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Na imprensa americana, um Brasil perdido no espaço

25/09 - 12:13 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- Claro que a colisão entre o Boeing da Gol e o jatinho corporativo Legacy nos céus amazônicos em 29 de setembro de 2006 deu no "New York Times". Além de ser mais um acidente aéreo registrado no jornal, que supostamente publica tudo que mereça ser noticiado, o "New York Times" pôde acompanhar a tragédia da poltrona. Para ser mais preciso, da poltrona de couro no jatinho novinho em folha fabricado pela Embraer, na qual estava sentado Joe Sharkey, colunista do jornal, uma das sete pessoas a bordo que nada sofreram, ao contrário das 154 vítimas fatais do vôo 1907.

O "privilegiado" relato de Sharkey foi publicado no "New York Times" em 3 de outubro e ele se tornou celebridade instantânea e também motivo de ira no Brasil, pois de cara expressou preocupação com o destino dos dois pilotos do Legacy, os americanos Joe Lepore e Jan Paladino, detidos no Brasil. Ridículo achar, porém, que Sharkey tenha desdenhado as vítimas do Boeing da Gol. 
  
A cobertura do "New York Times" sobre o acidente nunca esteve a cargo de Sharkey, um mero colunista sobre viagens de executivos no caderno de economia do jornal, sem conhecimento técnico, e que fora ao Brasil fazer um "frila" para a revista "Business Jet Traveler". Em geral, os textos até hoje sobre o desastre são de responsabilidade de Matthew Wald, o especialista em aviação do jornal.    
   
Sharkey, porém, continuou no centro dos acontecimentos para os brasileiros pelos textos passionais no seu blog, denunciando anti-americanismo no Brasil, leviandade nas investigações sobre o acidente e o "linchamento" jornalístico dos dois pilotos. Estes temas também sobrevoaram por um bom tempo o noticiário mais técnico sobre o caso na imprensa americana, em destaque para o jornal da casa, o "Newsday", da região de Long Island, onde vivem os dois pilotos e fica a sede da empresa proprietária do Legacy, a Excelaire.
  
É ilustrativa a reportagem no "Newsday" em 29 de novembro enfatizando que "dois meses após a colisão, especiaistas internacionais em aviação estão questionando a isenção da investigação brasileira". Em outras ocasiões, havia observações que o foco das investigações nas primeiras semanas estava nos pilotos americanos e não nos controladores de tráfego aéreo brasileiros. Na sua cobertura, o "Newsday" "humanizou" Lepore e Paladino. por serem ""meninos da vizinhança", mas não os tratou como heróis.
   
Com o passar dos meses, a cobertura da imprensa americana foi esfriando, limitando-se ao registro de desdobramentos judiciais, geralmente a cargo de agências internacionais como a Associated Press. O acidente com o Airbus da Tam em 17 de julho, em Congonhas, reavivou o interesse americano na crise da aviação comercial brasileira. Houve até mais espaço para a cobertura de televisão devido ao "espetáculo visual" naquele começo de noite em São Paulo.
   
A imprensa do primeiro time, e aqui merece destaque o "Wall Street Journal", colocou o acidente com o jato da Tam em um contexto de caos aéreo internacional. Os brasileiros não estão, sozinhos, perdidos no espaço. Estão infelizmente morrendo com mais frequência.

 

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