25/09 - 14:14, atualizada às 17:48 25/09 - Mariana Lanza, do Último Segundo
Dois meses depois do acidente com o Airbus A320 da TAM, em julho deste ano, quando 199 pessoas morreram, na pior tragédia da história da aviação brasileira, os familiares das vítimas tentam retomar a rotina e fazem questão de incluir, neste cotidiano, o acompanhamento das investigações sobre o acidente.
Mauricio Pereira, pai de Mariana Simonetti Pereira
Mauricio Pereira é diretor de uma clínica médica em Aracaju (SE). Até o último dia 17 de julho, ele trabalhava pensando no futuro de sua filha,
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| Mariana Simonetti Pereira estudava Medicina |
Dois meses após o acidente, o médico acompanha de perto as investigações. “Meu sentimento já foi de raiva, agora está mais brando. Vou continuar duro, mas não quero perder a ternura. Talvez ela (Mariana) não quisesse que sentisse raiva”, afirma ele.
Christophe Haddad, pai de Rebeca Haddad
“Estava na minha casa e entrou ao vivo na televisão que tinha um problema no Aeroporto de Congonhas. Na hora falei pra minha mulher: acho que as meninas não vão conseguir pousar”, recorda Christophe
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| Christophe Haddad com a filha Rebeca |
Rebeca, de 14 anos, morava em Porto Alegre com a mãe e o irmão Samuel, de 11 anos. Ela ia passar quinze dias na casa dos avós de sua amiga da escola Thais Scott, em São Paulo. Quando estava na sala de embarque do Aeroporto Salgado Filho, a adolescente fez a última ligação ao pai. “Papai, eu te amo. Muito obrigada pela viagem” foi a última coisa que ela disse a Christophe, que acrescenta “só por isso já dá pra imaginar a filha que ela era, né? Ela valorizava o que recebia dos pais”.
Rebeca estava muito contente, pois era a primeira vez que viajava sozinha com uma amiga. “Ela era uma menina muito responsável. Tinha total confiança na minha filha. Era o início da vida, de poder sair sozinha”, diz o pai.
Além dos pais, quem sofre muito com a ausência da adolescente é o irmão Samuel. “Está muito complicado. Eles eram muito unidos. O Samuel não entende como a irmã foi viajar de férias e não vai voltar mais”, conta Christophe.
Dois meses depois do acidente, Christophe Haddad tenta retomar os compromissos. “A gente tem que começar uma nova vida. Aquela que tínhamos acabou. Agora é outra vida, uma vida de sofrimento. São 199 famílias destroçadas”, desabafa.
Fanática pelo Grêmio, contra a vontade de Christophe que torce para o Internacional, Rebeca Haddad pensava em ser jornalista. “Ela se comunicava muito bem e escrevia muito bem. Talvez seguisse na área esportiva porque gostava muito de futebol”, afirma o pai.
Eneida Maria Fleck, tia de Fernando Fleck de Paula e filha de Suely Stuntf Fleck
Dona Suely Stuntf Fleck, de 73 anos, passava por um momento delicado em sua vida. No último dia 16 de maio, ela perdeu seu marido e decidiu viajar com o neto Fernando Fleck de Paula, de 21 anos, para
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| Dona Suely Stuntf Fleck |
A filha de Dona Suely que comprou a passagem para ela, Eneida Maria Fleck, soube da tragédia pelo rádio ao sair do trabalho. “Foi um desespero, um horror”, conta Eneida, que lembrava exatamente o número do vôo em que estavam seus familiares.
Eneida e mais dois irmãos viajaram a São Paulo para acompanhar a fase de identificação das vítimas. O pai de Fernando de Paula, José Manoel de Paula Pessoa, também voou à capital paulista para obter notícias da sogra e do filho do meio. “Ele ficou abaladíssimo, desconectado, sem dormir, sem comer”, conta Eneida.
Fernando nasceu e cresceu em Fortaleza, mas adorava Porto Alegre. Ele estava no quinto semestre de medicina, morava com dois amigos e tinha uma namorada na capital gaúcha. Depois de formado, pretendia fazer residência e continuar morando na cidade onde seus avós viviam.
Dario Scott, pai de Thais Scott
“Estamos tentando descobrir como viver depois que se tem uma filha e ela é tirada da gente dessa forma. Eu queria tê-la por muito mais tempo”, diz Dario Scott, dois meses após o acidente com o Airbus da
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| Thais Scott com os pais Dario e Ana Silvia |
No dia 17 de julho, Thais Volpi Scott e a amiga da escola Rebeca Haddad embarcaram no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, para passar suas férias com os avós de Thaís, na capital paulista. O professor Dario Scott esperou as adolescentes, ambas com 14 anos, entrarem na aeronave para deixar o aeroporto.
Por volta do horário que o vôo JJ 3054 já deveria ter aterrissado, ele entrou em contato com o sogro, que iria buscá-las no Aeroporto de Congonhas. O avô de Thais disse que aguardava o desembarque das meninas, pois o avião já tinha pousado. Logo em seguida, recebeu um telefonema da mãe de Rebeca falando, aos prantos, sobre o acidente aéreo.
Dario, que sabia exatamente o vôo em que a filha tinha embarcado com sua amiga, confirmou o número do mesmo e viajou a São Paulo com a esposa para fazer o reconhecimento do corpo e sepultamento.
Dois meses depois da maior tragédia da aviação brasileira, o pai de Thais Volpi Scott conta que “a cada dia que passa fica mais difícil viver sem minha filha”. “Qualquer coisa que faço, lembro dela. A Thaís está sempre presente. Hoje mesmo fui ao supermercado e lembrei das coisas que ela gostava”, completa.
A adolescente era filha única do casal Dario Scott e Ana Silvia Volpi Scott. “A Thais era muito meiga. Às vezes pedia para eu contar histórias para ela dormir. Fazia hidroginástica com a mãe dela. Era muito ligada à família, aos avós, aos primos, amigas”, finaliza Scott.
Maurício de Ávila Severo, filho de Rosângela de Ávila Severo
Rosângela de Ávila Severo se despediu do filho Maurício de Ávila Severo por telefone, minutos antes de embarcar no vôo 3054 da TAM, em Porto Alegre. Ela participaria de uma convenção pela empresa em São
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| Maurício chora a morte de sua mãe |
Algumas horas depois de falar com sua mãe, um amigo de Maurício comentou sobre o desastre. Ele, então, juntou as informações de horário, empresa aérea, aeroporto e imaginou que Rosângela pudesse estar na aeronave que colidiu com o prédio da TAM Express. “Fiquei nervoso e comecei a ligar pra ela. Sempre caía na caixa postal. Desde então, minha vida começou a mudar”, diz Maurício.
A confirmação do vôo onde estavam a mãe e a tia de Maurício Severo foi feita pela empresa em que Rosângela trabalhava. “A partir deste momento, perdi o chão e o mundo caiu sobre minha cabeça. Fui parar em um hospital, pois perdi os sentidos. Algumas horas depois, fui ao Aeroporto Salgado Filho”, recorda.
Os familiares das vítimas da tragédia foram encaminhados a um hotel. Lá souberam os nomes dos passageiros que estavam no avião por meio de uma rádio local.
Após a confirmação da morte e o reconhecimento do corpo de sua mãe, Maurício retirou os pertences dela no Instituto Médico Legal de São Paulo. “Entregaram os pertences da minha mãe e da minha tia, os quais estavam queimados e ainda com um cheiro muito forte do combustível do avião, em um saco transparente. Tive que atravessar a avenida em frente ao IML até o Instituto da Criança expondo toda minha dor e uma vida queimada dentro de um saco”, recorda ele.
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