% dos alunos do 4°ano de medicina optaram por estágio em acupuntura (entre 150 outras opções), e a prática de acupuntura está presente na Liga de Acupuntura, no Centro de Dor da Clínica Neurológica, Centro de Acupuntura no Instituto de Ortopedia e Traumatologia, Clínica Médica e Geriátrica e Instituto da Criança. Em maio passado, Dr. Wu Tu Hsing, Dra. Yolanda Garcia e eu, estivemos na China para proferir palestras e ministrar workshops no IX Congresso de Medicina Física e Reabilitação da China e na Faculdade de Pequim. Outras conceituadas Universidades também manifestaram interesse de promover intercâmbio conosco.

Por ocasião da abertura do VII Congresso Internacional de Acupuntura de São Paulo, que acontece de 5 a 7 deste mês, dois desses acordos estarão sendo concretizados, acontecimento que reforçará o fato da acupuntura do Brasil já ser referência internacional. Durante o Congresso, um naipe de autoridades médicas do Brasil darão palestras de assuntos atuais e 12 convidados estrangeiros do mais alto gabarito irão demonstrar sua experiência por meio de palestras e workshops no tratamento de diversas doenças, tornando assim este evento, o mais importante já realizado no Brasil. Estamos lançando neste evento a "Coletânea Ceimec" com mais de 100 artigos científicos demonstrando a preocupação dos grupos do HC da FMUSP e do Ceimec com a melhora de nível e o embasamento científico da acupuntura que assim como a Medicina Tradicional Chinesa não pode ser vista como algo intocável, pelo contrário deverá sempre de ser aprimorada.

* Dr. Hong Jin Pai, pós-graduado em Acupuntura na Faculdade de Medicina Tradicional Chinesa de Pequim, China. Médico do Centro de Dor e docente do Centro de Acupuntura do instituto de Ortopedia e Traumatologia do HCFMUSP. Coordenador dos Cursos de Especialização em Acupuntura CEIMEC. Presidente da Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura de São Paulo.





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